Downtown: uma HQ especial

Vivemos em um país que é cheio de datas comemorativas: existe dia nacional do livro, dia do vendedor de livros, dia do livro didático, dia da mentira, dia da sogra, dia do pão, da pizza… São tantos dias que acho incrível como todos eles cabem em um ano. Acredito que essas datas comemorativas são importantes por serem dias escolhidos para relembrar eventos históricos, conquistas e lutas importantes geradas por um grupo (não sei onde entra a luta das comidas citadas, mas se é comida já é importante [risos]). Algumas datas têm alcance internacional e outras são especificas de um país. E na semana passada (21 de março), tivemos o Dia Mundial da Síndrome de Down.
É bem provável, caro leitor, que você conheça alguém com Síndrome de Down – se não pessoalmente, pode ter tido contato através da televisão ou das redes sociais. De acordo com o site oficial do Movimento Down
não existe ainda no país uma estatística específica sobre o número de brasileiros com a síndrome. Uma estimativa pode ser levantada com base na relação de 1 para cada 700 nascimentos, levando-se em conta toda a população brasileira. Ou seja, segundo essa conta, cerca de 270 mil pessoas no Brasil teriam Síndrome de Down.
A Síndrome de Down é uma alteração genética motivada pela presença de três cromossomos 21, ao invés de dois, e essa alteração causa a deficiência intelectual. Mas vocês devem estar se questionando: o que a Síndrome de Down tem a ver com literatura infantil e juvenil? É que, nas últimas décadas, tem ocorrido o aumento das obras literárias infantis e juvenis que abordam deficiências, devido à onda de inclusão e respeito às diferenças, e a Síndrome de Down está muito presente neste universo literário.
Como indicação de leitura hoje, irei falar de Downtown, uma HQ dos espanhóis Nöel Lang e Rodrigo García lançada no ano de 2015. Como está descrito na apresentação do livro por Evaldo Mocarzel, a HQ sem pieguice ou paternalismos equivocados conta a história de um grupo de pré-adolescentes com Síndrome de Down, liderados pelo protagonista Blo.
De maneira lúdica e profunda, Downtown desmistifica monstros que não existem. Blo e seus amigos nos mostram que a natureza humana é composta de universos particulares, cada um é cada um, independentemente de qualidade e defeitos, potencialidades ou deficiência. Um lançamento que nos traz sabedoria sem didatismo, humanidade sem paternalismo e inclusão sem fundamentalismo.
Para conhecer os personagens, assista ao book trailer abaixo:
O livro me chamou atenção desde o título: em um primeiro olhar, consegui compreender o termo “Down”, mas e o restante? Depois de recorrer ao tradutor, entendi que na verdade a alusão do título não é diretamente a síndrome, e sim a “centro da cidade”, e quando lemos a história, entendemos que o título faz referência a música da britânica Petula Clark, que fez muito sucesso na década de 1960, vencendo até um Grammy.
O tom de sarcasmo e ironia sempre estão presentes, e temas polêmicos envolvem o enredo, como críticas ao ambiente escolar, a violência urbana, a conflitos bélicos, a política e a ditadura da magreza – o que nos faz recordar de outra personagem de HQ, a Mafalda, criada pelo argentino Quino. O interessante de Downtown é que ele não se preocupa em ensinar e/ou como lidar com a síndrome de Down, parecendo uma cartilha ou manual, como acontece na maioria das vezes com os livros de literatura infantil e juvenil que retratam alguma deficiência.
A HQ se propõe muito mais a permitir a imaginação flutuar por um universo pré-adolescente, cheio de projeções futuras, intertextos e com reflexões cômicas. Além disso, trata de valores humanos importantes, como o amor, o cuidado e a generosidade. A deficiência em momento nenhum é esquecida, porém, ela não é o único destaque – afinal, ser diferente é normal!
O livro de Noël Lang e Rodrigo García foi lançado pela editora Revan e contém 136 páginas, com capa dura, folhas de papel couchê mate de boa gramatura e diagramação. No final da HQ, ainda temos uma surpresinha ofertada pelos autores: são os esboços das ilustrações, presente delicioso para quem, assim como eu, ama ilustrações.
Aperitivos:
Foto 1 - Livia.jpg
Downtown: “Meu nome é Blo. Eu tenho síndrome de Down, uma namorada, muitos amigos e um disco favorito.”
Foto 2.1 - Livia
“O ruim de ter síndrome de Down é que, no dia em que você nasce, seus pais ficam um pouco tristes… O bacana é que, depois desse dia, não voltam a ficar tristes nunca mais.”
Foto 4 - Livia
“Minha mãe me colocou num regime hipocalórico…” “E o que é isso?” “Um desses regimes totalitários…”

Foto 3 - Livia

Curiosidades:
  • Benjamín, o personagem carequinha que vocês viram no vídeo, sofre de tricotilomania. Esse transtorno de conduta realmente existe, e se configura como uma mania de arrancar compulsivamente o cabelo por conta do estresse.
  • Existe uma página no facebook desse livro:
    https://www.facebook.com/downtowncomic/?fref=ts
  • E no twitter também: @downtowncomic

Referência:

http://www.movimentodown.org.br/2012/12/estatisticas/

Fotografias: Thatiany Nunes

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