Tia Nastácia: a negra “de estimação”

Não é novidade que Lobato é considerado o pai da literatura infantil brasileira. Com uma linguagem voltada ao público infantil e a desrepressão da infância em suas obras, grandes novidades para a época em que foram escritas, o autor conquistou gerações de leitores – e conquista até hoje. Apesar disso, há um aspecto dos textos do autor que não pode deixar de ser questionado por quem os lê atualmente – a representação, marcada pelos estereótipos raciais, da personagem Tia Nastácia.
Apesar de a literatura infantil e juvenil brasileira ter começado a ser publicada no final do século XIX e começo do século XX, as personagens negras surgem apenas no final da década de 1920 e início da década de 1930, no contexto de uma sociedade que tinha abolido a escravidão havia pouco tempo. As histórias daquele período buscavam destacar a condição de subalternidade do negro. Por esse motivo, nenhum aspecto da cultura era apresentado por um viés positivo. Os negros eram retratados nessas obras, de acordo com Jovino (2006), como personagens que “não sabiam ler nem escrever, […], ou seja, não possuíam o conhecimento considerado erudito e eram representados de um modo estereotipado e depreciativo”.
Fazendo uma análise da personagem feminina negra na época, Jovino (2006) observa que ela é sempre representada como a empregada doméstica de uma família branca, “[…] retratada com um lenço na cabeça, um avental cobrindo o corpo gordo: a eterna cozinheira e babá”. Esse é, certamente, o retrato de Tia Nastácia, personagem de Monteiro Lobato. Em certos momentos do texto de Lobato, Tia Nastácia é descrita como a negra de estimação, algo como a velha frase que ainda se ouve hoje: “é como se fosse da família”. As demais personagens tratam Tia Nastácia com o que Lajolo (1999) chama de um “carinho brincalhão” – com exceção de Emília, que sempre desrespeita a cozinheira, como se pode perceber no exemplo que consta na obra Peter Pan:
– Cale a boca! – berrou Emília. – Você só entende de cebolas e alhos e vinagres e toicinhos. Está claro que não poderia nunca ter visto fada porque elas não aparecem para gente preta. Eu, se fosse Peter Pan, enganava Wendy dizendo que uma fada morre sempre que vê uma negra beiçuda…
– Mais respeito com os velhos, Emília! – advertiu Dona Benta. – Não quero que trate Nastácia desse modo. Todos aqui sabem que ela é preta só por fora. (LOBATO, 2012, p. 22)
Quase nunca, nesses momentos, há repreensão do comentário de Emília por outra personagem. E, quando há, como é o caso, pode-se perceber que a questão não é problematizada. Ao contrário, há o reforço dos estereótipos raciais disfarçado pelo afeto que os demais habitantes do Sítio do Pica Pau Amarelo sentem por Tia Nastácia.
Outro exemplo da desvalorização da personagem presente no texto de Lobato se encontra no início da narração de Peter Pan por Dona Benta, no momento no qual Tia Nastácia pede para que a narradora a espere, pois ela também quer ouvir a história. Emília reage a esse comentário dizendo “Bo-ba-gem! Para que uma cozinheira precisa saber a história de Peter Pan?” (LOBATO, 2012, p. 13)
Segundo Lajolo (1999), reações desse tipo por parte da boneca de pano fazem com que surjam “leituras que tomam o xingamento como manifestação explícita do ‘racismo’ de Lobato […].” A representação do negro que consta nas obras de Lobato não é muito diferente das que são contemporâneas a ele. Porém, ainda de acordo com Lajolo (1999), a discussão dessa representação não deve se esgotar na denúncia desses comportamentos da boneca, mas também se expandir para a análise em uma obra que tem como título o nome da personagem que está em foco.
Tomando a partir daí a obra Histórias de Tia Nastácia como emblemática do tratamento dado a essa personagem nas narrativas de Lobato, observam-se alguns aspectos da história que são importantes para analisar a representação de Tia Nastácia nas outras obras. Na narrativa em questão, Tia Nastácia conta histórias do folclore para as outras personagens do sítio e, durante os comentários delas, entre uma história e outra, as críticas não são poupadas. Essa não é uma novidade desse livro, visto que isso acontece em outras narrativas lobatianas – as personagens costumam criticar, em seus textos, histórias antigas. Porém, a questão está no valor que as demais personagens dão às histórias provenientes da tradição letrada e moderna, o que confina à marginalidade as demais produções culturais.
Assim como são recorrentes na obra infantil lobatiana as críticas às histórias tradicionais, também é comum em seus textos o aparecimento da narrativa “em encaixe”, isso é, a narrativa dentro da narrativa. Esse modelo, que está presente nas Histórias de Tia Nastácia, também ocorre em Peter Pan e em D. Quixote das crianças, de acordo com Lajolo (1999). A contadora de histórias dos dois últimos livros citados é Dona Benta, que
[…] conta as histórias que lê em livros estrangeiros, e enquanto adulta e reconhecidamente mais experiente, narra de um espaço hegemônico em relação aos seus ouvintes. Já quando Tia Nastácia assume a posição de contadora de histórias […] transfere […] a inferioridade sócio-cultural da posição (de doméstica) que ocupa no grupo e além disso (ou, por causa disso…), por contar histórias que vêm da tradição oral não desempenha função de mediadora da cultura escrita, ficando sua posição subalterna à de seus ouvintes, consumidores exigentes da cultura escrita […]. (LAJOLO, 1999, p. 68)
Após essa breve análise, fica a questão: qual o lugar do negro no Brasil forjado por Monteiro Lobato? Levando-se em consideração que o autor busca representar as contribuições culturais dos negros, o que não era comum nas obras do período, entende-se que há um lugar para os negros no Brasil apresentado por ele, cujo sítio é uma metonímia do Brasil. Porém, essa representação deve ser problematizada, pois o negro em Lobato é colocado em posições hierarquicamente inferiores às dos brancos e possui apenas um papel nessas obras, que é aquele tipicamente destinado a eles na literatura dos anos 1930. Os trechos preconceituosos da obra de Lobato são, dessa maneira, encarados como parte de um passado histórico e não devem ser apagados, mas sempre problematizados e questionados.
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Um comentário sobre “Tia Nastácia: a negra “de estimação”

  1. Infelizmente a ideia de uma democracia racial está longe de ser concretizada… Não obstante, é fácil notar nos telenovelas, filmes, seriados, etc. os grandes estereótipos da cultura negra. Se não olharmos atentamente ficaremos sempre expostos as diversas formas de discriminação racial. Vale lembrar, que além desta personagem do autor supra citado, “o jeca tatu”, é uma das personagens também extremamente marcada pela negatividade.
    Por fim, adorei o projeto, quero parabenizá-los pelas discussões ofertadas e desejo continuar acompanhando-os.

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