Entre literatura infantil e política: Ervilina e Princês

Em tempos de incertezas no cenário político nacional, para os que estudam a literatura infantil e, mais especificamente, a literatura infantil brasileira, um tema volta à baila: a presença de temas políticos na literatura infantil produzida no nosso país. Na nossa literatura, as temáticas políticas estão presentes, principalmente, a partir da década de 1920 com os escritos de Monteiro Lobato. Lobato escreveu entre as décadas de 1920 e 1940 e já apresentava em suas obras questões sérias como a guerra. Seus textos, apesar do teor racista de algumas obras – assunto que não é o foco deste texto – inauguraram uma nova forma de escrever a literatura infantil. Nela, as crianças aparecem como questionadoras e, ao mesmo tempo em que refletem sobre problemas mundiais, embarcam no mundo da imaginação.
Já nas décadas de 1960 a 1980, a literatura infantil seguiu o caminho de outras expressões artísticas, como a música, o teatro e a literatura que não recebe o adjetivo “infantil”, tendo entre os seus temas a crítica social em razão do descontentamento de seus autores com os caminhos da política nacional brasileira por conta do golpe militar de 1964. Sem abandonar o lúdico, as brincadeiras com a linguagem, o humor e a valorização da voz da criança, os textos produzidos durante o boom da literatura infantil tiveram o forte tom de protesto. Como esta não despertava um grande interesse da censura, os autores encontraram nela a possibilidade de denunciar a repressão dos direitos dos cidadãos a que foram impostos pelo autoritário regime militar. Entre os autores desse período destacam-se Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Sylvia Orthof, Fernanda Lopes de Almeida, Chico Buarque, Bartolomeu Campos de Queirós e Lygia Bojunga, para citar apenas alguns.
Como exemplo de obras que, entre as décadas de 1970 e 1980, abordaram temáticas políticas, farei aqui uma breve análise de Ervilina e o Princês ou Deu a louca em Ervilina.  Escrita e ilustrada por Sylvia Orthof em 1986, a obra que ganhou uma reedição em 2009 pela Editora Projeto com ilustrações de Laura Castillos se configura como uma paródia ao conto A princesa e a ervilha, de Hans Christian Andersen.
No conto, um príncipe desejava se casar, porém ele queria se casar com uma verdadeira princesa. Para encontrá-la, ele viajou pelo mundo, mas apesar de conhecer diversas princesas, ele sempre encontrava nelas algo que acreditava não estar certo. O príncipe, então, volta para casa muito triste e decidido a se casar com uma princesa real. Numa noite chuvosa, ouve-se uma batida no portão da cidade e o próprio rei decide abrir. Do lado de fora, ele encontra uma princesa toda encharcada, mas insistindo que era uma princesa verdadeira. A rainha, assim, decide testar a veracidade do que dizia a princesa, com uma prova. Sem falar nada, ela colocou uma ervilha embaixo de vinte colchões e vinte edredons na cama onde a princesa dormiu. Pela manhã, ao perguntarem como ela tinha dormido, a princesa respondeu que pessimamente, pois no colchão havia algo que a machucou. Assim, provando que era realmente uma princesa devido à sua sensibilidade, o príncipe se casou com ela.
Em Ervilina e o Princês ou Deu a louca em Ervilina, Sylvia Orthof, através da paródia, rompe com o texto de Hans Christian Andersen (TATAR, 2010) e, a partir dessa ruptura, cria um cenário propício para novas possibilidades narrativas. Esse rompimento dialoga com a afirmação de Sant’Anna (1988, p. 31) quando, ao discorrer sobre a paródia, afirma que esta é uma nova e diferente maneira de ler o convencional. É um processo de libertação do discurso. É uma tomada de consciência crítica. O diálogo intertextual é anunciado desde o título da obra, pois Ervilina e o Princês é uma referência direta ao conto A princesa e a ervilha, de Andersen. No conto de Sylvia, há um rompimento com as atitudes que se esperam de um príncipe, rompimento este que culmina em uma inversão de papéis, sobretudo no que se refere às questões de gênero. O Princês numa janela nos faz lembrar a história de Rapunzel, onde a donzela, presa em uma torre, espera pelo príncipe para ser salva. O Princês dessa história não estava preso por amarras físicas; porém, por opção e comodismo, prefere deixar sob a responsabilidade de seus pais a tarefa de lhe encontrar uma noiva.
Sylvia Orthof, porém, vai além e narra em Ervilina e o Princês ou Deu a louca em Ervilina não somente a história dos dois personagens que nomeiam a obra, mas, através das ilustrações e comentários da autora, nos é contada uma história do Brasil no ano de 1986.
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Fonte: Sylvia Orthof, 1986
Na página onde há a descrição do castelo, é possível ver o cometa Halley no céu. Como foi escrito anteriormente, essa obra foi publicada no ano de 1986, ano em que o cometa “passou” pela Terra. Outro comentário que se destaca na obra está presente na chegada da rainha, que é anunciada com o seguinte texto:
