Crianças racistas

Em 2015, no programa Hoje em Dia (TV Record), foi ao ar um teste realizado pelo diretor e apresentador de televisão Elcio Coronato, no qual duas atrizes mirins, uma negra e outra branca, ambas com a mesma idade e usando roupas idênticas, simulam estar perdidas em um muito movimentado centro da cidade. Cada uma delas deveria permanecer no local por uma hora. O objetivo do teste: observar a reação, a atitude, a solidariedade das pessoas em relação às crianças evidentemente abandonadas.
Após mais de 1 hora parada no meio da rua movimentada (ultrapassando assim o tempo estipulado), a criança negra foi abordada apenas uma vez. Chega então a vez da criança branca, que foi abordada logo após o primeiro minuto, e continuou sendo abordada várias vezes conforme o teste seguia. Em pouco tempo, a criança branca chegou a reunir dezenas de pessoas ao seu redor; além disso, a Guarda Municipal foi acionada e chegou rapidamente ao local. A criança branca praticamente “parou” o centro, e não foi necessário permanecer 1 hora no local.
Esse é um exemplo que considero fortemente ilustrativo a fim de refletirmos acerca do lugar que a criança negra ocupa na sociedade. É importante lembrar que o que foi simulado nesse teste acontece todos os dias em várias partes do país. Crianças se perdem, ficam expostas e vulneráveis a indivíduos mal intencionados, sendo que a cor dessas crianças jamais deveria ser relevante para determinar o sucesso em sua identificação. As várias pessoas que transitaram pelo citado centro movimentado estavam cegas quanto à presença da criança negra – ou, para ser mais específico, identificaram a criança negra como pertencente àquele lugar. Mas não a criança branca, que imediatamente causou um estranhamento, despertou a solidariedade dos transeuntes. As pessoas olhavam aquela criança e a viam deslocada, afinal, criança branca não deve estar desacompanhada, sozinha, na rua. Aquele não era o seu lugar.
Que força é essa que move o coletivo à se mobilizar em prol da criança branca e a se manter inerte quanto à criança negra? Sabemos que se trata de uma herança maldita que ainda nos é legada, mais uma manifestação perversa do racismo institucionalizado existente em nosso Brasil. No entanto, não é minha proposta discorrer estatisticamente acerca do tema. Pretendo apenas compartilhar algumas considerações.
Há alguns anos, em uma visita à casa de meus pais, fui surpreendido pela fala chorosa de uma criança branca de três anos de idade, que estava sob os cuidados da minha mãe. A criança estava diante da minha mãe e a ela se dirigia quando falou, irritada e à beira das lágrimas, reivindicando para si o brinquedo com o qual outra criança se divertia no mesmo recinto. Minha mãe então a orientou a se juntar com outra criança a fim de brincarem juntas, ao que ela respondeu com um sonoro e estridente “Nããããão!”, as lágrimas já escorrendo e os pés batendo no chão. Então eu perguntei a criança por que ela não queria brincar; espantosamente, ela me respondeu: “Porque ele é preto!”
Nunca me esqueci disso. Nem de como todas as pessoas mais velhas que estavam ali (a maioria negra) acharam tudo muito engraçado, quando deveriam estar chocadas com o fato de uma criança possuir uma adaga desse tipo e usá-la contra outra por causa da cor de sua pele, inferiorizando, desumanizando e excluindo sua igual. Não me esqueci da maneira como senti um aperto imenso no peito ao notar que o garoto alvo do racismo tentava achar graça daquilo que não se parecia nem um pouco com uma piada, mais com uma ofensa. Tudo parecia onírico demais, grotesco demais para ser levado a sério.
O tempo foi passando e, com frequência assustadora, eu notava como crianças ofendiam outras, desqualificando seus traços negros, como o tamanho do seu nariz (“nariz de panela”), o tipo de cabelo (cabelo duro, ruim, de Bombril!), o formato dos lábios (e aqui notei a ocorrência de palavras de baixo calão) e, o mais frequente, a cor da pele (nêga preta, nigrinha). Um caso interessante foi a ofensa “nêga preta do bozó”, que desqualifica tanto a negritude quanto a religião e a ancestralidade do indivíduo. E muitas crianças que venho observando até hoje parecem estar muito bem munidas de expressões desse tipo, prontas para usá-las com total liberdade e sem a menor repreensão, por vezes gerando risos.
E foi assim, estando atento aos momentos de discussões entre crianças, que eu descobri e continuo a descobrir as várias formas pelas quais elas também podem ser racistas, ou mais especificamente, reproduzir o racismo que veem a sociedade proferir (em casa, nas escolas…). Descobri, ouvindo e vendo acontecer, que as crianças podem aprender a acreditar que são superiores às outras pela pouca melanina que possuem na pele, ou mesmo discutir com outras a fim de descobrir quem é “menos preto” – contaminadas pelo sistema opressor no qual estão inseridas, que pouco e mal representa o negro. Acredito, sem margem para dúvida, em um condicionamento resultante da não representatividade do negro na sociedade, dos discursos racistas partilhados e disseminados, de uma ideia postulada quanto ao lugar do negro.
A criança não desenvolve preconceitos por si mesma – ela os aprende. 
Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar. (Nelson Mandela, 1995)
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