Pode uma criança falar? Ironias de Mafalda e Quino

Se considerarmos que vivemos em um mundo machista, elitista, euro centrado (quando não consumidores da produção cultural estadunidense), racista, entre outros “istas” mais… é difícil pensar que a voz feminina pode ser ouvida. Principalmente se essa voz partir de uma criança, oriunda da classe média, de um país latino considerado subdesenvolvido – como é o caso da Argentina.
Esses são alguns dos fatores que tornam a Mafalda curiosamente interessante. Criada pelo argentino Quino em 1963, a personagem que critica os costumes e sistemas hegemônicos vigentes no mundo nasce de uma campanha publicitária encomendada pela rede capitalista de eletrodomésticos, Mansfield. Felizmente, a campanha é cancelada, e a Mafalda que conhecemos é publicada no ano seguinte no jornal Primera Plana.
Se infância é uma fase de felicidade plena e pura despreocupação, a pequena militante subverte também essa linha de pensamento ao se mostrar constantemente preocupada com os problemas sociais. Aí é que se abrem as portas para a produção de humor: quando a personagem desconstrói a hipótese da ignorância infantil em relação a temas sérios.
Segundo Berrendonner (1987), ironia é uma figura de linguagem que leva a entender o contrário do que se diz, reportando-se à retórica para explicar que a ironia é uma contradição lógica, um procedimento que superpõe a um valor argumentativo dado o valor contrário. A ironia é um recurso constante na produção do humor das tiras da Mafalda, que se faz presente causando um deslocamento contextual ao surpreender o leitor com sua sutilidade infantil, porém mordaz.
Quino parece se valer da ironia em diversos aspectos, como a estratégia de dar voz a uma criança para tratar de coisas sérias, que pode tanto ser um mecanismo gerador de humor, como uma forma de criticar tudo que lhe incomodava sem ser punido pela censura que pairava no período de tensão política em que vivia a Argentina durante a veiculação das tiras da militante mirim.
E, se tratando de ironia, parece justo que o veículo utilizado pelo autor para disseminar as suas angústias seja um gênero literário tratado como “subgênero”. As histórias em quadrinhos, por muito tempo, foram tratadas (e ainda são) como literatura “menor” (muitas vezes nem são consideradas literatura). Através de um gênero considerado de qualidade “inferior”, Quino deu voz (e vida) à personagem que o consagrou como desenhista, escritor e ser político. Mafalda se perpetua como símbolo de resistência e emancipação feminina.
Se fossemos nos apegar à teoria de Gayatri Chakravorty Spivak, que defende que o subalternizado não pode falar – pois, a partir do momento em que a fala lhe é dada, o mesmo deixa de se enquadrar na condição de subalterno –, talvez a força discursiva da Mafalda perdesse um pouco seu valor. Mas, partindo do pressuposto de que historicamente a mulher foi (e ainda hoje é) subjugada, inferiorizada, vista como destinada às tarefas do lar (mesmo em pleno século XXI) ou meramente objeto sexual, e mesmo assim ela tem o poder da fala, é porque o subalternizado pode falar sim – pois este tem voz; e o que lhe falta é ser ouvido. Ou faltava, já que não se pode negar o fato de que a pequena garotinha se fez ouvir, e até os dias de hoje ainda se faz; já que (ironicamente) muita coisa no mundo não mudou e, com isso, seus questionamentos se mantêm fazendo muito sentido.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s