Histórias que os camponeses contam: janelas para as infâncias

“Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e de leite para sua avó. Quando a menina ia caminhando pela floresta, um lobo aproximou-se e perguntou-lhe para onde se dirigia” – (DARNTON, 1986, p. 21 ).
O trecho acima corresponde às primeiras frases da transcrição de uma das versões orais da história que deu origem às várias versões do conto Chapeuzinho Vermelho, dentre as quais destacam-se a versão do contista francês Charles Perrault e a dos conhecidíssimos irmãos alemães, os Grimm. E é com essa versão que Darnton, no capítulo Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe-Ganso do seu livro, tece uma discussão acerca do significado histórico da narrativa que ficou conhecida pelo título Chapeuzinho vermelho, abrindo mão da perspectiva psicanalista que tem analisado os contos de fadas, em especial as perspectivas de Erich Fromm e Bruno Bettelheim, que não levam em conta, nas suas análises, a dimensão histórica dos contos.
Era assim, certamente, que se iniciava a narrativa que outrora era contada inúmeras vezes por vivas vozes, cada contador à sua própria maneira, reconfigurando o enredo conforme lhe aprouvesse. A história trágica da menina que encontra seu destino na bocarra de um lobo, cujo trecho foi aqui transcrito, era contada ao redor da lareira das cabanas em que viviam os camponeses franceses do século XVII e XVIII.
Homens e mulheres, fossem adultos, fossem crianças, reuniam-se ao findar de muitas tardes a fim de escutarem as palavras que os levariam ao riso, ao medo ou ao choro, contos populares que os faziam pensar. A voz do contador de histórias colocava diante de todos personagens agindo em um tempo e em um espaço, tomando decisões, fazendo suas próprias escolhas, influenciando e sendo influenciados, caminhando cada um para o seu destino. Personagens que sentiam fome e sede, frio e calor, com desejos e vontades, medos e alegrias, com seus próprios conflitos e dilemas. A voz do narrador era o artifício quase mágico que criava cenários, situações vivenciadas por personagens cunhados no ar, vindos das profundezas que forjam a voz humana. Em um processo muito próximo da feitiçaria, esse universo de ar, com pessoas de ar e castelos de ar, invadia os ouvidos da plateia e lhes chegava à mente como um furacão, deixando marcas irremovíveis. “Os contadores de histórias camponeses não achavam as histórias apenas divertidas, assustadoras ou funcionais. Achavam-nas “boas para pensar”. Reelaboravam-nas à sua maneira, usando-as para compor um quadro da realidade, e mostrar o que esse quadro significava às pessoas das camadas inferiores da ordem social”, (DARNTON, 1986, p. 92).
Em um tom bem casual, sem nenhum traço crítico ou problematizador, a versão aqui analisada inicia explicitando a relação de poder adulto-criança que há entre mãe e filha. A mãe manda que a menina atravesse a floresta desacompanhada até a casa da avó. A ordem se materializa no texto por meio do discurso indireto; é o narrador quem diz que uma ordem foi dada e qual foi essa ordem. Não há diálogos entre a menina e sua mãe. A ordem é dada e acatada, como revela a segunda sentença: “Quando a menina ia caminhando pela floresta, um lobo aproximou-se e perguntou-lhe para onde se dirigia.” – (DARNTON, 1986, p. 21 ).
Todas as personagens do conto são introduzidas já no primeiro parágrafo, à exceção do gato, que aprece brevemente a fim de maldizer a garota quando esta, no que parece uma espécie de Santa Ceia levada ao pé da letra, come da carne e bebe do sangue da própria avó – “menina perdida! Comer da carne e beber do sangue de sua avó!” (Ibid.) –, o que é um fato curioso se levarmos em conta que a garota, que sai de casa com o propósito de levar alimento à avó, acaba ela mesma por comer a velha senhora, numa reviravolta digna de Édipo Rei. O gato, em sua fala monologicamente exclamativa, não direcionada à ninguém,  antecipa o destino da menina (perdida). É só depois de comer do corpo e beber do sangue da anciã que Chapeuzinho, completamente nua, deita-se ao lado do lobo-avó.
