Mulher Maravilha e Ms. Marvel: representação do gênero feminino nas histórias em quadrinhos

Por Mirela Souza
As histórias em quadrinhos (HQ’s) “são uma narrativa gráfico-visual, impulsionada por sucessivos cortes […], o lugar significante do corte gráfico, será sempre o lugar de um corte espaço-temporal, a ser preenchido pelo imaginário do leitor” (CIRNE, 2000, p. 23). São uma arte sequencial, que se consolidou ao longo do século XX, a fim de transmitir informações que dialogam e se adaptam ao contexto histórico, social e cultural de sua época. Portanto, é importante observar como se constrói, para quem e baseado em quais ideologias.
Embora tenham sido consideradas por muito tempo como um produto de “baixa cultura”, seja pela sua linguagem supostamente “simples” ou pela leitura de “fácil” acesso, a crescente difusão por outros meios de cultura – como cinema, desenhos animados e séries televisivas – faz com que as histórias em quadrinhos conquistem cada vez mais espaço e leitores de diferentes gêneros, faixas etárias e, gradativamente, mais prestígio nos estudos acadêmicos como uma arte expressiva de valor, sobretudo o gênero de super-heróis. Consequentemente, consolidam-se como um relevante produto de massa na contemporaneidade.
Entretanto, se, por um lado, as HQ’s de super-heróis possuem um público diversificado, por outro, são historicamente segregadoras e sexistas. Tradicionalmente voltadas para os meninos, as diferenças binárias de gênero masculino/feminino estão presentes nas narrativas, desde como são caracterizadas as personagens (que reforçam estereótipos como se fossem naturalizados) até a exclusão do público feminino como leitor-alvo, por julgarem que o gênero “não pertence ao universo feminino”.
De modo especial, as transformações sociais que ocorreram nas últimas décadas vêm contribuindo para dar visibilidade a grupos antes marginalizados, em especial as novas concepções de gênero e representações dos mesmos nas HQ’s, através de novos personagens, porém ainda em menor volume em relação aos personagens masculinos.

Mulher-Maravilha

Reconhecida como primeira super-heroína da DC (Detective Comics), a Mulher Maravilha (Wonder Woman) tem a sua primeira aparição numa revista em quadrinhos em 1941 – na All Star Comics #8. Criada pelo psicólogo americano e ativista do movimento feminista, William Moulton Marston, a personagem marca um momento importante nas HQ’s: uma super-heroína a atingir o mesmo nível de popularidade dos super-heróis e a incorporar características antes atribuídas à personagens masculinos.
Historicamente, os quadrinhos negligenciaram o público feminino. Os primeiros protagonistas do gênero de super-heróis evidenciaram uma supremacia masculina; às mulheres cabiam os papéis secundários de moças indefesas, vítimas das artimanhas dos vilões ou namoradas dos heróis. Diante de tal cenário, essa inferioridade impede que as meninas se vejam representadas. Para Marston, “nem mesmo as garotas querem ser garotas, enquanto ao nosso arquétipo feminino faltar força, coragem e poder”. Ele via na história em quadrinhos um grande poder educacional e, através delas, a Mulher-Maravilha seria “a propaganda psicológica para o novo tipo de mulher que deverá governar o mundo.”
A Mulher-Maravilha foi produto de uma mitologia aliada s preceitos feministas em um momento histórico oportuno (CAIXETA,2012, p.1). A personagem surgiu em meio à Segunda Guerra Mundial, momento no qual a sociedade americana incentivou a participação feminina no mercado de trabalho. Com grande parte dos homens envolvidos com a guerra, as mulheres assumiram papéis antes restritos aos mesmos. Criada a partir do barro por Hipólita – a rainha das amazonas – a super-heroína ganhou vida e recebeu o nome de Diana, princesa de Themyscira, uma ilha povoada só por mulheres. Na primeira HQ da Mulher-Maravilha, Steve Trevor, um piloto das Forças Aéreas Americanas, colidiu seu avião na ilha de Themyscira. Hipólita decretou que a amazona que ganhasse a Olimpíada levaria Trevor em segurança ao Mundo do Patriarcado. Diana foi a vencedora. Quando se muda para o mundo dos homens, começa a trabalhar como enfermeira da força aérea americana.
Jill Lepore, autora do livro The Secret History of Wonder Woman, afirma que
[…] a mulher-maravilha foi concebida pelo Dr. Marston para estabelecer entre as crianças e os jovens um padrão de feminilidade forte, livre e corajosa: para combater a ideia de que as mulheres são inferiores aos homens, e para inspirar as meninas a terem autoconfiança para conquistas no atletismo, nas ocupações e nas profissões monopolizadas por homens. (LEPORE, 2014 apud PENHA, 2014)
Apesar dos ideais feministas, é possível encontrar a amazona submetida ao imaginário masculino, ou seja, ao mesmo tempo em que simbolizava um arquétipo de feminino, de mulher forte e independente, encontra-se em muitas situações que remetem a imagens sexuais de bondage e de submissão (figuras 1 e 2). Como coloca Schneider (2000, p. 120), “as mulheres tradicionalmente defrontaram-se com representações do feminino construídas a partir do olhar masculino”.
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Fig. 1 – Target Wonder Woman #205
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Fig. 2 – Wonder Woman #68

