Extraordinariamente estigmatizado!

* Este texto contém spoilers.

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O livro Extraordinário foi escrito por R. J. Palacio no ano de 2013. A escritora atua no mercado editorial norte-americano há mais de 20 anos, com dupla função, sendo designer gráfica e escritora. Este é seu primeiro livro e, para difundir a mensagem proposta pela obra, ela iniciou uma campanha antibullying no site www.choosekind.tumblr.com. O livro foi lançado no Brasil pela editora Intrínseca, contém 320 páginas, foi traduzido por Rachel Agavino e está na lista dos livros mais vendidos da Livraria Cultura.

O livro conta a história de August Pullman, apelidado carinhosamente pelos familiares como Auggie. Ele nasceu com lábio leporino e disostose bucomaxilofacial, que é causada pela mutação de um autossomo recessivo no gene TCOF1. Em nenhum momento da obra as ilustrações presentes são representações fidedignas das descrições narrativas de como é o rosto de Auggie. O ilustrador, Tad Carpenter, utiliza uma estratégia gráfica que concede apenas elementos básicos para compor o imaginário do leitor sobre os personagens; a narrativa concede muito mais informações.

Em diversos momentos da história, o rosto de Auggie é descrito pelas diferentes perspectivas dos personagens. A que melhor concede uma boa descrição é a sua irmã, Via.

Os olhos dele ficam cerca de dois centímetros abaixo de onde deveriam, quase no meio das bochechas. São caídos, formando um ângulo acentuado, quase como se alguém tivesse aberto duas fendas diagonais em seu rosto, e o esquerdo é claramente mais baixo que o direito. E são esbugalhados, porque as cavidades oculares são pequenas demais para comportá-los. As pálpebras superiores ficam sempre meio fechadas, como se ele estivesse adormecendo. As inferiores são tão caídas que até parece que um fio invisível as puxa para baixo: dá para ver a parte interna, vermelha, como se a pele estivesse do avesso. Ele não tem sobrancelhas nem cílios. O nariz é desproporcionalmente grande para o rosto, e meio largo. A cabeça dele é afundada nas laterais, no lugar onde deveriam estar as orelhas, como se alguém a tivesse apertado bem no meio com um alicate gigante. Ele não tem maçãs do rosto. Dois vincos profundos descem dos cantos do nariz até a boca, o que dá a ele a aparência de um boneco de cera. Às vezes as pessoas acham que ele se queimou em um incêndio: seus traços dão a impressão de que ele derreteu, como os pingos em volta de uma vela. Diversas cirurgias para corrigir o palato deixaram algumas cicatrizes em volta da boca e a mais chamativa é um corte irregular que vai do meio do lábio superior até o nariz. Os dentes de cima são pequenos e para fora. Ele é bem dentuço e a mandíbula é extremamente pequena, assim como o queixo. Quando era menor, antes da cirurgia que implantou um pedaço de seu quadril no maxilar, ele não tinha queixo nenhum. A língua ficava pendurada fora da boca, sem nada embaixo para segurá-la. Felizmente, está melhor agora. Pelo menos ele pode comer: quando era mais novo, se alimentava por uma sonda. E ele consegue falar. Aprendeu a manter a língua dentro da boca, embora tenha levado muitos anos para controlar isso. Ele também aprendeu a controlar a baba que escorria pelo pescoço. Essas coisas são consideradas milagres. Quando ele era bebê, os médicos não achavam nem que ele fosse sobreviver. Ele também consegue ouvir. Na maioria das vezes, as crianças que nascem com essas deformidades têm problemas no ouvido médio, o que causa deficiência auditiva. Mas, até agora, August escuta bastante bem com suas orelhas em formato de couve-flor. No entanto, os médicos acham que ele vai acabar precisando de aparelhos auditivos. August odeia pensar nisso. Ele acha que todo mundo vai notar os aparelhos. É claro que eu não disse que esse seria o menor de seus problemas, porque tenho certeza de que ele sabe disso. (PALACIO, 2013, p. 95)

Como é possível observar através da descrição, Auggie tem um rosto que foge do padrão. Por isso, tem autoestima baixa e sofre diversos preconceitos, pois muitas vezes é associado a um monstro ou uma aberração. A história se inicia com ele contando que sabe que não é um garoto comum de 10 anos, e que se, por um acaso, viesse a encontrar uma lâmpada mágica que pudesse fazer desejos, pediria um rosto comum. Ele nunca frequentou o ambiente escolar. Apesar da sua aparência física, esse nunca foi o motivo real por ele não ter ido; na verdade, o motivo foi por causa das suas inúmeras intervenções médicas – 27 cirurgias desde que nasceu.

Para suprir a demanda educacional, sua mãe passou a dar aulas em casa, até que um dia seus pais propuseram que ele conhecesse uma escola regular, a Beecher Prep. Ao visitar a escola, Auggie teve a companhia de três outros alunos, que apresentaram o espaço e, naquele momento, percebeu que não seria fácil estar nesse ambiente; porém, aceitou o desafio dado pelos pais.

