100 armários: é tempo de deixarmos as crianças nadarem!

É bastante comum que mães, pais e adultos de maneira quase geral, baseados em certa noção de responsabilidade e dever inspirada no senso-comum, proíbam as crianças de avançarem além da região rasa de uma piscina. Assim, elas permanecem distantes dos perigos da profundidade, desautorizadas a avançarem, fadadas a movimentos redundantes e limitados, afastadas de qualquer possibilidade de mergulhos. Afinal, é assim que tem de ser, não é mesmo? É bastante compreensível que a maioria esmagadora enxergue nessa atitude um exemplo incontestável de responsabilidade paterna em exercício. No entanto, quando foi que impedir que crianças aprendam a sobreviver além da superfície passou a ser encarado como uma atitude protetora? Por trás dessa pretensa responsabilidade, reside o erro crasso de manter as crianças se debatendo na superfície das coisas, ao invés de ensiná-las a nadar e sobreviver além dela.
Por muito tempo, a quase totalidade da literatura infantil e juvenil esteve atrelada a abordagens superficiais, com pouca profundidade, restringindo-se a alguns temas tidos como “adequados”, limitando seu estilo e vocabulário. Tais atitudes aparentam seguir o curso natural, mas apenas revelam que a real superficialidade reside no olhar lançado sobre os leitores infantis e juvenis – um público que, não muito raro, é visto como naturalmente incapaz, inferior. E é nesse ponto que o talentoso N. D. Wilson entra em cena, com sua obra de fantasia que toca em questões pertinentes, fazendo-nos entender de uma vez por todas que é da natureza da criança nadar. E elas nadarão, e desenvolverão suas habilidades; é preciso apenas que derrubemos as represas que certos castores adultos andaram (e persistem) construindo.
100 armários, publicado em 2011 no Brasil pela editora Rocco, foi escrito por Nate D. Wilson, que vive em Idaho e é professor de literatura na Universidade de Saint Andrews, onde leciona Retórica Clássica. Escrever sobre esse livro não é uma tarefa fácil, e isso se deve, em especial, à força criativa de seu autor, ao poder de sua prosa, à consistência do universo que ele criou, ao contorno singular de seus personagens e cenários, bem como aos diálogos e narrativa que dão a conhecer a interioridade de cada um de seus personagens, em cujas mentes o leitor saltará a todo instante. Não é o propósito aqui analisar tecnicamente a obra do autor, mas é válido ressaltar que, ao destinar sua obra ao público infantil e juvenil, Wilson em nenhum momento os subestima. Pelo contrário, entrega-lhes uma história com camadas a serem vasculhadas, fazendo uso de vários mecanismos narrativos, homenageando obras importantes – como O mágico e Oz e As crônicas de Nárnia, apostando nas habilidades de inferência de seus leitores-em-desenvolvimento, dando-lhes a chance de desenvolverem suas capacidades e transformá-las em habilidades, permitindo-os avançar em um mergulho para além da superfície.
Ele[Henry]não estava ansioso para se reunir com sua tia Dotty e seu tio Frank. Não porque desgostasse deles, mas porque ele levara uma vida que o ensinara a jamais esperar muito de nada.
Henry York é um garoto de doze anos que, após receber a notícia de que seus pais foram sequestrados enquanto realizavam um projeto pessoal na América Latina como escritores itinerantes, passa a morar com seus tios em uma cidade tranquila e silenciosa no estado do Kansas. Frank e Dorothy Willis moram com suas três filhas: a agitada Anastásia, a caçula; a aventureira Henrieta, a filha do meio; e a sensata Penélope, a mais velha. Certa manhã, ao acordar, Henry se vê coberto por pequenos pedaços de gesso que haviam escapado da parede do seu quarto e, no lugar antes recoberto, ele nota a presença de duas maçanetas bastante peculiares. Henry ainda não sabe, mas esse é o começo de uma história que, até então, ele julgava impossível. A descoberta de coisas que os adultos lhe ocultavam a fim de mantê-lo “em segurança”.
100 armários é sobre aprisionar as crianças, atrelando-as ao pequeno mundo de seus quartos, de seus percursos, movimentos e atividades rotineiros. Sobre alimentá-las com livrinhos-receita que as impedem de expandir suas referências, conhecimentos e concepção de mundo. Sobre como falhamos grandemente ao esconder delas o que há por detrás do gesso que recobre as diversas áreas das relações humanas, e que cedo ou tarde se desintegrará sobre elas, revelando-lhes o completo desconhecido, com o qual terão de lidar. É uma história sobre a crueldade que envolve deixar as crianças se debaterem na superfície estéril das coisas, tateando no escuro, em meio aos objetos cortantes e pontiagudos que fazem parte da vida (social e psicológica) para a qual estão caminhando, e que nos esforçamos por lhes esconder. É, ainda, sobre a importância de escrever às crianças, dando-lhes um banquete, não pão ázimo. Trata-se de um oceano em formato portátil, uma caravela, um submarino, O peregrino da alvorada em papel e tinta, no qual todos, adultos e crianças, estão convidados a embarcar e navegar por mares repletos de possibilidades.
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