O ritual no jardim: local de trabalho para leitores “menores”

Em 2008, quando fiquei responsável por ministrar a disciplina literatura infantil, no Instituto de Letras da UFBA, fui apresentada ao romance O ritual no jardim, do escritor baiano Mayrant Gallo, destinado ao público infantil. Desde então, a obra tornou-se exemplo, em minhas aulas de literatura, do que compreendo ser uma literatura infantil de qualidade, tendo em vista que o autor não subestima a capacidade de leitura e compreensão das crianças. Ao contrário, o caráter fragmentário da narrativa apresenta-se como um delicioso jogo, aberto às interferências deste que se configurará como um coautor do texto: o leitor infantil. Além disso, a utilização de uma linguagem poética – marcada pela sugestão, pelo silêncio, pelo lirismo simples (mas não simplório) – coloca esta obra entre aquelas que fogem aos estereótipos do gênero, como é possível  inferir da leitura do  capítulo abaixo:

AMOR
Dudu não atinava com os ruídos que certas noites pareciam deixar o quarto dos seus pais, no fim do corredor, e se espalhavam pela escuridão da casa, aterradores. Imaginou ratos. Ratos enormes. Descendo a escada, fuçando panelas… Mas, o que era estranho, não escutava tinidos… Seriam os fantasmas? Nunca! Eles são leves e mudos, gostam de brincar sossegados, são meigos e amigos.
Pela manhã falou com Bebel.
_ Escutou os ratos de noite?
_ Que ratos?
_ Os que parecem sair do quarto de mamãe e andam pela casa fazendo barulho…
_ Aquilo é amor, seu bobo, amor.
E foi brincar com Napoleão. (GALLO, 1993, p. 60)

Curioso, mas não surpreendente, é saber que o romance foi recusado por algumas editoras pois seus analistas consideraram ser o mesmo inadequado para a faixa etária em questão, conforme nos atesta o próprio autor em depoimento enviado por e-mail:

[…] uma editora do Rio de Janeiro, e esta talvez tenha sido a melhor resposta que recebi, frisou que o livro tinha valor, mas não era uma obra destinada ao público infanto-juvenil. Uma terceira, de São Paulo, alegou que os leitores jovens não teriam capacidade de compreender a descontinuidade dos capítulos.[1]

A história, em resumo, narra as traquinagens, indagações, descobertas e tragédias na vida de três crianças – os irmãos Fifi, Bebel e Dudu – em uma Rio de Janeiro atemorizada por notícias que, pelo rádio, chegavam da Segunda Grande Guerra e desbotavam os ensolarados dias de verão daquela família de classe média. Trata-se, portanto, de um enredo simples. No entanto, dois pontos fizeram, a meu ver, com que os editores reprovassem a obra: alguns dos temas aludidos no livro e, principalmente, o caráter fragmentário da narrativa (este último já apontado no e-mail do autor).

No que se refere aos temas, são abordadas – de modo bastante sutil e, como já referido, lírico – questões como morte e doença infantil, preconceito social e racial, pobreza, violência, sexualidade, guerras etc. No fragmento, ou capítulo, “Bebel revelada”, por exemplo, o autor trata da descoberta da sexualidade pela personagem que tem 9 anos de idade:

BEBEL REVELADA
Vento violento entrando, esvoaçando a leveza do quarto. Da cômoda voam papéis, vão ao chão ornatos leves. Uma revista sofre no ar sérias avarias…
Passa a fúria inicial, descai fria brisa circulando… circulando em torno ao corpinho nu de Bebel que se contrai pleno de desejo. (GALLO, 1993, p. 46)

Não obstante Freud já tenha chocado a sociedade de sua época mapeando diferentes fases da sexualidade infantil e, assim, rompendo com a imagem da criança como um ser inocente, assexuado (e depois dele tantos outros já apresentaram estudos a respeito), esse é ainda um dos temas tabus na literatura destinada à infância e à adolescência. Mesmo na contemporaneidade, apesar das imensas transformações nos modos de conceber a infância, existe ainda uma compreensão, por parte de alguns autores, pais e professores, de que para crianças e adolescentes não serve o que se julga feio, sujo, estranho, triste; não é permitido o conhecimento do corpo, do sexo, da morte. Há, inclusive, “receitas” sobre o que escrever, como escrever, que linguagens utilizar e de quais assuntos tratar na produção de obras para crianças e adolescentes, segundo depoimento do escritor Bartolomeu Campos de Queirós, o qual diz espantar-se com “[…] pessoas capazes de traçar cânones, normas, ensinando como construir um texto para os ‘pequenos’ – muito diálogo, muita ação, frases curtas, sem esquecer o humor. Nada de tristezas”. (QUEIRÓS, 1997, p. 42-43).