A infância retratada na versão oral dos camponeses extrapola a materialidade do texto quando levamos em conta que essa narrativa, em que são descritos canibalismo e um episódio relativamente prolongado de strip-tease infantil, era uma história contada também para crianças. É comum que o leitor hodierno encare como irresponsável e absurda a ordem da mãe dada à sua filha – uma criança! –, levando-a a seguir sozinha floresta adentro. No entanto, é preciso levar em consideração que a noção de infância que temos atualmente não corresponde à mesma dos camponeses franceses dos séculos XVII e XVIII; as sensibilidades em relação às pessoas de pouca idade eram outras naquela época. As crianças que já fossem capazes de andar e falar com certa desenvoltura eram tratadas como adultos no tocante aos afazeres do cotidiano. A vida de adultos e crianças se misturava.
“Até por volta do século XII, a arte medieval desconhecia a infância ou não tentava representa-la. […] É mais provável que não houvesse lugar para a infância nesse mundo.” (ARIÉS, 2012, p. 17 ). No século XVII “Não se pensava, como normalmente acreditamos hoje, que a criança contivesse a personalidade de um homem. Eles morriam em grande número” (Idem, p. 22). A demografia da época trazia como consequência certa indiferença generalizada em relação às crianças que morriam muito cedo. “Consta que durante muito tempo se conservou o hábito de enterrar em casa, no jardim, a criança morta” (Idem, p. 22). Os camponeses desconheciam o pudor que hoje temos em relação à infância, e por isso não tinham qualquer tabu ao tratar de assuntos como sexo, ainda que por meio de contos para entreter.
Ainda no tocante aos elementos do trecho inicial da transcrição da narrativa camponesa aqui abordada, é significante a ausência de um elemento quase sempre presente nas versões escritas e adaptadas para crianças: o conselho materno que materializa, nas versões destinadas ao público infantil, certa preocupação em transmitir uma moral às crianças leitoras, tornando o conto um texto intencionalmente moralizante. Trata-se de um elemento inteiramente ausente nas versões orais. Não havia, entre os camponeses, qualquer preocupação em moralizar suas crianças por meio de contos, os quais eram destinados a todos, fossem adultos, fossem crianças. Em uma das versões dos irmãos Grimm, por exemplo, essa preocupação em transmitir uma moral ao leitor mirim se manifesta na fala que é posta na boca da mãe de Chapeuzinho, que diz à filha: “Seja educada quando entrar na casa dela e dê um beijo nela por mim. Tome cuidado e não saia do caminho […] Quando entrar na sala, não se esqueça de dizer: “Bom dia, vovó”, e não fique espiando pelos cantos” (GRIMM apud PULLMAN, 2012, p. 124)
Outra ausência significativa na transcrição da versão oral no texto do Darnton, e que está diretamente ligada a essa preocupação em moralizar a infância, diz respeito ao adjetivo “mau” que qualifica o substantivo “lobo”, e que aparece em várias versões escritas do conto. A palavra “mau” é muito recorrente em contos de fada adaptados para crianças, e, em alguns casos, pode ser encarada como mais um mecanismo moralizador implícito. Ao identificar o lobo como sendo uma figura má, a criança é impedida de fazer um juízo próprio acerca das ações da personagem. Ou seja, guia-se a priori o olhar da mesma em relação à personagem, manipula-se o olhar do leitor acerca da personagem.
Sem conselhos do tipo “não desvie da trilha”, sem capuz vermelho ocultando uma referência sexual, sem caçador para salvar a menina indefesa, sem qualquer preocupação explícita de transmitir uma moral, com episódios de canibalismo, apelo sexual e um desfecho trágico, narrada tanto a adultos quanto à crianças, essa versão do conto, bem como o contexto em que este era veiculado, é uma janela que podemos acessar a fim de pensar as infância de antes e a infâncias de agora. As produções contemporâneas destinadas ao público infantil dizem-nos tanto sobre nós e sobre as crianças de hoje quanto os contos dos camponeses nos dizem acerca deles e das crianças de outrora.

 


REFERÊNCIAS

DARNTON, Robert. O grande massacre dos gatos: e outros episódios da história cultural francesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal Editora, 1986. 361 p.

ARIÉS, Philippe. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2012. 196 P.

PULLMAN, Philip . Contos de Grimm: para todas as idades. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014. 345 p.

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