E veio chegando a rainha numa rede balançando, a rede era de estrelas, muitas aias carregando, seu vestido era de rendas, a coroa era de prata, as tranças eram douradas, as mãos eram aneladas com brilhantes, diamantes, braceletes de esmeraldas, correntes que a prendiam à coroa imperial. (ORTHOF, 1986, p. 11)
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Fonte:Sylvia Orthof,1986
Os traços expressionistas são muito marcantes nessas ilustrações. Na parte superior, foram ilustradas as aias – com uma expressão de irritação – carregando a rainha. Na parte inferior da página, há duas aias demonstrando satisfação em segurar uma faixa em que está escrito: “ABRAM ALAS PRA RAINHA!”, “ELA É A MAIOR!”, “VIVA A COROA!”. E, com letra menor, porém, destacado em vermelho, há “ABAIXO A RAINHA”, “VOTE NO PT”. Num plano inferior da faixa, ainda é possível observar um passarinho perguntando “Tem comunista no reino?” e um caracol respondendo “Não fui eu”.  É interessante ressaltar que quem segura às faixas com as mensagens são as aias, claras representantes da classe trabalhadora.
Sylvia Orthof agiu de forma estratégica na composição dessa ilustração. O nosso país havia acabado de sair da ditadura militar. O Partido dos Trabalhadores (PT) foi criado em 1980 com a promessa de fomentar transformações qualitativas para trabalhadores, artistas e intelectuais. No ano de 1986, foram realizadas eleições para governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Luiz Inácio Lula da Silva – hoje ex-presidente do Brasil e atual ministro da Casa Civil (?) – concorreu e foi eleito para o cargo de deputado federal, sendo o mais votado. Na pesquisa para a escrita deste texto, não foram localizadas fontes que noticiem a repercussão da obra no período, mas não posso deixar de imaginar como seria se obra fosse publicada ou reeditada com a preservação das ilustrações de Sylvia, hoje, trinta anos após a primeira edição, considerando que a literatura infantil conquistou um espaço de maior visibilidade e o cenário político brasileiro é outro.
Não fossem essas questões suficientes, essa obra ainda aborda questões relativas ao empoderamento da mulher. Quando o rei e a rainha decidiram procurar uma noiva para o filho, para testar a delicadeza das moças, chamaram três bruxos “psicodélicos e psicanalizadores” que tiveram a ideia de convidar as moças para dormir no castelo e por baixo de três colchões, vinte cobertores e um lençol de linho fino com quatro ramos de flores, colocar uma pedrinha bem afiada. Várias moças realizaram o teste, mas nenhuma sentiu a pedrinha. A última moça a ser testada foi Ervilina, que, é importante ressaltar, não participou da “seleção” por vontade própria, como é revelado no texto:
“Até que veio umazinha, toda pobre e esfarrapada. Seu nome era Ervilina da Cunha de Andrada. Chegou, mas veio afinal, empurrada por soldados, por ordem de um general.” (ORTHOF, 1986, p. 24)
A rainha, possivelmente tentando complicar ainda mais a prova, troca a pedrinha por uma ervilha, mas Ervilina, rompendo com as expectativas, sente a ervilha debaixo dos três colchões, vinte cobertores e do lençol de linho fino com quatro ramos de flores. O Princês então acredita ter encontrado a sua noiva. Ervilina, porém, contrariando os paradigmas, recusa o casamento.
– É esta, a moça a fada, a minha doce princesa, a mais sensível, a rosa, a mais que fada, a beleza! – gritou feliz o princês…
Mas a moça respondeu:
– Eu não quero ser casada, se eu casar, vai ser com o moço de quem eu sou namorada. (ORTHOF, 1986, p. 29-30)
Em Ervilina e o Princês ou Deu a Louca em Ervilina, a felicidade independe do matrimônio – embora o ideal do amor romântico não seja abandonado. A mulher tem voz e direito de escolha; casar-se com um príncipe não é pré-requisito para ser feliz. É importante evidenciar que Ervilina não está sozinha: outras obras da literatura infantil escritas na década de 1970 e após esta década também apresentam personagens femininas contestadoras; podemos citar, entre elas, História Meio ao Contrário, de Ana Maria Machado.
Hoje, trinta anos após a publicação de Ervilina e o Princês, os temas políticos se mantêm presentes na literatura infantil. É visível que as questões étnico-raciais, de gênero, diversidade sexual, a cada dia ganham mais espaço nos textos ditos “para criança”. Quanto às questões relativas ao atual cenário político brasileiro, referindo-me aqui à política institucional, creio que poderemos analisar as publicações num futuro próximo devido ao clima de instabilidade em que vivemos. Enfim, amigos escritores, aguardo ansiosamente suas próximas publicações.

REFERÊNCIAS

ORTHOF, Sylvia. Ervilina e o Princês ou Deu a Louca em Ervilina. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1986.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Paródia, Paráfrase e Cia. 3. ed. São Paulo: Editora Ática, 1988.

TATAR, Maria. Contos de fadas. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

 

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