A história de uma nuvem

A primeira tipografia instalada na Bahia foi inaugurada em 13 de maio de 1811 por Manoel Antônio da Silva Serva, um empresário português que chegou ao estado em 1797 com o objetivo de comercializar, entre outros objetos, livros importados. Assim, um dia após sua inauguração, a prensa fazia circular nas ruas o periódico Idade d’Ouro do Brazil, marcando o início dos trabalhos da imprensa baiana. Desde aquele período à atualidade, é possível notar que a presença de editoras na Bahia impulsiona o setor livreiro para um mercado em expansão.
Ao lançar um olhar sobre tal mercado, Normeide da Silva Rios (2012), em Os caminhos da literatura infantojuvenil baiana, mapeia um notável conjunto de obras infantis e juvenis publicadas especificamente por escritores baianos. Segundo a pesquisadora da Universidade Federal de Feira de Santana (UEFS), podemos delimitar os fins da década de 1960 como o período em que surgem as primeiras obras baianas de literatura para crianças e adolescentes, um mercado que se mostrou profícuo até os primeiros anos da década de 2000.
Entre os nomes que merecem destaque, se apresenta o de Iray Galrão, escritora formada em pedagogia e vencedora do prêmio COPENE, em 1999, com o livro O anjinho Jojó. Contudo, recebe atenção, neste espaço, o livro Bia, a nuvem que não queria chover (2011), no qual Galrão apresenta uma nuvenzinha gorducha e escura de tanto beber água suja de lama. Bia está sempre alegre, até o dia em que, levada pelo vento, muda de lugar e conhece outras nuvens. As novas companheiras não quiseram a amizade de Bia por causa de sua aparência, criticando seu tamanho e sua cor. Bia, por sua vez, entristece-se tanto que resolve deixar de ser nuvem. Agora, estava decidida, seria um belo raio de sol. Um anjo que passava, ouviu a conversa de Bia com o vento e quis fazer a nuvem menina remover tal ideia da cabeça, porém foi impossível. Bia, que era muito teimosa, solicitou ao sol uma vaga na escola de raiozinhos, contudo, este a deixou falando sozinha. Após dormir de tanta tristeza, a lua, que precisa de uma nuvem, a acordou, implorando que fosse chover, mas, Bia se negava. A lua, curiosa, interrogou-a sobre seu comportamento, aparentemente, estranho. Bia confessou que as outras nuvens eram lindas, por isso tinha inveja delas. Revelou, ainda, que por causa de sua feiura foi rejeitada e jamais voltaria a fazer o que fazem todas as nuvens; não choveria outra vez. A lua, ao ouvir tudo aquilo, explica a Bia que beleza e feiura não existem, e que cada um tem um jeito ou jeitos de ser. Ela mesma – a lua – possuía quatro formas diferentes, assim, em alguns momentos era magrinha, em outros, gordinha, além dos dias em que podia estar mais clara ou mais escura. Mesmo com os esforços da lua, Bia não se convence totalmente, porém, ao observar o lugar seco que a lua lhe mostra, ela percebe que é necessário chover e começa a chorar. A seca abre espaço ao florescimento e a nuvenzinha descobre que ela também tem sua importância. Decide, então, que quer continuar sendo o que era, pois, independente daquilo que os outros dizem sobre sua aparência, ela já sabe que o principal é ser feliz.
Nesta obra, as ilustrações são compostas por uma sequência de quadros bordados pela autora para integrar o livro. No contraste de cores variadas, as imagens dialogam com o texto escrito. Assim, o azul e o verde aparecem, constantemente, representando a natureza. O uso do amarelo, para o momento em que Bia chega à escola solar, imprime sobre a página um efeito vibrante; o mesmo ocorre depois que Bia chove e a transformação de tonalidade do azul causa a sensação de que a terra está molhada e o céu não está nem tão claro, nem tão escuro.
Por conseguinte, o elemento mais forte da obra está previsto no apelo linguístico. Seu trabalho de elaboração indica um texto escrito em prosa, porém, marcado, em muitas oportunidades, por períodos e diálogos nas quais proliferam as rimas, conferindo-lhe uma sonoridade comum ao texto poético. Veja-se, por exemplo, o seguinte trecho:
Um anjo que vinha passando ouviu o que Bia falava com o vento e, indignado, resolveu se meter na conversa dos dois.
– O quê? Será que ouvi bem? Uma nuvem que não quer mais chover? Bem se diz que esse mundo está de ponta a cabeça! Nuvem sem chover, menina, é como banana sem cacho, como vassoura sem cabo, rainha sem castelo, criança sem caramelo. Pra encerrar a conversa, vá cortando logo essa e deixando de besteira. Sempre se é diferente: Tem anjo de asa quebrada, estrela faltando ponta, raio de sol doente. Eu mesmo sou criticado pelo tamanho do meu nariz. Sou o anjo narigudo e, que ainda por cima, é baixinho e barrigudo. Mas nem ligo pra o que dizem. Têm os altos, têm os baixos, os gordos e os magrelos. E, como falam os humanos, “o que seria do azul, se todos só gostassem do amarelo?” [aspas e itálico da autora] (GALRÃO, 2011, p. 24-25).
Fica perceptível, neste contexto, a preocupação da autora com a construção textual. Isso nos faz perceber que um livro dirigido à criança não pode ser considerado literário apenas no nível da compreensão do leitor ou dos conteúdos presentes no desenvolvimento da trama. Há que se pensar na obra de literatura infantil enquanto construção textual derivada de um processo no qual a obra se configura como trabalho pautado pelo uso estético da linguagem.

REFERÊNCIAS

GALRÃO, Iray. Bia: a nuvem que não queria chover. Salvador: Editora Kalango, 2011.

RIOS, Normeide da Silva. Os caminhos da literatura infantojuvenil baiana. Salvador: EDUFBA, 2012.

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