Os adolescentes de Harry Potter: I – Draco Malfoy

Primeira iniciativa conjunta do Blog Cartografias, esta série de posts se debruça sobre alguns personagens adolescentes do universo Harry Potter, tomando-os como arquétipos de jovens em nossa sociedade. Com isso, buscamos identificar o espaço psicológico e social que esses personagens ocupam na trama, e como nós, enquanto leitores, vemos ao longo dos livros as consequências do tipo de criação que esses jovens tiveram.

 

A fim de abranger um contingente adequado e diverso, optamos pela escolha de um personagem de cada casa de Hogwarts – Sonserina, Grifinória, Corvinal e Lufa-lufa – e mais um jovem não-bruxo, isso é, trouxa. Ao longo da semana, teremos vários posts, cada qual dedicado a um desses personagens.

 

O primeiro deles é Draco Malfoy, da Sonserina.

 


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Etimologicamente, seu nome de batismo remete à palavra latina para “dragão”, enquanto que seu sobrenome vem do francês antigo e significa “má fé”. A princípio, concebemos Draco como o típico antagonista da saga: arrogante e prepotente, pertence à casa rival a de Harry Potter e vive a perturbá-lo durante os anos escolares. No entanto, para compreendermos o dragão, precisamos ir mais a fundo – as ações de Malfoy têm a ver, e muito, com a sua criação. Desde muito criança, Draco foi ensinado a se sentir especial. Primeiramente, por ser um bruxo. Em segundo lugar, por vir de uma linhagem “puro-sangue”. E, finalmente, por ser um Malfoy, uma das mais antigas e abastadas famílias da comunidade bruxa, ricos sem nunca terem a necessidade de trabalhar.

 

A partir daí, já se configuram os principais preconceitos da elite mágica da qual Draco faz parte: um total desprezo pelos trouxas e por todos os que se misturam a eles. A família Malfoy pertence a um seleto círculo de famílias tradicionais – a lista dos “Sagrados 28”, por mais bizarro que isso possa parecer –, tidas como “verdadeiramente puro-sangue”. Logo, é apenas compreensível que Draco tenha sido criado com base nos princípios conservadores da elite bruxa, de modo a repreender e evitar relações com trouxas.

 

Durante os anos escolares, Draco procura agir como um espelho do pai, Lucius, sua referência máxima em todos os aspectos. Além disso, o filho parece seguir um instinto de autopreservação: é interessante notar o contraste dele em relação aos seus dois “capangas”, Crabbe e Goyle. Enquanto Draco é elegante e esguio (e até meio baixinho, nos primeiros filmes), os outros dois são grandalhões e brutamontes. Malfoy os toma como uma medida de proteção, um escudo que separa o seu ser superior do resto do alunado de Hogwarts. Muito provavelmente, Draco se sentia um pequeno reizinho pelos corredores do castelo, escoltado por seus dois soldados, no maior estilo “não me misturo com esta gentalha”.

 

Logo no primeiro ano, a negação de Harry em aceitar a amizade de Malfoy o coloca imediatamente contra ele; ademais, ficava claro o quanto Draco sentia inveja da popularidade do Potter. Afinal, havia passado a vida inteira acreditando na própria superioridade. Tudo isso, somado ao fato de Harry saber voar bem melhor que ele, era motivo de humilhação para Draco. Com o passar dos anos e o evoluir da trama, essa rivalidade se intensifica: Harry passa a ser visto pelos Comensais da Morte como um verdadeiro adversário, enquanto Draco ainda não passava de um estudante. Para ele, aquilo era uma afronta. Draco estava desesperado para provar o seu valor.

