Os adolescentes de Harry Potter: III – Duda Dursley

Dando continuidade à série Os adolescentes de Harry Potter, o terceiro post faz uma leitura tanto quanto incomum acerca de uma das personagens mais detestáveis da saga, o trouxa Duda Dursley.

 

 

Talvez você seja surpreendido(a) ao descobrir que o personagem mais maltratado de toda a saga Harry Potter não foi o Harry, mas o seu primo e algoz, Duda Dursley. Não, não, você não leu errado. O pequeno Duda Dursley, mais conhecido por sua insuportabilidade e por atazanar crianças – com preferência especial pelo Harry – é, no fim das contas, o trouxa que sobreviveu aos pais.
O sr. e a sr.ª Dursley empenharam-se em manter o sobrinho indesejado em uma rotina interminável de escassez alimentar, roupas gastas e completa ausência de empatia, e fizeram o extremo inverso em relação ao filho, dando-lhe tudo quanto quisesse e realizando-lhe todas as vontades. Sem se darem conta, criaram um espaço doméstico cada vez mais e mais tóxico para o filho, com substâncias que impregnaram a personalidade de Duda e que quase lhe custaram um desfecho trágico.
Os efeitos dessa radioatividade paternal se manifestaram mais drasticamente na adolescência de Duda, quando este consumia seus dias não estando nos lugares nos quais dizia estar, mentindo para os pais, vandalizando parquinhos, agredindo crianças, fumando e cometendo uma série de outras infrações – sempre acompanhado pela gangue adolescente que liderava. É importante observarmos que, ao contrário de Harry, Duda não teve nunca a chance de respirar os ares de uma Hogwarts por todo um ano letivo, estando sempre sob a influência prejudicial da má educação administrada por uma mãe ressentida e amargurada e um pai que prezava, acima de tudo, pelas aparências. Enquanto Harry esteve na companhia de pessoas maravilhosas como a família Weasley, Dumbledore, Hagrid, Hermione, Sirius, Lupin, Tonks, Luna… Duda limitava-se a seguir os projetos de vida extremamente limitados que os Dursley tinham para ele.
Duda Dursley foi criado para ser uma bomba-relógio ambulante à solta pelas redondezas, pronta para explodir em algum momento da adolescência ou na fase adulta.
Ironicamente, foi um breve e tenebroso beijo de um dementador – uma fantasmagórica criatura das trevas, encapuzada e pútrida, capaz de nos roubar toda a felicidade – que desativou a bomba e deu a Duda a chance de recomeçar. A experiência com o dementador o levou a enxergar quem ele realmente era. E quem ele viu não era alguém com quem Duda gostaria de conviver. Como se houvesse sido posto sem roupas perante um espelho, viu-se inteiramente nu, com todos os seus preconceitos explícitos, todo o seu caráter corrompido à mostra, seu comportamento delinquente, a perversidade alojada em seus pensamentos. Duda viu em si mesmo lepras que não o tornavam menos repugnante do que a criatura encapuzada que o atacara.
Sempre que vendavam os olhos para as malcriações e perversidades praticadas pelo filho, racionalizando, justificando, relevando e mesmo premiando suas atitudes condenáveis – ainda que estas fossem explicitamente repreendidas por professores e outros profissionais –, Petúnia e Válter Dursley alimentavam o filho com uma dose de autodestruição a longo prazo. Afinal, permitir que Duda convivesse com um Harry oprimido e pintado como lhe sendo inferior, dando-lhe aval para pisar no primo com a certeza da impunidade, os Dursley inconscientemente encaminhavam o filho para o vandalismo e a criminalidade cometidos fora do ambiente domiciliar.
Apesar de não ser um personagem muito destacado, surgindo em momentos muito específicos e breves na trama, Duda consegue ganhar algum espaço memorável na mente dos leitores, ainda que, na maioria dos casos, seja para detestá-lo ou desejar que algo ruim lhe sobrevenha como forma de castigo. E é isso que eu acredito que muitos leitores desejam que aconteça ao Duda: que ele seja, ao menos uma vez na vida, devidamente repreendido. E, no fundo, desejamos isso por percebermos que ele não caminhava para um lugar muito bom.
Talvez você, leitor ou telespectador de Harry Potter, considerasse improvável ou mesmo impossível sentir alguma piedade do Duda, e talvez você tenha adorado vê-lo sendo repreendido pelo Hagrid, caindo na armadilha dos gêmeos Weasley ou mesmo quando esteve totalmente exposto a um dementador. Mas eu acredito que, lá no fundo, todos os movimentos que a Rowling realizou em torno de Duda serviu para despertar em nós esse desejo por vê-lo sendo freado.
No fim das contas ficamos contentes quando, inesperadamente, Duda se dirige ao Harry e se apossa de um abraço. Isso é revolução, ao menos para Duda, que foi criado para ser “macho”, para não dar vazão a suas emoções. O que Duda fez foi dar uma machadada no espesso mar de gelo que seus pais, durante anos, ajudaram a criar dentro dele. Pela primeira vez, Duda respirava o mesmo ar que Harry, onde ambos eram iguais. Harry, o garoto debaixo da escada, e Duda, o garoto sobre a escada, estavam agora no mesmo patamar.
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