Os adolescentes de Harry Potter: V – Neville Longbottom

No último post da série Os adolescentes de Harry Potter, trazemos Neville Longbottom, um bruxo que levou alguns a duvidarem da escolha feita pelo Chapéu Seletor como sendo ele pertencente à casa Grifinória. No fim das contas, o Chapéu Seletor se provou infalível.
A presença de Neville Longbottom em Harry Potter é um convite que J. K. Rowling nos faz para caminharmos ao lado de uma criança que foi direta e intensamente tocada pela Guerra, uma criança com dificuldades de aprendizado, um nível nada produtivo de timidez e autoestima quase nula. Nos convida a acompanhar seu desenvolvimento emocional, suas reinterpretações acerca de si mesmo e o desenvolvimento de um tipo de fibra moral a lhe guiar as atitudes que muitos julgaram lhe ser inalcançável. Assim, vemos o garoto desacreditado e que mal consegue manusear uma varinha se tornar o adolescente que empunha uma espada e destrói uma serpente que é capaz de o devorar vivo.

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Existe um fenômeno fascinante que ocorre quando nos propomos a ler os livros da saga Harry Potter: somos expostos a uma variedade de personagens cheios de camadas, dotadas de solidez psicológica e uma consistência estranha e tateável que é fruto da habilidade da autora em bem estruturar cada elemento que compõe sua história, desde a escolha dos nomes até as relações humanas internas à trama. Uma dessas habilidades consiste em permear toda a sua narrativa com personagens que, semelhantemente a nós, estão inseridas no que se pode chamar de espaços em crise – crise aqui em um sentido amplo.
Eu poderia me valer de uma série interminável de exemplos a fim de explicitar que todas as personagens de Harry Potter estão, em menor ou maior grau em relação umas às outras, inseridas cada uma em seus próprios espaços em crise. Uma das principais características da crise é que ela é um fenômeno xis atuando de fora para dentro. A dificuldade financeira da família Weasley, por exemplo, afeta a cada membro da família de uma maneira particular, imprime marcas em cada um deles, sendo essas marcas ou superficiais ou profundas. Rony lida com essa situação muito diferentemente de Fred e Jorge, por exemplo. Esse lidar com a crise irá depender de muitos fatores, pessoais, contextuais etc. Cada um utiliza e manuseia como pode as ferramentas que possui. Os Malfoy, ao lidarem com a mesma situação de dificuldade financeira, se posicionarão muito distintamente dos Weasley. O modo como Hermione encara ofensas, sexismo e racismo explícito; Luna lidando com a morte da mãe; Harry e a convivência com seus tios, o assassinato dos pais, a morte de Sírius; Hogwarts inteira assimilando a morte de Dumbledore, tudo isso configura esses espaços.
Pouco depois do nascimento de Neville, seus pais, Alice e Franco Longbottom, foram torturados e tiveram cada partícula de sanidade transtornada,  tragada pelos horrores aos quais foram submetidos. Ambos sobreviveram, mas jamais foram os mesmos e, na prática, nunca puderam exercer o papel de pais na vida de Neville, que, como Harry, cresceu na ausência dessas figuras, passando a ser criado por sua avó,  enquanto seus pais eram mantidos confinados em um hospital.
Augusta Longbottom, avó de Neville, é uma bruxa puro-sangue  com sérias dificuldades de compreender os conflitos internos do neto, o que a leva a fazer leituras equivocadas acerca do comportamento de Neville. Quando ela descobre que este nunca contou aos colegas acerca do que ocorreu com seus pais, entende que, com isso, Neville revelava ter vergonha dos próprios pais, quando o que ocorre mesmo é que ele manifesta dificuldades em conversar a respeito do assunto, por lhe trazer pesar. O modo como a avó expressa suas expectativas em relação à Neville, comparando-o ao pai, também tem seus efeitos negativos sobre o garoto, levando-o muitas vezes a se considerar um zero à esquerda, um nada, um completo e inútil ninguém.
Acontece que, no que diz respeito aos espaços em crise, eles são espaços móveis, e isso torna tudo muito interessante. Neville não precisa estar sempre diante dos pais no hospital a fim de ser afetado por toda a tragédia que os cercava. A ausência de ambos, os risos que nunca vieram, as possibilidades que jamais se concretizaram, o como poderia ter sido e não foi seguem Neville onde quer que ele vá, atuando dentro dele. Mas é por sua mobilidade que os espaços em crise se chocam e são alterados. Um exemplo é o encontro entre o espaço em crise de Luna com o de Harry, que levou este último a perceber que havia uma forma alternativa de lidar com a perda. É nesse choque que a mágica acontece.
Com o passar do tempo, Neville Longbottom, na relação com os outros, foi adquirindo habilidade no manuseio não apenas de sua varinha e na realização de feitiços, mas também da forma como permitia que o externo atuasse no interno. Ter conhecido os amigos em Hogwarts, se unido a eles na Armada de Dumbledore, lutado ao lado deles no Departamento de Mistérios, liderado os alunos de Hogwarts na resistência à Voldemort e, por fim, em um dos momentos mais emblemáticos de toda a saga, ter manuseado uma espada e destruído uma horcrux viva; tudo isso compôs a jornada de Neville em seu processo de empoderamento pessoal. É na troca e na partilha que tudo se transforma.
Se tudo isso já soa mágico demais, poderoso demais, pare e pense no quão absurdamente poderoso é o ato de se colocar diante de livros aparentemente inocentes, como os da saga Harry Potter, e se deparar com uma infinidade de personagens consistentemente humanos, cada um dos quais se encontra inserido em seus próprios espaços em crise, que por sua vez se chocam com aqueles nos quais você, leitor, está inserido. De repente você se dá conta de que está lendo você mesmo retratado na folha de papel, ou aquele amigo, ou aquele grupo de pessoas, entendendo seus espaços, suas crises, suas dores. E essa é uma das razões pelas quais devemos ler e recomendar Harry Potter.
Quando digo que o fato de Neville haver se apossado da espada de Gryffindor se configura um dos momentos mais emblemáticos da saga, justifico isso com a seguinte reflexão: Harry Potter é um livro “destinado” à crianças, mas que encontrou abrigo no coração de inúmeros adultos do mundo inteiro (isso por si só já é um grande feito, pois une dois mundos tidos como inteiramente antagônicos, o do adulto e o da criança, um binarismo em que este último é desqualificado de várias maneiras). Quando a autora conjura diante de nós um Neville Longbottom, que se auto intitula um nada, um ninguém, ela está gritando na nossa face, ao coração de todos os seus leitores ao redor do mundo, em especial os leitores adultos, que o olhar preconceituoso e paternalista que muitas vezes lançamos às crianças, agindo muitas vezes como Snapes e Augustas da vida, é fruto de uma ignorância e presunção desmedidas e acarretam efeitos nocivos que podem vir a ser irreversíveis. Precisamos parar de lançar às crianças os olhares que Snape e sua avó lançavam sobre Neville.
E aqui concluímos a série de postagens acerca da infância e adolescência que são magistralmente representadas em Harry Potter, deixando um convite para que você, leitor adulto, seja mais receptivo ao que a autora tem a nos revelar, em especial, no que diz respeito à relação adulto-criança.
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