OS CALÇAS-CURTAS* DO ARROZ DE BAIXO

Miguel Calmon
Cartografia de memórias: O Arroz de Baixo, Miguel Calmon- BA

Numa cidade pequena, como Miguel Calmon, não basta se apresentar. O nome, apenas, não diz nada, o sobrenome pode ser o mesmo de boa parte dos habitantes. Por isso, eu era o neto de Seu Luizinho do Arroz.
Eram três as casas na esquina do Arroz de Baixo, onde morei até os 12 anos. Minha casa ficava à direita, acima da mercearia do meu pai. Vovô e Vovó moravam do lado esquerdo (exatamente na esquina), local onde nasceram todos os 14 filhos e onde morei até os 6 anos. Escreveria um livro inteiro a falar das casas e talvez outros dois sobre as brincadeiras e escaladas nas árvores naquele que era o melhor e maior quintal do mundo. Mas não nos importa saber as particularidades ou onde ficava cada uma das edificações, elas aqui são pontos de referência para espacializar o que nos interessa: o lado de fora. Imediatamente à frente, ficava a rua; atrás dela, a lagoa; à esquerda um matagal, à direita o beco do rio, que passava atrás do quintal.
O Arroz de Baixo era um bairro pobre. Não tão pobre quanto o de Cima. “Nossa rua” era um espaço indeterminado e elástico que se expandia aos poucos, com o correr da idade e a audácia das novas brincadeiras com os vizinhos. O Arroz de Baixo ia da Pracinha de Seu Arlindo até o começo da ladeira; a partir daí, o Arroz era de Cima. Aquele pequeno trecho era um território onde exercíamos nossas simpatias e antipatias. Por uma clara diferença de classes e/ou de topografia, as turmas do Arroz de Baixo não se misturavam com as do de Cima. Afinal, mesmo pertencendo ao mesmo bairro, foi a nossa rua quem primeiro “viu o progresso” e teve suas ruas asfaltadas pela prefeitura; era lá em cima que a água não chegava, fazendo com que as mulheres descessem para buscar baldes d’água na cabeça. No outro extremo da rua, para além da Pracinha, todos éramos apenas Arroz e qualquer outro bairro exercia a mesma supremacia sobre o nosso.
A Pracinha de Seu Arlindo – que ainda hoje não sei seu nome de registro – ficava além da esquina. Lá não era lugar de brincadeiras, era lugar dos velhinhos – liderados por Vovô –, que se encontravam todos os dias, ao final da tarde, para conversas e risadas que acabavam assim que encostava qualquer um da nossa idade. Mas a Pracinha tinha um lugar que era nosso por direito: a venda de Seu Arlindo. Para meus irmãos, meus primos e eu, era como a casa de doces da bruxa de Joãozinho e Maria, afinal o velho Luizinho tinha uma rixa – também secreta – com o velho Arlindo. Nenhum de nós ousava ir à venda quando Vovô estava com os amigos no banco da praça, tampouco podíamos ousar paquerar as netas de Seu Arlindo, que eram as meninas mais bonitas da rua.
A lagoa era território desconhecido, desbravado com uso de badoque e com o avançar da idade. As histórias eram de todo tipo: “se entrar na água vai pegar verme”, “muitas crianças já morreram afogadas”, “a família de ‘Formiga-Ladrona’ mora lá” e “uma moça até já foi estuprada”. Identidades que nunca apareceram e, se existiram de fato, foram aterradas, recentemente, quando o que era uma lagoa se transformou nos novos loteamentos da prefeitura. Verdade ou não, nunca explorei todas as suas margens. Quando muito novo, nas manhãs com cheiro de chuva, apenas colocava barquinhos de papel no córrego temporário e observava ele sumir, através da cerca de arame farpado. Quando íamos “virando gente”, o terreno era desbravado aos poucos. A depender da idade, podíamos subir nas árvores, pescar, caçar passarinhos e sapos com badoque, pegar argila na olaria, soltar pipa no terreno aplainado que ficava um pouco mais longe, mas nunca, nunca entrar na água!
No rio era permitido tomar banho, mas só nos dias de domingo, quando todos iam caminhar depois do almoço em família. Pra falar a verdade, permitido não era, mas um primo mais ousado sempre entrava na água e os outros não iam ficar só assistindo. Banho de rio sem a presença de um adulto significava surra de Vilão. Tomei muitas destas!
