Vozes das Áfricas em “Ogum, o rei de muitas faces e outras histórias de orixás”

É de conhecimento de todos nós da área educacional que, há mais de uma década, foi promulgada a Lei 10.639/2003, que visa sancionar e tornar obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana da educação básica. Essa lei tem o objetivo de assegurar igualdade de vida e cidadania, bem como o direito de acesso às diversas marcas culturais que formam o cenário brasileiro. Para efetivar tal dever na prática – o que ainda é rarefeito –, algumas produções literárias propõem reflexões acerca do universo étnico africano e seus efeitos no imaginário dos seus leitores, buscando resinificar a história e a cultura afro-brasileira.
Nesse ínterim, descobrimos o livro Ogum, o rei de muitas faces e outras histórias de orixás, escrito em 2000 por Lídia Chaib e Elizabeth Rodrigues, que é objeto de análise e reflexão na obra Áfricas e diásporas na literatura infanto-juvenil no Brasil e em Moçambique, da pesquisadora Maria Anória de Jesus Oliveira. O livro se mostra de suma importância para nós leitores, estudiosos e/ou futuros agentes da área educacional, para visibilizar e tornar possíveis debates a partir do mesmo.
Ogum, o rei de muitas faces é uma obra infantil e juvenil que se forma a partir de pequenas narrativas que contam de forma lúdica a história de Ogum, bem como de outros orixás em suas andanças aventureiras em solo africano. Alguns dos protagonistas dos contos são Exu, Oxóssi, Iemanjá, Oxalá, Xangô, Iansã, Obá e Obaluaê. Dentre os demais papéis nas tramas, também são citados Nanã, Oxumarê, Ossain e Odudua, nomes que possuem grande carga significativa para as religiões de matriz africana e que ajudam o jovem leitor a desvendar as complexas cosmogonias da mesma.
As narrativas expressam o cotidiano familiar, os reinados, súditos, respectivos reis, apresentando-se o poder, a proteção, as fúrias, as lutas; também as disputas e receios; a gênese do mundo desde o início de tudo, no Orum, o espaço infinito, quando só existia Olorum, o Deus Supremo (CHAIB; RODRIGUES apud OLIVEIRA, 2014, p. 36), até a sua povoação. (OLIVEIRA, 2014, p. 36)
Os orixás nos são apresentados como seres que, por terem sido excepcionais em vida, possuíam um imensurável axé, que é a força pura e vital do orixá, e que pode ser absorvido em filhos escolhidos para saudar descendentes e receber homenagens. A passagem da condição humana para a condição de orixá se dá num momento de enorme emoção, onde sua matéria desaparece, restando apenas o axé.
Cada orixá é trazido nas histórias associado às suas principais características – que se relacionam com suas histórias precedentes de vida, laços familiares e com as transformações que passaram ainda na África, em tempos longínquos. As pequenas narrativas rascunham alguns espaços sociais africanos a partir do mito da criação do mundo, de sua povoação e suas transformações. Em cada mito, são marcadas as funções primordiais de cada orixá – que não simbolizam o Bem ou o Mal, e sim, são imersos em contextos onde guerreiam, produzem alimentos, descobrem o fogo, caçam, lideram os reinados e a natureza e estão sujeitos a falhas, já que amam, lutam entre si, enciúmam-se, zelam, e apresentam características próximas a nós, desvendando um pouco do que somos, e tornando-se divindades: “Os orixás são as forças vivas da natureza, onde o homem deve ser incluído, e por meio dos elementos se manifestam, expressando seus domínios e seu vasto poder.” (REIS, 2000, p.42)
Exu é descrito como “um feiticeiro muito esperto que tomava conta das estradas”, Oxóssi é um rei, “caçador esperto e valente”, Ogum, “o fundador da cidade de Ifá”; Obá, é “a famosa guerreira”; o rei Xangô é “o poderoso senhor do fogo, dos trovões e das tempestades”, casado com Iansã, “a destemida senhora dos ventos”, “Ifá, o senhor das adivinhações”; Nanã, a “mulher bonita e feliz no seu casamento com o rei Oxalá”.
São narrados todos os caminhos percorridos por cada um desses personagens até se tornarem seres supremos e detentores das características acima mencionadas – como em “Iemanjá e seus filhos”, onde entramos em contato com a história dos quatro filhos de Iemanjá – Ogum, Oxóssi, Xangô e Exú –, desde que eram crianças até a confirmação do destino de cada uma das suas principais características como orixás. Histórias contadas a partir das dualidades presentes em cada ser, marcadas por um universo cheio de significações, remetendo o leitor a viajar a terras que, apesar de distantes, são tão próximas de nós.
Sabemos que falar sobre temas culturais e religiosos de matriz africana em sala de aula e educar de uma forma antirracista ainda hoje é um desafio. Ressignificar temas ainda considerados por parte da sociedade como tabus e não incorrer na intolerância é um desafio maior ainda. Até porque, para isso, nós, educadores, precisamos ter uma formação que nos capacite para trabalhar com as relações étnico-raciais, o que ainda é deixado de lado na grande maioria das instituições brasileiras da educação básica e superior. No entanto, começar a adentrar nos espaços sociais africanos e entrar em contato com os seres ficcionais por meio da literatura é uma ferramenta que pode abrir caminhos inaugurais nesse sentido.
Fica então o convite ao leitor que, como eu, ainda não conhecia as histórias introduzidas aqui, principalmente sendo contadas de uma forma tão peculiar e interessante. E também ao profissional educador que reconhece a necessidade e a obrigação de falar sobre África e cultura africana e afrodescendente em sala de aula, pregando a diversidade e o respeito ao abordar tais temas imersos num discurso livre de preconceitos e estereotipias, abrindo caminhos às cosmovisões distintas construídas nas Áfricas e nos países da diáspora.
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