Malévola: uma vilã empoderada

Contos de fadas são alguns dos textos mais reproduzidos e adaptados da Literatura, ao longo dos anos. Provenientes da tradição oral europeia, foram compilados e publicados entre os séculos XVI e XIX por autores como Charles Perrault, Jacob e Wilhelm Grimm, Hans Christian Andersen e Giambattista Basile.
Durante o século XX, foram feitas muitas adaptações de contos de fadas na forma de animações em longa-metragem. Foi uma época em que a figura de Walt Disney ganhou grande destaque, por conta de seu trabalho pioneiro nos estúdios. No entanto, contemporaneamente, percebe-se uma tendência de questionar e revisitar essas obras, com o propósito de desconstruir a representação das personagens de contos de fadas, especialmente as femininas. Percebe-se, ainda, uma preocupação em apresentar para as crianças (especialmente as meninas) modelos femininos menos problemáticos e mais empoderados.
Neste post, discuto essa tendência, apontando para uma desconstrução e nova representação da vilã a partir das obras A Bela Adormecida (lançada em 1959 e produzida pelos Walt Disney Studios) e Malévola (lançada em 2014 e produzida pela Walt Disney Pictures).
A animação A Bela Adormecida tem como personagem titular (mas não como protagonista) a princesa Aurora, uma bela jovem de cabelos loiros, lábios vermelhos e o dom do canto. Quando bebê, Aurora fora amaldiçoada por uma “bruxa má”, e estava fadada a espetar o dedo numa roca de fiar e morrer no seu aniversário de dezesseis anos. Uma fada interveio e amenizou sua maldição: Aurora não iria morrer, e sim cair num sono profundo, do qual poderá ser acordada com um beijo de amor. O mote principal desse filme é a salvação da princesa por meio do amor verdadeiro – neste caso, o amor de um homem (príncipe Felipe) por uma mulher (princesa Aurora). Entra, também, o mito do amor à primeira vista, visto que Felipe e Aurora se conhecem apenas no dia anterior ao beijo – o que é uma brusca mudança em relação às versões escritas (nas quais o príncipe e a princesa não se conhecem, ou ainda, ela é violentada por ele). Atribui-se essa mudança a uma preocupação dos estúdios Walt Disney de produzir uma história “adequada” para os padrões de 1959.
Curiosidade: apesar de Charles Perrault ser creditado pela história (ele publicou uma versão do conto em 1697), a narrativa do filme se aproxima muito mais da versão dos Grimm (de 1812).
Assim como a princesa, a vilã também ganha um nome na versão da Disney: Malévola. O contraponto de Aurora (bela, loira e gentil), Malévola é a personificação da maldade e feiura, representada com chifres, olhos amarelos, rosto pontudo e pele esverdeada (por vezes, azulada). Aliás, toda a paleta de cores utilizada para Malévola é escura e sombria, com uma preponderância do verde, roxo e preto.
big_thumb_ef6ccbbc1c4f88649e03710f38293d45
Percebe-se, pela imagem acima, a presença de um corvo. Não por acaso, o animal de companhia de Malévola, em muitas culturas, é um presságio da morte. Praticamente todas as aparições da vilã são dramáticas e envolvem trovões e chamas verdes, como se surgisse de uma nuvem de enxofre – e os chifres lhe concedem uma aparência especialmente demoníaca. A Malévola de 1959 é inteligente e elegante, porém é uma personagem plana. Não há muita complexidade na dicotomia “bem x mal”.
Em A Bela Adormecida, todos os personagens podem ser divididos entre “mocinhos” ou “vilões”, com limites bem definidos. De um lado, uma princesa inocente, um príncipe valente e três fadas bondosas; de outro, uma figura criada esteticamente para remeter ao demoníaco, uma personagem plana, uma vilã que é má apenas por ser má. Apesar de receber grande destaque na animação (tanto no tocante ao tempo de tela quanto à importância na trama), não há qualquer profundidade na Malévola de 1959.
Para a audiência daquela época, isso não era um problema – no entanto, numa sociedade contemporânea há uma demanda crescente (especialmente impulsionada por movimentos feministas) por novas representações de mulheres em contos de fadas, personagens mais complexos e menos problemáticos. Por isso, em 2014, num movimento que deu início a uma série de readaptações em live action dos clássicos da Disney, foi lançada uma nova versão da história da princesa adormecida – dessa vez, tendo a vilã tornada protagonista.
