COMO O MACHISMO E O PATRIARCADO AFETAM AS CRIANÇAS?

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As crianças são vítimas de opressão nos mais variados contextos, inclusive no que diz respeito às questões de gênero. Especialmente as meninas, que, desde cedo, sofrem imposições relacionadas a como se vestir, comportar e brincar. Os estereótipos são bons exemplos dessa opressão, se pensarmos neles como uma generalização sobre o comportamento ou as características de um indivíduo. Oriundos da tradição oral, baseados em representações de uma determinada situação, podemos identificar nos contos de fadas um grande potencial opressor. Tais contos representam a figura feminina, na maioria das vezes, dentro de um dado padrão de beleza. Além disso, os contos de fadas tradicionais – nas versões de Perrault e dos irmãos Grimm , por exemplo – apresentam as mulheres como seres frágeis e que quase sempre necessitam da providencial intervenção da figura masculina para se verem livres dos perigos em que se colocam e dos vilões que as atormentam. Dessa forma, muitas vezes esses contos terminam por contribuir para a propagação dessas imposições ao ser feminino.
Uma das formas de opressão sofrida pelas crianças é o machismo, que, como explana Araujo (2016), é uma estrutura organizacional com linha de pensamento baseada na crença da superioridade masculina em relação à feminina, na qual o ser feminino não goza (ou não deve gozar) dos mesmos direitos que os homens. Com isso, os valores machistas se enraizaram em nossa sociedade de tal forma que repetidamente encaramos seus mecanismos de opressão como algo natural.
A divisão entre “coisas de meninas” e “coisas de meninos” é um desses mecanismos. Até mesmo antes dos filhos virem ao mundo, muitos pais (conscientes ou não) iniciam o processo de direcionamento e divisão sexista pelo qual tentam conduzir a vida das crianças. O que pode parecer um simples gesto inocente, como a escolha da cor da parede do quarto, ou das roupas (normalmente rosa para as meninas e azul para os meninos), indica como o machismo permeia até as situações mais corriqueiras, edificando o muro imaginário que delimita o que se pode e/ou deve fazer com base no gênero. Esse divisor binário está diretamente atrelado à sociedade patriarcal, que, como afirma Costa, é uma:
Organização sexual hierárquica da sociedade tão necessária ao domínio político. Alimenta-se do domínio masculino na estrutura familiar (esfera privada) e na lógica organizacional das instituições políticas (esfera pública) construída a partir de um modelo masculino de dominação (arquétipo viril) (COSTA, 2008).
Portanto, essa separação não resulta apenas no direcionamento de qual cor as meninas e os meninos deverão usar, muito menos limita-se a indicar que brincadeira ou com que brinquedo cada criança deverá brincar, tomando como base seu sexo. Esse “apartheid” reflete muito além do trivial; é por meio dele que se incute nas crianças a ideia de papéis sociais pré-determinados a cada gênero. Como no caso das meninas, que, na maioria das vezes, ganham brinquedos relacionados a atividades domésticas e/ou a produtos e acessórios de beleza. Os comerciais de TV ilustram muito bem essa situação, na qual – em se tratando de produtos para meninas – quase sempre apelam para o consumo, o embelezamento, a maternidade e a domesticidade.
Dessa forma, edifica-se no imaginário coletivo uma imagem do ser feminino com um papel social que, ao longo dos anos, foi (e ainda é) visto por muitos como o único a ser considerado. Entretanto, a divisão machista/patriarcal não afeta negativamente apenas as meninas. Mesmo com todo histórico de dominação masculina, as imposições sociais também podem prejudicar os meninos. Imagine um menino pedindo aos pais para fazer aulas de ballet, usar roupas rosas ou brincar de boneca. Se essa criança for filha de pessoas com postura conservadora, provavelmente sofrerá duras repressões.
Portanto, os valores machistas/patriarcais estão imbrincados em nossa cultura, afetando todos os gêneros desde a infância – período de formação político-ideológica –, muitas vezes persistindo até a fase adulta. Por isso, faz-se necessário pensarmos em mecanismos de empoderamento infantil, a fim de possibilitar às crianças a chance de se desenvolver da maneira mais autônoma possível, e com isso tentar desfazer o círculo vicioso que mantém até os dias de hoje a reprodução dos modelos sociais impostos. Nessa perspectiva, existem filmes, livros e até páginas no Facebook que buscam promover esse empoderamento. Como no caso do livro As tranças de Bintou (2007), de Sylviane Anna Diouf, que busca estimular as meninas (com cabelos afro) a valorizarem seu tipo de beleza. Em uma sociedade como a nossa, em que ainda impera o padrão de beleza branco, um livro como esse é de grande valia para fortalecer a luta contra a opressão. Outro mecanismo interessante é a página do Facebook “Empoderamento Infantil”*, de caráter feminista, que tem como objetivo discutir possibilidades e estratégias de empoderamento de meninas ainda na infância.
*Esta é uma página feminista que tem por objetivo discutir possibilidades e estratégias de empoderamento de meninas ainda na infância − feminismo infantil.

REFERENCIAS

ARAUJO, R. M. Mafalda e sua mãe: representatividade e conflito entre duas gerações femininas. 2016. 50 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado Interdisciplinar em Artes) – Instituto de Humanidades Artes e Ciências, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2016.

COSTA, Ana Alice. Gênero, poder e empoderamento das mulheres. 2008. Disponível em: <http://www.adolescencia.org.br/empower/website/2008/imagens/textos_pdf/Empod-eramen-to.pdf&gt;. Acesso em: 05 fev. 2016.

<https://www.facebook.com/empoderaasmina/> Acesso em: 05 jun. 2016.

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