O golpe kafkiano ou Pequena genealogia da invenção da infância

Conta-se que, certa tarde, quando Franz Kafka passeava pelo parque de Steglitz, em Berlim, foi surpreendido por um convulsivo choro infantil. Após perceber que o lamento vinha de uma menina que estava sozinha no parque, o escritor procurou descobrir qual era o motivo do seu pranto. E foi assim que soube que ela chorava por ter perdido a sua boneca. Querendo consolar a criança, cujas lágrimas não cessavam, Kafka inventou que o seu brinquedo não estava perdido, mas que havia viajado, e ele – um carteiro de bonecas – possuía algo em seu poder que lhe entregaria no dia seguinte. Diz-se que a partir de então, e durante algumas semanas, o autor de A metamorfose escreveu cartas para a menina como se ele fosse a sua boneca. De várias partes do mundo, dos lugares mais exóticos, a boneca narrava suas experiências pelas mãos de Kafka, e a menina consolava-se da perda ao passo que também viajava para lugares magníficos. Tal fato foi narrado por Dora Diamant, a última companheira do escritor, que o acompanhou até os derradeiros dias de vida e que relatou, em seu livro Minha vida com Kafka: “Alguns dias depois, a criança esquecera a perda do seu brinquedo e só pensava na ficção que ele [Kafka] lhe oferecera como compensação” (DIAMANT apud LEMAIRE, 2006, p 227). No entanto, não se sabe ao certo se essa história é real, pois as cartas jamais foram localizadas e a suposta criança nunca reivindicou a sua participação na biografia de um dos maiores nomes da literatura mundial. Relata-se que, durante anos, Klaus Wagenbach, um estudioso da obra de Kafka, procurou a menina – de quem sequer se sabe o nome – pelos arredores do parque. Casa por casa, interrogou os vizinhos, colocou anúncio nos jornais, e tudo em vão. Mesmo assim, menciona-se que, ainda hoje, muitas pessoas procuram por essa menina e por aquelas cartas – as quais, caso fossem encontradas, se constituiriam em um dos documentos mais importantes de um dos maiores artistas do século XX: uma obra de Kafka, escrita no último ano de sua vida, exclusivamente para uma pessoa – a menina que chorava desconsolada no parque por ter perdido sua boneca.
Desconhece-se o paradeiro dessas cartas ou se elas realmente existiram. Mas houve um autor que contou essa história em um livro, e justamente em um livro de literatura infantil/juvenil. Kafka e a boneca viajante é o nome da obra, escrita pelo galego Jordi Sierra i Fabra, que procurei com grande entusiasmo quando soube da sua existência, por considerar que um livro destinado a crianças e adolescentes que trouxesse (mesmo que ficcionalizadas) as cartas do autor de O processo para uma criança, como se escritas fossem por uma boneca (e uma boneca viajante), seria, no mínimo, extraordinário. Eu – que tanto aprendi (ou que acho que aprendi) sobre o mundo, sobre os homens, sobre o poder alienante das instituições, a partir da leitura de Kafka, e que tanto me angustiei quando li suas obras – esperava encontrar nesse livro talvez um Kafka não tão terrível e complexo como aquele que escreveu O Processo, O descobrimento da América, O artista da fome, Na colônia penal, Carta ao pai… pois, afinal, tratava-se de um livro escrito para crianças e adolescentes. Mas, ainda, um Kafka.
Não o encontrei. O Kafka urdido em Kafka e a boneca viajante é disciplinador. Escreve para ensinar a menina a se comportar bem, a ser obediente: “Espero que você esteja se comportando muito bem agora que não estou aí, que coma tudo direitinho e não aborreça [sua mãe].” (SIERRA I FABRA, 2008, p. 63) Induz a criança a simplesmente respeitar as instituições; não a deixa livre para percebê-las e, se for o caso, questioná-las; não a inspira a transformar-se em inseto ou qualquer coisa do gênero, para dizer não a tudo que a enclausura. Media o mundo para a criança de um modo que menospreza a sua capacidade de lidar com os signos, de lidar com o próprio mundo, por mais caótico que ele seja. Não lhe apresenta, sem impor, a chave da porta ou as possibilidades de ida e de volta. Antes, a encerra em uma caixa e lhe transmite do mundo apenas aquilo que julga adequado, conveniente. Isso, na minha concepção, é o que há de mais discutível em grande parte da literatura destinada à infância e à adolescência – essa pulsão de triagem – e remonta à emergência da noção de infância ou à sua invenção.
Somente partindo-se do pressuposto de que as subjetividades, as identidades e, consequentemente, as identificações bioculturais (como a infância) não possuem uma origem essencial – sendo, ao contrário, construídas historicamente através de práticas de poder, de saber ou por técnicas de si – é que podemos considerar que, até o final do século XVII e início do século XVIII, o homem ocidental não conhecia o sentimento de infância que hoje nos parece tão “natural”, e não se precisava dele. Não existia a necessidade, dentro do sistema político e social feudal, de haver um período de preparação para o futuro, uma vez que este já estava definido. No entanto, a irrupção da revolução industrial deflagrou não somente o crescimento político, financeiro e populacional das cidades e a decadência do poder rural e do feudalismo remanescente desde a Idade Média, mas também a consolidação da burguesia enquanto classe social. Tal modificação reconfigurou radicalmente as formas de constituição da sociedade, pois, se antes a divisão em classes era estática, estável e predeterminada pela linhagem, após a ascensão da burguesia, tem-se uma maior mobilidade social, instituindo-se a possibilidade do vir a ser.