A Malévola de 2014 ainda carrega semelhanças físicas com a de 1959, porém, percebe-se o primeiro sinal de sua desdemonização na escolha da atriz (referida como a “única pessoa possível para interpretar esse papel): Angelina Jolie, considerada uma das mulheres mais belas do mundo. Malévola, portanto, conserva sua elegância – elemento presente na animação –, mas também ganha o status quo de se encaixar perfeitamente nos ideais de beleza propostos pela sociedade. De traços finos (acentuados pela maquiagem) e voz suave, Malévola torna-se uma figura sedutora – não mais a vilã feia e caricata de outrora. Na imagem a seguir, nota-se que o tom de pele esverdeado foi substituído pela palidez quase absoluta, lábios vermelhos, maçãs do rosto afiadas.
malevola
Ainda sobre a estética, é imprescindível ressaltar o elemento das asas – pois Malévola, nessa nova versão, não é uma bruxa, e sim uma fada. Fortes e amplas, as asas representavam a importância da personagem no reino encantado dos Moor, a principal ferramenta para que Malévola pudesse exercer sua função de protetora e guardiã, além da simbologia pessoal de liberdade e independência. A perda das asas, no filme, é o primeiro ponto de virada da trama: enganada pelo homem que amava e em quem confiava, Malévola é drogada e tem suas asas arrancadas. Ao acordar, percebe o corpo mutilado e solta um grito de agonia, numa cena forte e dura – e até chocante para um filme supostamente infanto-juvenil.
É impossível não comparar a perda das asas com a violência sexual sofrida por milhões de mulheres por todo o mundo – e essa associação não é feita por acaso. A própria Angelina Jolie falou, em entrevistas, que ela e a roteirista estavam cientes de que aquela era uma metáfora para estupro.
A traição é a raiz do mal, em Malévola: quando suas asas são cortadas literalmente, elas também o são metaforicamente. Ela perde sua liberdade e seu poder; se torna uma mulher fria e cruel, negligencia seu papel como protetora dos Moor e assume uma postura vingativa. Passa a acreditar que todos os homens são maus e que o amor verdadeiro não existe. Por fim, a maldade dentro de si cresce a ponto de amaldiçoar um bebê, a filha do homem que a enganou, princesa Aurora – numa cena já conhecida pelo público de 1959, e que foi reproduzida no filme de 2014 de uma forma inovadora. Os elementos principais estão presentes e até a estética das cenas é similar; no entanto, ao adicionar a perspectiva de Malévola ao enredo, os espectadores começam a perceber que as coisas não são tão dicotômicas assim.
Talvez o aspecto mais revolucionário em Malévola seja a quebra do final previsível de contos de fadas (o amor de um homem por uma mulher a salva do feitiço, acarretando um casamento e o “felizes para sempre”). Nessa releitura, o salvador da princesa Aurora não é o príncipe Felipe – que sequer se sente confortável para beijá-la, em primeiro lugar –, e sim a própria Malévola, sua “fada madrinha” (como Aurora costumava chamá-la). Eis que, com o passar dos anos, a doçura e inocência de Aurora tocaram a vilã, e sua bondade quis retornar. Nesse processo, Malévola acaba salvando também a si mesma: o “beijo de amor verdadeiro” que dá na testa da princesa é uma retomada da sua própria humanidade e doçura, num ato extremamente maternal.
Isso indica que há uma inovação, mas também um problema em Malévola. Apesar de ser uma obra que quebrou muitos padrões, tanto no referente à vilã quanto à própria mulher nos contos de fadas em geral, ela ainda cai num clichê: o do feminino associado ao maternal. Esse é o próprio papel da protagonista, na sociedade em que está inserida. Guardiã dos Moor e “fada madrinha”, Malévola é posta num lugar de mãe – enquanto não se aceita como protetora de Aurora, ela permanece fria; no momento em que a salva da maldição, no entanto, assume um papel de mãe para a princesa e recupera sua própria humanidade e doçura. Numa sociedade que ainda pressiona muitas mulheres à maternidade, essa é uma falácia que ainda precisa ser desconstruída.
Esse pequeno problema, no entanto, não tira o mérito do filme – progressivo, desconstrutor e que revolucionou o jeito de se contar histórias da Disney. Malévola ganha, assim, grande destaque no movimento de nova representação de mulheres nos contos de fadas, apresentando uma personagem complexa, multidimensional e empoderada que não é “nem vilã nem heroína, mas um pouco dos dois”.
Anúncios

2 comentários sobre “Malévola: uma vilã empoderada

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s