Arrancando asas de borboletas

O mundo mudou e continua mudando o tempo inteiro, a cada instante, e tão rapidamente que não chegamos a nos dar conta. Em 2050 presume-se que alcançaremos a marca de nove bilhões de seres humanos habitando o planeta, 2,7 bilhões desses habitantes serão pessoas com menos de 18 anos. No entanto, nem todas terão a mesma chance de crescer saudáveis, de receber educação e de conseguir realizar seu potencial, tornando-se cidadãos plenamente participantes, como prevê a Convenção sobre os Direitos da Criança, é o que afirma o relatório Situação Mundial da Infância 2015, publicado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
O mundo está cada vez mais conectado  e é nesse contexto que crianças estão nascendo, um contexto em que não fica bem definido o que se configura problemas locais e globais. O aquecimento global gera inundações em cidades litorâneas, ao mesmo tempo em que atinge fazendas no interior com a seca. Doenças e conflitos ultrapassam fronteiras internacionais. Trabalhadores migrantes enfrentam restrições de migração ou de remessa de dinheiro e de mercadorias que tiram de seus filhos, em países distantes, os meios para alimentar-se adequadamente e ir para a escola (SMI 2015).
Segundo a Unicef, milhões de crianças estão chegando ao mundo em situação crítica, com mães que têm pouquíssimas chances de receberem atendimento vindo de pessoas habilitadas, o que as expõem a riscos de toda sorte. Apesar de vivermos um um ambiente urbano com acesso a supermercados, meios de transportes velozes, internet, água potável e uma série de outros benefícios da vida urbana, apenas 51% das crianças pobres são respeitadas em seu direito a uma identidade oficial (uma em cada três crianças não são registradas ao nascerem, não possuem uma identidade legal), enquanto milhões de crianças pobres apresentam retardo de crescimento devido à deficiência nutricional e morrem antes de completar 5 anos de idade. Crianças do sexo feminino, independentemente do nível da riqueza, ainda ficam para trás em relação à educação. Uma menina adolescente tem menor probabilidade de possuir conhecimentos abrangentes acerca do HIV do que um menino da mesma faixa etária. Mesmo com muitas crianças desfrutando das vantagens que a vida urbana oferece, há cada vez mais menores tendo seus direitos básicos negados, tais como educação, saúde, lazer, acesso à água potável, entre outros. Muitas dessas crianças estão sendo forçadas a realizar trabalhos arriscados que as privam do acesso a escola. E o quadro parece não se alterar.
A pobreza dessas crianças continua sendo ofuscada, embaçada pela riqueza de outras, bem como pela omissão da grande mídia na conscientização acerca dessa realidade estarrecedora vivenciada por meninos e meninas ao redor de todo o globo, bem como pela espetacularização da pobreza, com programas que se utilizam da mesma a fim de entreter seu público. Vende-se a pobreza. E essas crianças e suas vivências e traumas e dores e agonias seguem recebendo pouco apreço dos meios de comunicação brasileiros. Pouco focalizadas e sub-representadas pela grande mídia, acabam por cair no esquecimento, deixadas à deriva, ao sabor da própria sorte; crianças acerca das quais, talvez, se faça um documentário algum dia, a ser exibido em horário de pouca audiência, e, logo em seguida, volte-se a falar sobre o que realmente importa: a Jabulani animada por pés asseados e aninhados em chuteiras que talvez garantisse alguns meses de barriga cheia à alguma criança faminta debaixo de alguma ponte.  Fala-se mais sobre bolas do que sobre a dor e o sofrimento dos pequenos. Enquanto infâncias agonizam, seguimos levando nossas vidas nessa montanha russa sempre em movimento que é a vida urbana, alheios ao fato de que crianças ao redor do mundo e bem próximas de nós lidam, todos os dias, com violações aos seus direitos, mesmo quando vivem perto de instituições e serviços, aos quais não têm nenhum acesso ou, se o têm, é desigual.
Vivemos um momento histórico de grandes avanços científicos, mas a mesma ciência que consegue transmitir imagens em high definition ao vivo nas incontáveis TV’s de tela plana em nossos lares, parece ser incapaz de conseguir colocar um pedaço de pão diante dessas crianças. E nessa nossa apatia, do conforto de nossos assentos, diante de nossos visores luminosos, enxergamos tudo enquadrado. Crianças são assassinadas, abusadas e exploradas todos os dias, então são enquadradas em alguma coluna paliativa dos telejornais, mas esse sangue infantil derramado diariamente parece não escorrer nas manchetes e, ao que tudo indica, ao menos no Brasil, o futebol tem primazia. O rei Herodes continua vivo e não há quem lhe imponha limites. Estamos todos unidos a arrancar asas de borboletas.
Borboletas sem asas são crianças sem pão, sem água, sem ar, perfuradas pelos alfinetes que as impedem de se movimentarem, presas na fome, presas na dor, presas na ausência da voz, encarceradas numa redoma de frio e calor penetrantes. Borboletas sem asas são crianças sem livros, sem ritmo, sem cores, com as mãos na enxada, com a boca aberta para aliviar a sede bebendo a urina de uma vaca ressequida. Borboletas sem asas é a criança afogada na beira da praia, é o dedo da criança pressionando o gatilho, é também um discurso “sagrado” de um dilúvio louvado, de primogênitos assassinados e de bebês queimados. Borboletas sem asas é educação pública precária, merenda roubada, disciplina com a vara. É apagar a criança negra das muitas formas de representatividade. É também Daniela, 1o anos, com quem Frei Betto se deparou no elevador, às nove da manhã, e perguntou: “Não foi à aula?”. “Não; minha aula é à tarde”.  “Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir um pouco mais”. “Não, tenho tanta coisa de manhã…”. “Que tanta coisa?”. “Aulas de inglês, balé, pintura, piscina”. E lá ficou Daniela, elencando seu programa de garota robotizada, sua infância industrializada, as asas feridas demais para voar. Borboletas sem asas não têm tempo para brincar.
Há um sem número de formas de arrancar assas de borboletas, todos eles, porém, possuem algo em comum: a crueldade.
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A literatura, em contextos de crise, aliada a outros fatores, ajuda de maneira ímpar na reconstrução da identidade da criança fragmentada.
Emancipar a infância de toda a dor que lhe impomos ao negar-lhe o que temos de sobra ou nos trancarmos dentro de nosso mundo tecnológico sempre em constante movimento: eis o dilema que precisamos enfrentar. Enquanto ainda formos uma sociedade com estômago para se ocupar em debates sobre a cor do biquíni com o qual aquela atriz foi à praia num domingo ensolarado, enquanto o trabalho infantil continua atingindo milhões de crianças ao nosso redor, choverão sobre nós, nossa mesa, nossa cama e nossa casa asas de borboletas, sangrando, feridas e despedaçadas. Asas vermelhas que continuaremos a usar como adubo para lavar nossas vestes, cultivar e cozinhar nosso alimento e banhar nossos corpos. Ou expulsamos Herodes de seu domínio, ou ele continuará a reinar em seu trono de sangue.
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