Em se tratando da estrutura: o romance é composto de pequenos contos (90 ao todo) que, para usar as palavras do próprio autor, “[…] foram ordenados atemporal e livremente, sob a ótica da cronologia dos instintos infantis” (GALLO, 1993, p. 4). Mas, além dessa “desordem” autoral, e talvez mais por isso, o próprio leitor poderá montar e remontar a história de acordo com o seu desejo, uma vez que os fragmentos podem funcionar como peças de um mosaico, um divertido brinquedo, um local de trabalho aberto às interferências do leitor infantil. E os fragmentos, os resíduos, os locais de trabalho onde a atuação sobre as coisas se processa de maneira visível, interessam especialmente às crianças, nos ensina Walter Benjamin, pois as mesmas têm aptidão para os detritos, para as sobras. Restos de madeiras, retalhos de tecidos, pedaços de tijolos atraem as crianças muito mais que os brinquedos prontos, porque, a partir desses produtos residuais, elas poderão constituir “[…] seu próprio mundo de coisas, um pequeno mundo inserido no grande”. (BENJAMIN, 2002, p. 58). É precisamente por isso que Benjamin considera o conto maravilhoso, a fábula e a canção interessantes para as crianças, uma vez que, para ele, esses gêneros textuais possuem “[…] resíduos do processo de constituição e decadência da saga […]” da humanidade, das quais os pequenos se apropriam para construir seu mundo com motivos próprios.

Essa autonomia e habilidade construtiva da criança são também reconhecidas por Freud, em seu texto “Escritores criativos e devaneios”, no qual o psicanalista coloca que, ao brincar, a criança “[…] reajusta os elementos de seu mundo de uma nova forma que lhe agrade” (FREUD, 1996. p. 135). Freud identifica aí os primeiros traços da atividade imaginativa que, posteriormente, será responsável pela criação literária. Enfim, ele aproxima o escrever do brincar, salientando que ambas as tarefas são levadas muito a sério por seus produtores, os quais, embora conectem os novos mundos edificados (pela escrita e pelo brincar) às coisas tangíveis e visíveis do mundo real, sabem distingui-los perfeitamente da realidade.

As aproximações entre o escrever e o brincar, entre o escritor e a criança me conduzem ainda a Giorgio Agamben, no seu livro Infância e história. O filósofo italiano define na obra a infância como uma experiência[2] de linguagem, um inscrever-se contínuo do homem, um apoderar-se incessante de uma língua que, ao mesmo tempo, se lhe escapa, uma vez que é impossível falar unicamente por intermédio dela, mas é sempre através dela que a infância acontece, ou seja, que a subjetivação do homem se realiza[3]. Esse interminável devir pode ser relacionado à tomada de posse pelos pequenos dos restos de madeira da carpintaria, ou dos retalhos da cesta de costura da mãe, ou de um texto fragmentado como O ritual no jardim. Materiais com os quais as crianças serão capazes de montar/inscrever inúmeras possibilidades de existência.

 


REFERÊNCIAS

AGAMBEN, Giorgio. Infância e história: destruição da experiência e origem da história. Trad. Henrique Burigo. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas III. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. 5. ed. Trad. José Carlos Barbosa e Hemerson Baptista. São Paulo: Brasiliense, 1989.

BENJAMIN, Walter. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. Trad. Marcus Mazzari. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2002.

FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GALLO, Mayrant. O ritual no jardim. In: Três infâncias. Anajé: Casarão do verbo, 2011.

GALLO, Mayrant. O ritual no jardim. Rio de Janeiro: Presença, 1993.

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Menino temporão. In: PAULINO, Graça (org.). O jogo do livro infantil: textos selecionados para formação de professores. Belo Horizonte: Dimensão, 1997. p. 42-43.


Notas:

[1] Depoimento de Mayrant Gallo enviado por e-mail em 06 de maio de 2011. (Grifo meu).

[2] O conceito de experiência a que Agamben se refere é benjaminiano, por isso opõe-se à vivência e consiste “[…] no conhecimento obtido através de uma experiência que se acumula, que se prolonga, que se desdobra, como numa viagem”, conforme nos explica Leandro Konder, ou seja, é o conhecimento sedimentado, inscrito no sujeito de tal modo que ele sequer identifica o seu princípio. Foi Benjamin quem declarou o empobrecimento da experiência e a impossibilidade moderna de narrar a partir dela. No entanto, ele também flagrou na escrita de Kafka, para ele o maior narrador moderno, a possibilidade de narrar a partir da perda da experiência.

[3]O filósofo compreende a infância não como uma etapa passageira, mas como uma condição da existência humana.

 

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