Caminhos para os Outros Mundos

As sociedades ocidentais foram, por muito tempo, desconhecedoras do conceito de infância. Privadas do reconhecimento de uma natureza e estágio específicos, as crianças eram tratadas da mesma maneira que os adultos, relativamente expostas às mesmas atividades e modos de viver no cotidiano. O sentimento da infância como fase tenra e encantadora era inexistente.
As crianças são, de fato, diferentes dos adultos, mas não devem ser consideradas seres inferiores. E talvez seja por isso que muitas histórias do gênero infantil e juvenil apresentem os chamados “Outros Mundos”, para que lá se desenvolvam grande parte das aventuras e outros eixos da narrativa, por serem lugares diferentes do lugar-comum, longes dos adultos, os mundos que valorizam a infância. Geralmente, esses Outros Mundos são caracterizados como regiões desconhecidas representadas sob diversas formas: pode ser uma ilha, um país, um reino… Todos reservadamente distantes e que comumente possuem floras e faunas exóticas, habitados por criaturas fantásticas, como dragões, sereias, animais falantes etc. É a representação do próprio mundo interior da infância transformado em espaço, e lá as crianças vivem suas aventuras, desbravando terras desconhecidas, correndo riscos e, ao mesmo tempo, construindo suas identidades e dando provas de seus valores – totalmente distanciadas dos adultos, que estão ocupados demais com compromissos e “coisas mais sérias”, com sua conturbada e sempre urgente rotina, e, por isso, incapazes de encontrar e penetrar esses Outros Mundos. No final das histórias, os personagens retornam para o mundo-que-nunca-muda, mas eles estão diferentes, transformados, prontos para se tornarem adultos que não ignoram a magia da infância.
O mais interessante dessas histórias é que elas nos levam a um Outro Mundo, com diferentes realidades, mas de modo que suscitem questões sobre o nosso próprio mundo comum. Assim, acredita-se que em O mágico de Oz (L. F. Baum), por exemplo, boa parte da história é uma alegoria ao Movimento Populista dos EUA no final do século XIX. Além disso, ao sair da sua cinzenta região do Kansas para a fantástica e colorida Terra de Oz, a protagonista Dorothy conhece seus novos companheiros, o Espantalho, o Lenhador de Lata e o Leão Covarde, e, juntos, fazem dias de viagem almejando conseguir algo que eles mal percebem que já têm, conduzindo à mensagem de que muitas vezes não temos real conhecimento sobre nós mesmos e subestimamos nossas capacidades. Já as histórias ocorridas numa fantástica terra chamada Nárnia, em As crônicas de Nárnia (C. S. Lewis) – cuja entrada secreta é através de um guarda-roupa −, têm o propósito de também fazer uma alegoria ao Cristianismo, através, por exemplo, da representação do leão Aslan como figura de Cristo. De maneira mística e terna, as aventuras dos personagens Lucy, Susan, Peter e Edmund introduzem a questão da batalha do bem contra o mal e do sentido da religião nos estágios comuns da vida, como nascer, crescer, construir uma família, envelhecer e morrer. Na saga Harry Potter (J.K. Rowling), o território de fantasia principal é Hogwarts, localizada numa ilha distante, inacessível aos trouxas (não bruxos). Para além das diversas temáticas abordadas na obra – a luta do bem vs. mal, amizade, redenção, preconceito etc. −, ressalta-se o fato de que, diferentemente das demais obras infantis e juvenis, o espaço de fuga é uma escola, retratando uma conjuntura das sociedades atuais: a escola como instituição imprescindível na formação do ser, depois da família.
Além desses, há outros tantos exemplos que seguem nessa mesma linha: a Terra do Nunca, de Peter Pan (J. Barrie), o País das Maravilhas, em Alice no País das Maravilhas (L. Carroll), o Reino das Águas Claras, em Reinações de Narizinho (M. Lobato), e por aí vai… Mais do que fornecer grandes histórias, o marco dessas obras é o potencial de saber dialogar e cativar não só os leitores crianças e jovens, mas também, e talvez especialmente, os adultos.
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