Os adolescentes de Harry Potter: II – Luna Lovegood

Continuando a série Os adolescentes de Harry Potter, o segundo post traz uma personagem muito querida pelos leitores: Luna Lovegood, da casa Corvinal.

 


Você é tão normal quanto eu.

 

A lua, o amor e a bondade se encontram e se mesclam em Luna Lovegood. Luna é a palavra latina para “lua”enquanto lovegood deriva da combinação das palavras inglesas love (“amor”) e good (“bom”), algo como “amor bom” ou “amor que é bom” – o que nos remete, não sem algum estranhamento, à noção de um tipo de amor que não é bom, um “amor ruim”, nocivo, prejudicial. Em seu nome, Luna carrega um não dito que faísca de significações, um convite à importante reflexão acerca da noção que temos do que vem a ser o amor, do que é amar e de como desejamos ser amados. Mas esse amor que é bom não se restringe apenas ao seu nome, ele está presente no modo como Luna se relaciona com as pessoas e o mundo à sua volta. Ela é a personificação do bem amar, que se manifesta toda vez que seus olhos arregalados estão ocupados em não piscar a fim de captar com interesse honesto a expressão daqueles com quem ela interage e de se apaixonar por eles; na maneira como está disposta a aceitar e perdoar, sem com isso deixar de ser transparente, verdadeira.

 

Na infância, aos nove anos de idade, Luna presencia a morte de sua mãe em um acidente que ela descreve como tendo sido horrível. Luna a define como sendo uma bruxa extraordinária, “mas que gostava de fazer experiências, e um dos seus feitiços um dia deu errado”. Desde então Luna passou a poder enxergar os testrálios, descarnadas criaturas aladas com ossadas expostas que apenas podem ser vistas por aqueles que foram testemunhas da morte de alguém e que foram verdadeiramente tocados por ela. A capacidade de Luna em enxergar testrálios revela mais do que se pode imaginar a seu respeito, especialmente se levarmos em consideração o modo como o mesmo fenômeno afetou Harry Potter.

 

Ainda bebê, Harry presenciou o assassinato da mãe e, mais tarde, a morte de Cedrico Diggorry. Ainda assim, levou algum tempo para que começasse a enxergar os testrálios, pois vê-los requer não apenas a experiência visual da morte – é preciso ocorrer mudanças no modo de entendê-la, o que a Rowling vai chamar de uma espécie de entendimento emocional do que a morte significa. Esse entendimento foi alcançado muito mais rapidamente por Luna, visto que a mesma aprendeu facilmente a não temer a morte ou o que está para além dela. Luna era, desde muito cedo, sensível, intuitiva e aberta a interpretações mais promissoras ou positivas acerca dos mistérios da vida e da morte, enquanto Harry levou algum tempo a alimentar esses atributos. Naturalmente, é mais que coerente atribuirmos essa desenvoltura no trato com a perda à educação que recebeu dos pais. Conversas acerca da morte, longe de serem encaradas como inapropriadas no lar dos Lovegood, figuravam entre os tópicos para reflexão conjunta. Por fim, a questão envolvendo os testrálios é uma chave de leitura que nos permite abrir uma série de fechaduras, afinal, estamos falando de ninguém menos que J. K. Rowling.

 

Falar da Luna sem mencionar seu aspecto físico parece ser impossível, já que nele também encontramos marcas de sua personalidade e do seu modo único de relacionar-se com as coisas do mundo. Por seus hábitos incomuns, como manter sempre a varinha atrás da orelha “por medida de segurança”, Luna é alvo constante de deboches e risos de desdém, aos quais reage com total indiferença, como se fosse impermeável a eles. Em síntese, Luna é a esquisita fora dos padrões, na forma como se veste, nas crenças que possui e nas falas que produz. Seu jeito inusitado de interagir com os outros e mesmo seu riso solto e espontâneo são a causa de constrangimentos e trocas de olhares cheios de subtendidos. Por tudo isso, Luna acaba servindo como contexto apropriado para que os alunos de Hogwarts coloquem em prática um pouco dessa habilidade humana de oprimir, excluir e atacar o diferente, o despadronizado. No entanto, Luna encontra inspiração na figura de seu pai, Xenofílio Lovegood (xeno = diferente, estrangeiro; philius = amor, afinidade; “aquele que ama o diferente”), um homem que tem suas próprias convicções acerca de como as coisas são, que questiona perspectivas inspiradas no senso comum e que não parece importar-se com a má recepção das ideias que defende ou do estilo de vida que leva, o que revela onde Luna adquiriu sua grande habilidade para questionar.

 

Podemos ser tentados a fazer uma leitura equivocada desse comportamento de Luna perante ofensas e deboches como sendo um comportamento de passividade diante dos ataques. Porém, Luna é uma bruxa de peso. Ela se esforça e ela consegue; seu patrono e o fato de ter composto a Armada de Dumbledore são exemplos disso, bem como manter sua varinha sempre acessível. A questão é que Luna tem seu jeito único de lidar com as situações – ela não permite que fatores externos perturbem seu equilíbrio interno, e é esse equilíbrio que a torna uma amiga especial, pois se fôssemos um Harry sendo perseguido por Comensais da Morte e tendo que lidar com a perda recente de um alguém amado, tudo o que desejaríamos seria uma Luna Lovegood que sabe fazer um dos feitiços mais difíceis e que dispensam o uso da varinha: nos abarcar com seu equilíbrio, soprar um pouco da paz que ela guarda dentro de si em nosso rosto e iluminar a escuridão que nos impede de enxergar algumas verdades essenciais. Afinal, existem coisas que só a Luna é capaz de enxergar. Onde Harry vê testrálios, ela enxerga o abstrato que pulsa por dentro e ao redor deles. E é isso que a Luna é, também: alguém que está em dia com sua dose diária de abstrato, ainda que por vezes abuse um pouquinho.

 

Pertencer à casa Corvinal parece ser um fato significativo para Luna, algo que ela valoriza sinceramente, o que se verifica no orgulho que sente em reproduzir o ditado da casa: O espírito sem limites é o maior tesouro do homem. E o que um espírito sem limites nos concede? Luna, aquela que voa sobre os testrálios, é a resposta. Ele nos permite viver em paz em um mundo onde tudo é instável e a morte está sempre rondando. A guerra pode assolar todo o espaço e os céus podem até desabar, mas é preciso manter os alicerces internos em seus devidos lugares. Um espírito sem limites não impõe barreiras ao corpo, vai além dele, permanece mesmo quando o corpo já não mais se move, inerte nos mistérios da morte, seja por meio de seus feitos ou no ecoar de suas palavras na memória dos que se seguem a nós.

 

Há muito mais para aprendermos com essa moça que arrebatou milhares de indivíduos ao redor do globo e que pulsa de vida por entre as páginas dos livros. Que nos faz concluir que, antes de A Ordem da Fênix, estávamos um pouquinho pobres sem a Luna transitando por Hogwarts diante de nossos olhos. Portanto, sejamos gratos à Rowling, que abriu uma janela para que pudéssemos contemplar essa Lua cheia de vida brilhando na noite escura.
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