Ms. Marvel

 A Miss Marvel  é a primeira protagonista mulçumana mainstream dos quadrinhos de super-heróis. Vem ganhando notoriedade dentro e fora das HQ’s numa luta contra a representação negativa do Islã e na representação das personagens femininas sob o “olhar masculino”. Outro ponto positivo também vai além das comics: a participação de mulheres no processo de elaboração com a roteirista mulçumana G. Wilson Wilson e a editora Sana Amanat, filha de imigrantes paquistaneses.
Kamala Khan é uma adolescente de 16 anos, descendente de paquistaneses e vive numa comunidade de imigrantes em Jersey City. Após a explosão da névoa terrígena, ganha poderes metamórficos, tornando-se uma inumana e assume o alter ego “Ms. Marvel”, que antes pertencia a Carol Danvers – atualmente chamada de Capitã Marvel (outra personagem importante na representatividade dentro dos quadrinhos), da qual Kamala é grande fã.
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Fig. 3 – Kamala Khan
Kamala é uma personagem que busca se aproximar do seu leitor. É uma super-heroína, mas é também uma adolescente como outra qualquer. Os heróis e personagens constituem-se como referenciais de identidade para meninos e meninas e, ao mesmo tempo, permitem uma identificação catártica. Ela é a representação de qualquer pessoa pode ser herói. E o herói, conforme escreveu Umberto Eco, “[…] deve encarnar, além de todo limite pensável, as exigências de poder que o cidadão comum nutre e não pode satisfazer. […] Todavia, a imagem do herói não deve escapar totalmente às possibilidades de identificação por parte do leitor” (ECO, 2000, p. 246).
Logo após ganhar os poderes, Kamala se questiona sobre sua aparência, por não ser parecida fisicamente com a Carol Danvers – branca e loira –, nem se enquadrar no “perfil” de uma heroína. Sua aparência física não é construída numa sexualização, mas em busca de uma autoaceitação ao decorrer da história.
Kamala tem algo a dizer ao seu leitor cada vez mais questionador. É nesse contexto que a luta por mais representações nas HQ’s se torna um fator importante, por ser um meio de conscientização social. Como coloca Sana Amanat:
Ao mesmo tempo em que o Islã é parte da identidade da Kamala, esse livro não é sobre pregação religiosa ou a fé islâmica em particular. É sobre o que acontece quando se luta contra identidades impostas sobre você, e como isso forma o seu senso de identidade. É uma luta que todos nós enfrentamos, e que não é particular da Kamala por ela ser muçulmana. A religião é só um aspecto das muitas maneiras como ela se define. (AMANAT, 2013)
Para Stuart Hall (2006, p.7), “as velhas identidades que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado”. Nessa perspectiva, Hall (2000, p. 13) sinaliza sobre as identidades múltiplas e fragmentadas:
“à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente”.
Nessa perspectiva, as HQ’s da Mulher Maravilha e da Ms. Marvel podem, em alguma medida, trazer representações positivas e fortes sobre as mulheres na contemporaneidade.

 


REFERÊNCIAS

AMANAT, Sana; WILSON, G. Willow. All-new Marvel now! Q&A: Ms. Marvel. 6 nov 2013. Entrevistador: Andrew Wheeler. Disponível em: http://marvel.com/news/comics/21466/all-new_marvel_now_qa_ms_marvel Acesso em: 26 mai 2016.

CAIXETA, Sharmaine Pereira. Anos dourados: a mulher­-maravilha e o papel da mulher norte-­americana durante a 2ª Guerra Mundial. Revista Temática, v. 8, n. 4, p. 1-12, 2012.

CIRNE, Moacy. Quadrinhos, sedução e paixão. Petrópolis: Vozes, 2000.

ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Perspectiva, 2000.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

LEAL, Pedro Henrique. Minorias nas HQs: Kamala Khan e o Islã. Disponível em: http://coletivometranca.com.br/minorias-nas-hqs-kamala-khan-e-o-isla/ Acesso em: 26 mai 2016.

LEPORE, Jill. The last amazon. The New Yorker. Set 2014. Disponível em: http://www.newyorker.com/magazine/2014/09/22/last-amazon Acesso em: 26 mai 2016.

PENHA, Marcelo Montes. Mulher Maravilha – A Verdadeira (e Secreta) História da Super Heroína. 2014. Disponível em: https://culti-e-popi.blogspot.com.br/2014/11/mulher-maravilhaa-verdadeira-e-secreta.html Acesso em: 26 mai 2016.

SCHNEIDER, Liane. A representação do feminino como política de resistência. In: PETERSON, Michel; NEIS, Ignácio Antonio (Org.). As armas do texto: a literatura e a resistência da literatura. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 2000.

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