Vida de brinquedo… Será?

Quando, há mais ou menos três anos, eu estava escrevendo minha dissertação de mestrado, me deparei com a obra Pretinho, meu boneco querido (2008), de Maria Cristina Furtado. O texto nos coloca em uma narrativa na qual questões culturais penetram o universo infantil, na presença de uma bonequinha de pano chamada Zuzu, ofertada à menina Nininha por seu professor. A história, narrada em primeira pessoa, é contada por uma amiga da família de Nininha que costuma visitá-la com frequência. Em uma conversa com a criança, a narradora fica sabendo de seu segredo: os brinquedos ganham vida quando não há ninguém por perto. Assim, toda vez que estão sozinhos, os bonecos agem como pessoas reais. É neste ponto que surge o conflito. Nininha possui brinquedos de todas as cores e um em especial, o boneco apelidado de Pretinho. No quarto da menina, todas as vezes que Pretinho aparece, a única interessada em sua amizade é a boneca de pano, enquanto os outros brinquedos excluem Pretinho por causa de sua cor. O boneco, desanimado, se esconde no guarda-roupa, até o dia em que sua dona descobre o que está acontecendo e reclama com os brinquedos em defesa do amigo que tanto lhe representa, pois é afrodescendente, motivo de sua afeição por Pretinho. A atitude da menina incita o ciúme dos outros bonecos, que, em uma armadilha, fazem Pretinho cair no quintal onde vive o cachorro da família. Todos, inclusive Nininha, choram o fim do boneco, mas este se salva, pendurando-se na janela. Os brinquedos se arrependem da maldade que fizeram e pedem perdão, ocasião em que o quarto fica em festa. Nininha, então, apresenta Zuzu, mais uma boneca negra, que conhece a história da África e dos povos que lá habitam, passando a narrá-la aos novos companheiros. No fim da trama, Pretinho solicita a Nininha que passe a chamá-lo de Carlos, seu verdadeiro nome, e não mais daquele apelido escolhido por causa de sua cor.
Neste texto, o conhecimento dos elementos culturais é utilizado para valorizar seus atores, produtores de saberes e de costumes singulares, indicando um caminho para reflexão acerca da discriminação racial. Contudo, há que se considerar o caráter disciplinar da história, descrito na repreensão de Nininha aos brinquedos, como no trecho seguinte: Nininha, mostrando-se muito zangada, apesar de estar aliviada pela presença de Pretinho, pergunta para os bonecos:
– Vocês têm noção do que fizeram com Pretinho e o que poderia ter acontecido?
– Sim, temos – dizem os três, de cabeça baixa.
– Vocês percebem que Pretinho quase morreu?
– Sim.
– Vocês entendem a gravidade do que fizeram?
E mais uma vez os três responderam:
– Sim.
– E o que vocês merecem pelo que fizeram com Pretinho?
– Nós merecemos um grande castigo.
Pretinho interrompe e diz:
– Deixem disso, bonecos. Eu perdoo vocês!
Os três abraçam o boneco.
– Puxa, Pretinho, muito obrigado!
– Eu fiquei com muita raiva! Estava com vontade de bater muito em cada um de vocês, por todas as vezes que me humilharam, mas… acho melhor sermos amigos!
Nininha continua a falar muito séria, com a testa franzida, mostrando ainda estar aborrecida.
– Muito bem! Meu pai diz que devemos arcar com as consequências das coisas que fazemos, mas se o Pretinho perdoou… – e finalmente dá um ligeiro sorriso – eu também… – a menina não chega a terminar a frase, pois todos pulam em cima dela (FURTADO, 2008, p. 30-31).
É importante notar que cada personagem tem papel significativo na trama. Nininha, apesar de criança, representa o adulto, pois é ela quem organiza e cuida dos brinquedos e os repreende por suas atitudes erradas. Os bonecos estão, portanto, na posição de crianças que precisam ser educadas e, em alguns casos, disciplinadas por suas ações. Pretinho mostra o comportamento ideal, cujo padrão indica sua disposição em ser amigo de todos e estar pronto para perdoar, evitando brigas ou qualquer atitude ofensiva. Os outros bonecos precisam da repreensão de sua dona e do susto que tomaram quando pensaram que Pretinho estivesse morto, pois assim terão seu caráter moldado, conforme as regras naquele quarto. Nininha é uma filha obediente que traz à lembrança os ensinamentos do pai, inserindo-os no ambiente infantil. Ainda, merece destaque a amizade de Pretinho com a boneca de pano que é branca. Ela é a única que está sempre com Pretinho e o defende, porém, a chegada de Zuzu sugere que o interesse do boneco recai completamente no novo brinquedo. Os bonecos passam a interagir com Pretinho, aceitando-o em suas brincadeiras, mas é somente por uma semelhante que seus olhos brilham. A aceitação, então, suprime a ideia de mistura, mostrando que estar junto é possível desde que cada um não ultrapasse os limites de seu próprio grupo. E, por fim, não sei se qualquer semelhança com a animação estadunidense Toy Story (1995) é mera coincidência.

REFERÊNCIA

FURTADO, Maria Cristina. Pretinho, meu boneco querido. 2ª ed. São Paulo: Editora do Brasil, 2008.

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