Pegar o Beco do Rio era certeza de novas descobertas. Ainda hoje, não sei de tudo que está para além daquelas serras. O que conseguimos desbravar foi balançar na ponte de Nei, que sempre ameaça cair sobre o rio; correr dos cachorros e dos gansos que tomavam conta daquelas terras; ir um pouco mais longe e encontrar quedas d’água e outros lugares de banho; subir o morro e ver a cidade de cima. Ver toda a cidade de cima assustava e encantava.
Morar numa casa de quintal arborizado, com uma lagoa na frente e um rio atrás, me fazia sentir privilegiado, mas confesso que o melhor nem era isso. Brincar na rua era o nosso carnaval. Minha mãe, protetora convicta, controlava o tempo de “descer”, e por isso cada minuto “lá embaixo” era precioso. Haviam as brincadeiras do dia, impraticáveis à noite pela gritaria da gurizada: bater e apanhar do chicotinho queimado, jogar gude (minha especialidade), malabarismos no pião, amarelinha no passeio de Vovó, esconde-esconde sem limites de espaço, descer a ladeira do Arroz de Cima com carrinhos de rolimã, jogar bola** e ver um céu de pipas a se aproveitar dos ventos de agosto. Depois do jantar, no asfalto morno cheirando ao vapor do dia, a rua sem carros ou o passeio da casa, viravam uma grande praça esportiva. As brincadeiras, muitas vezes violentas, respeitavam a idade ou a coragem dos envolvidos: cabra-cega sem medo de ser atropelado; pular corda até as pernas reclamarem; vôlei, baleado e garrafão para especialistas na coragem; andar de bicicleta a toda velocidade; pular-sela quando queríamos mostrar superioridade a um dos membros da turma; salada mista no passeio da vizinha ou outras brincadeiras de paquerar que me renderam o primeiro beijo.
A rua era lugar de todos e, sobretudo, uma certeza de descanso para os pais. As brincadeiras quebravam limites espaciais com o crescer da idade. Os anos vivendo essa rua me renderam amizades e inimizades em outros bairros, seja a partir dos amigos da escola ou dos que iam mudando para outros lugares: o restante da cidade, aos poucos, tornou-se território aliado ou temido.
A rua é, para a criança que brinca, um espaço de liberdade. Os menos dispostos a reconhecê-la como tal, no entanto, chegam à conclusão de que brincar na rua é perigoso e que a rua contemporânea não é lugar de criança. A cidade é uma construção adulta e para adultos. Entre aulas de natação e ballet, a rua, a praça ou o campinho transformam-se em espaços absolutamente abstratos entre um edifício e outro. Resta a evidência de que vivenciar a rua é se entender num lugar de fundamental socialização, trocas e percepções do espaço e do/com outro.
A necessidade da criança de brincar com a realidade e construir um universo particular, dando outra significação ao cotidiano e ao espaço, incorporando às suas vivências, enfatiza sua sensibilidade criadora no mundo material. Na experiência da cidade, como a criação de uma possibilidade utópica de questionamento da realidade existente, ou o desejo de construir o seu próprio mundo, a brincadeira pode ser compreendida como uma experiência estética e, sobretudo, como atitude política. A criança faz da cidade o seu próprio brinquedo; faz o nada virar qualquer coisa e, segundo Walter Benjamin, “mesmo depois da brincadeira ter chegado ao fim, ela permanece como uma criação nova, uma memória guardada em cada um, e possível de ser transmitida”. Comecemos a recordar que o espaço é uma fantástica invenção com a qual se pode brincar, como (e com) as crianças.

 


*Aquele que nasce em Miguel Calmon-BA é calmonense. Em Jacobina, “Cidade do Ouro” no início do século XVII, é jacobinense, os também chamados “penicos-de-ouro”. A rixa entre as duas cidades vizinhas fez conhecido o apelido dos moradores da cidade mais pobre: quem nasce em Miguel Calmon é “calça-curta”.

**Particularmente, eu odiava jogar futebol. Essa era uma obrigação a contragosto durante as aulas de Educação Física. Mas jogar bola de verdade, só na Rua das Flores, que tinha como craque a minha prima Naiara, conhecida e temida por todos os meninos do bairro, e até pelos meus colegas na escola.

REFERÊNCIA

BENJAMIN, Walter. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. 2 Ed. – São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2009.

 

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