A possibilidade do vir a ser gerou uma nova forma de compreensão da infância, uma vez que se tornou necessário estabelecer uma etapa preparatória para o ingresso do homem no sistema produtivo. A criança, que anteriormente não possuía nenhuma forma de distinção em relação aos adultos, passou então a representar a promessa de futuro. Sendo assim, deveria ser aparelhada, moldada para se transformar em algo grandioso. Mais do que isso, a criança consistia também no futuro da nação e da raça, e deveria, para tanto, ser produtora, reprodutora, cidadã e soldado do amanhã. Todavia, nada era tão simples assim. A universalidade que o modelo familiar burguês pretendia alcançar esbarrava no seu desejo de separação social. De acordo com os interesses do Estado, os cidadãos recebiam tratamento diferenciado. Em suma: não era qualquer criança que tinha direito à infância, como hoje também não é, e, além do mais, os direitos não eram (e não são) equiparáveis.
Foram os meninos burgueses os primeiros a experimentarem a infância, sobretudo porque essa nova classe, à época, podia investir tempo, afeto e dinheiro nos pequenos seres. O sentimento de infância com relação às crianças do povo, os filhos dos artesãos e dos camponeses, só emergiu quando se tornou necessário – com a industrialização acelerada – o investimento em força de trabalho especializada. Ou seja, o conceito de infância com relação às crianças burguesas implicava a sua preparação para assumir os bens da família e, no que diz respeito às crianças pobres, subordinava-se à sua utilidade como fonte de mão de obra barata. E, além da restrição de classe, havia ainda a restrição de gênero. Até o século XVIII, o sentimento de infância não abrangia as crianças do sexo feminino. Apenas os meninos eram distinguidos pelo traje e aceitos nas escolas, enquanto as meninas continuavam em casa, vestindo-se como mulheres e participando da vida em comunidade da mesma maneira. Algumas se casavam a partir dos doze ou treze anos de idade, mas nem isso lhes dava qualquer tipo de distinção: elas continuavam inexistindo enquanto indivíduos. Mesmo após serem acolhidas na infância, as crianças do sexo feminino, e as mulheres de um modo geral, continuaram recebendo tratamento diferenciado com relação ao sexo masculino no que concerne à educação, ao trabalho e à possibilidade de fazer escolhas. Todavia, aqui não trataremos desse assunto.
Quando se inventou a infância, tornou-se necessário por parte da sociedade o investimento em instituições que separassem, vigiassem, treinassem e controlassem os indivíduos, com o objetivo de extrair deles o máximo de tempo e de trabalho. A família e a escola foram eleitas as principais instituições para esse fim. Tornou-se então tarefa da família e, sobretudo, da escola, domesticar, disciplinar, instrumentalizar essa criança recém-inventada, essa promessa de vir a ser, para que a mesma se adequasse às tarefas que desempenharia mais tarde, na fase adulta. Assim sendo, mostrou-se também imperativa a criação de múltiplos equipamentos para sua regulação, controle, cuidado etc. Dentre tais equipamentos – ou tecnologias, como escreveu Foucault, a propósito da constituição da subjetividade – está a literatura infantil: um instrumento da escola, com objetivos sobretudo didáticos e moralistas.
O vínculo estreito da literatura infantil com a pedagogia desde o seu surgimento resultou de uma necessidade da ordem burguesa em estabelecer normas de convivência, comportamentos, modos de ser, de viver e de fazer, com vistas a preparar as crianças para o ingresso futuro no sistema produtivo. Para tanto, os contos da tradição oral, por exemplo, que inicialmente foram recolhidos e adaptados por Charles Perrault de modo a se tornarem histórias exemplares para os membros da burguesia francesa, posteriormente passaram a constituir material adequado para o disciplinamento das crianças: um lobo mau poderia devorar aquelas garotinhas que fossem desobedientes e curiosas; as mocinhas que permanecessem humildes e dóceis, apesar de humilhadas, maltratadas, alcançariam a redenção (o sapatinho de cristal).
A literatura infantil é o único gênero literário designado a partir de seu leitor, tendo surgido justamente quando se construiu a ideia de particularidade infantil que diferencia a criança do adulto. E essa especificidade do público é determinante para a escolha da linguagem, dos temas e da forma da abordagem dos temas – pois a criança, supostamente, não experienciou os mesmos acontecimentos que os adultos, nem recebeu a mesma carga de conhecimento e, portanto, seguindo essa linha de raciocínio, não seria capaz de apreender as mesmas informações com a mesma linguagem. Por isso, ao escrever para uma criança, um adulto necessitaria adequar seu discurso a esse “outro”. Esse empenho de adequação é o que muitas vezes macula o gênero, pois o autor corre o risco de incorrer numa postura superior, formadora, pedagógica – como é o caso, a meu ver, da obra Kafka e a boneca viajante. Tendo isso em vista, não reluto em dizer que o Kafka personagem do livro de Jordi Sierra i Fabra afasta-se sobremaneira daquele Kafka que escreveu em carta à noiva Felice Bauer:

Parece-me que deveríamos apenas ler livros que nos mordam e espicacem. Se a obra que lemos não nos desperta como um golpe de punho sobre o crânio, qual a vantagem de a ler? Para que nos torne felizes? Meu Deus, seríamos da mesma forma felizes se não tivéssemos livros. […] Um livro deve ser o machado que rompe o mar gelado existente em cada um de nós. (KAFKA, Franz apud CANETTI, 1990. p. 98)

Eu, que, de certa forma, ainda acredito no poder transformador da literatura, entendo que mesmo as crianças e os adolescentes necessitam desse golpe kafkiano (ou sobretudo eles, enquanto é tempo). E nenhum outro leitor é capaz, mais do que eles, de transformar toda desordem em saber, ou em outra coisa muito, muito mais além. E talvez tenha sido por isso que Gérard-Georges Lemaire, um dos biógrafos do escritor tcheco, escreveu que, com a história da menina que perdeu a boneca, Kafka conheceu a sua leitora ideal, alguém que preferia a fantasia à realidade. Ou alguém que saberia como ninguém lidar com a realidade travestida de fantasia.

REFERÊNCIAS

CANETTI, Elias. O outro processo. Cartas de Kafka a Felice. In: A consciência das palavras. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. pp. 84-188.
LEMAIRE, Gerard-Georges. Kafka. Trad. Júlia da Rosa Simões. Porto Alegre: L&PM, 2006.
SIERRA I FABRA, Jordi. Kafka e a boneca viajante. Trad. Rubia Goldoni. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Imagem: ilustração de Pep Montserrat para o livro Kafka e a boneca viajante.

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