Nos primeiros dias de aula, sentia os olhares assustados sobre ele, poucos alunos se aproximavam, sentavam ou tocavam nele. Até mesmo uma brincadeira surgiu na escola – quem tivesse contato com Auggie tinha que se lavar rapidamente, se não ficava “contaminado”. No decorrer da narrativa, Auggie faz algumas poucas amizades, como Summer e Jack Will, mas tudo foi muito difícil, até mesmo de acreditar que teria amizades verdadeiras.

A situação muda apenas no final da narrativa, quando Auggie, ao participar de um acampamento com o pessoal da escola, é agredido por adolescente de outra instituição. Então, os colegas da Beecher Prep o protegem e concedem apoio. E, assim, ele acaba sendo inserido no universo estudantil, ganhando vários amigos e se tornando até popular – não apenas por causa da sua aparência, mas também por ser um menino inteligente, divertido e amigável. No final do ano letivo, em sua formatura, ele ganha uma medalha por ter conquistado os corações de toda a escola.

O livro Extraordinário é o tipo de obra literária que, a cada leitura, apresenta novos elementos de reflexões. Em um primeiro olhar, pensei em elementos como o paternalismo exacerbado e como as crianças também podem ser más. Contudo, a partir da leitura do livro Estigma: notas sobre manipulação da identidade deteriorada, de Erving Goffman, comecei a ver a obra por outro ângulo, do qual compartilho algumas dessas reflexões aqui com vocês.

Desde o início da narrativa, é perceptível que a relação que os pais de Auggie têm com os filhos é de proteção não só com o caçula, mas também com a filha mais velha. A partir da proposta de que Auggie passe a frequentar uma escola regular, a proteção dada ao menino até os seus 10 anos começa a se tornar algo inalcançável, devido a ele estar em um ambiente que não permite a presença integral dos pais.

O momento crítico na vida de um indivíduo protegido, aquele em que o círculo doméstico não pode mais protege-lo, varia segundo a classe social, lugar de residência e tipo de estigma mas, em cada caso, a sua aparição dará uma origem a uma experiência moral. Assim, frequentemente se assinala o ingresso na escola pública como a ocasião para a aprendizagem do estigma, experiência que às vezes se produz de maneira bastante precipitada no primeiro dia de aula, com insultos, caçoadas, ostracismos e brigas. (GOFFMAN, 2012, p. 42)

Apesar do ambiente escolar ser um demarcador na vida do personagem Auggie, a sua aprendizagem para com seu estigma foi muito antes. Mas a escola, de fato, foi um momento em que o personagem sofreu, pois teve que enfrentar dificuldades sozinho pela primeira vez, sem apoio dos familiares e dos poucos amigos. Termos como “ogro”, “monstro”, “estranho”, “mutante”, “aberração” eram utilizados para se referir ao menino.

Durante a narrativa, Auggie também relata que usou um capacete de astronauta por vários anos para esconder seu rosto, pois acreditava que o capacete de astronauta era muito menos estranho para os outros do que sua própria face. Essa estratégia é nominada por Goffman (2012, p. 102), como “técnica de controle de informação”, que permite manipular as informações que o meio social pode saber sobre o sujeito em questão.

Outra inferência interessante é quando Auggie conta sobre um evento da feira de ciências, onde os estudantes de toda escola já estavam acostumados com sua presença devido já estar no fim ano letivo, porém, os pais que tinham ido prestigiá-los, não, e todos os olhares pousavam sobre Auggie – ele sentia-se como se estivesse em uma vitrine. Goffman (2012, p. 103) nos diz que um indivíduo que tem uma deformação no rosto pode esperar que, pouco a pouco, deixe de ser uma surpresa chocante para os seus vizinhos e que possa obter entre eles alguma aceitação. Ou seja, no ambiente escolar, Auggie já não era algo novo, todos já tinham perdido o olhar curioso sobre ele, pois os alunos já tinham se acostumado com sua presença; mas, para os pais que não tinham nenhum convívio com ele, o garoto ainda era algo surpreendente.

Algo que Goffman (2012, p. 119) pontua e que pode ser articulado com livro é que os indivíduos estigmatizados se declaram como não diferentes de qualquer outro ser humano, contudo, as pessoas ao seu redor e ele mesmo se definem como alguém que é marginalizado. Durante a narrativa de Extraordinário, é perceptível a necessidade que Auggie tem de se legitimar como alguém que pode ser um sujeito diferente para os outros, mas que se sente como qualquer pessoa, um garoto comum.

Por fim, declaro que, a partir de meus percursos literários, o livro tem uma boa qualidade, pois abordou as questões em volta do estigma de modo bastante verossímil, principalmente quando se refere às relações no espaço escolar. Acredito que a narrativa da escritora foi bastante diferenciada, pois não se intimidou a utilizar termos que não são aceitos pelos “discursos politicamente corretos”. É valido ainda ressaltar que o livro fez tanto sucesso que será adaptado para uma versão fílmica.


REFERÊNCIAS

PALACIO, R. J. Extraordinário. Rio de Janeiro: Intrínseca. 2013.

GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 4ª ed. 2012.

 

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