 

Os Malfoy caem em ruína, e tudo aquilo de que Draco se valia é posto em xeque: sua unidade familiar, sua posição de prestígio na sociedade, tudo isso está prestes a desaparecer. Com o pai preso e a mãe acuada e amedrontada, o menino privilegiado é forçado a assumir as responsabilidades de um homem. Contudo, ele ainda é um menino privilegiado – e, sem nem pensar, aceita uma tarefa impossível cuja falha significaria sua morte certeira. Agora, Draco faz parte dos Comensais da Morte, e sente orgulho de seu novo propósito. Mas, quando começa a falhar na sua missão de assassinar Dumbledore e, por engano, acaba quase matando dois colegas (Katie Bell e Rony Weasley), Draco começa a duvidar de si mesmo, e é aí que seu mundo começa a rachar de vez. Suas ideias de si mesmo e de seu lugar no mundo são questionadas a todo momento. De repente, ele não é mais tão especial assim. Pouco tempo depois, Lucius é solto e a família retorna à mansão Malfoy, mas continuam sem nenhuma credibilidade no mundo bruxo ou mesmo entre os comensais, e o próprio Voldemort os vê como fracassados.

 

Draco, no entanto, está diferente. A sua consciência começa a mudar à medida que ele mesmo entende a gravidade do que está acontecendo. À medida que entende as consequências do que ele mesmo pode fazer. Que entende a morte. Que a bolha na qual ele vivia se rompe. Isso o leva a salvar a vida de Harry, quando este é capturado e está sob custódia dos Malfoy. Draco está em conflito. Na Batalha de Hogwarts, ele contradiz a ação anterior e tenta capturar Potter com as próprias mãos – pois a sua morte significaria a retomada da posição privilegiada da família Malfoy e, àquela altura, talvez as suas próprias vidas.

 

A mudança de perspectiva dos Malfoy é gradual (e por isso Draco age ora com compaixão, ora com frieza). A família passa a valorizar menos a posição que ocupa no contexto da guerra e mais a integridade física dos três. A mãe, Narcisa, chega a mentir para o próprio Voldemort apenas para descobrir se o filho está vivo e ir buscá-lo. Ela, Draco e Lucius se abstêm do resto da batalha e fogem juntos. Para escapar da prisão, Lucius faz uma espécie de “delação premiada” e entrega os outros Comensais. A redenção dos Malfoy é o amor que sentem um pelo outro.

 

Depois de tudo, Draco se mostra um personagem mais afetuoso e que não acredita tão piamente assim na superioridade dos puro-sangue e em tudo aquilo que a filosofia hitlerista de Voldemort defendia. Se casa com uma mulher que também pertenceu à Sonserina e a uma família tradicional, mas, assim como Draco, passou por um processo de desconstrução semelhante. Os dois criam o filho de forma muito mais tolerante, sem perpetuar a ideia de que trouxas são a escória do mundo.

 

No entanto, a própria J. K. Rowling postula: não devemos romantizar Draco Malfoy. Porém, devemos reconhecer o caráter multidimensional do personagem. Apesar de parecer a princípio o típico bully arquetípico, Draco é um menino privilegiado, cujos ideais foram sendo constantemente abalados e questionados ao longo de sua adolescência. De repente, ele se vê em um mundo que não era tão protetor como os braços de sua mãe e o conforto do seu lugar prestigiado na sociedade, e aquilo o abala profundamente. É um personagem de moralidade dúbia, do primeiro ao sétimo livro.

 


Primeira observação: sempre se postulou como um fato curioso o de Draco possuir maestria na Oclumência, arte de proteger os pensamentos da leitura de terceiros, e na qual Harry é um verdadeiro fiasco. A dualidade entre Harry e Draco nesse quesito específico não é por acaso: para Draco, que cresceu num mundo onde aparência era tudo, era muito fácil esconder as próprias emoções. No entanto, J. K. Rowling coloca: a supressão dos conflitos internos e a negação da dor e da vulnerabilidade só tornam uma pessoa mais propícia a infligir a dor nos outros.

Segunda observação: ironicamente, a varinha de Draco não é feita de corda de coração de dragão, e sim de pelo de unicórnio. Segundo J. K. Rowling, isso não foi por acaso e tem uma conotação simbólica: indica que, apesar de tudo, ainda há algo de essencialmente bom no coração desse Malfoy.

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2 comentários sobre “Os adolescentes de Harry Potter: I – Draco Malfoy

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