UM ELEFANTE quase INCOMODA MUITA GENTE

O que acontece quando você é uma criança viajando pela África e, num passeio ao zoológico, você assina um formulário “Adote um elefante”, esquecendo-se completamente de ler as letras miúdas que ficam mais abaixo?
Um elefante quase incomoda muita gente (no original, The Slightly Annoying ElephantUm elefante ligeiramente irritante em tradução livre), escrito pelo comediante e escritor britânico David Walliams e ilustrado pelo escritor e ilustrador londrino Tony Ross, foi publicado no Brasil em 2014 pela editora Intrínseca, e trata-se do primeiro trabalho no gênero Livro Ilustrado do renomado Walliams, cujos livros, traduzidos para mais de 30 idiomas, são descritos pela crítica como sendo provocadores e hilariantes, e que vem recebendo diversos prêmios, como o Children’s Book of the Year, que premia os livros mais notáveis do ano. Dentre as obras publicadas no Brasil constam O Menino de Vestido, Sr. Fedor, Vovó Vigarista, Titia Terrível, entre outros com títulos igualmente instigantes.
Por meio de ilustrações bem humoradas que transbordam em cores vivas, os autores nos projetam para o interior da casa de um garotinho chamado Sam, no dia exato em que ele recebe a inesperada visita de um elefante que sabe seu nome e que já vai avisando que chegou para ficar. Sozinho em casa, surpreso e um pouco apreensivo, Sam lembra-se de haver preenchido um formulário num passeio ao zoológico, e que esquecera de ler as letrinhas, vendo-se agora responsável por um “grande, gigantesco, enorme, ginórmico” animal de estimação não tão estimado assim.
Em capa dura, o livro usa e abusa da técnica de ilustração em folha dupla – quando uma imagem ou texto ultrapassa o limite de uma única página para invadir a página ao lado –, o que contribui para enfatizar as dimensões do elefante recém instalado na casa de Sam. Os diálogos entre Sam e o elefante são um convite à leitura em voz alta e, portanto, à interação adulto-criança, com ambos alternando as falas, pois sempre que fala o elefante, as letras surgem enormes, sugerindo a gravidade das  que reverberam na garganta do ginórmico mamífero azul.
De modo análogo aos romances infanto-juvenis publicados pelo autor, a comicidade está sempre presente, o que não é difícil de se conseguir quando colocamos um elefante mandão e exigente dentro de uma casa com um garoto pequeno. O humor reside especialmente nas tentativas caóticas do elefante de fazer uso dos locais objetos domésticos, não exatamente projetados para comportarem elefantes.
A adoção de animais de estimação costuma ser uma demanda das crianças em geral, sendo também uma constante nas histórias infantis. Assim, em um nível mais superficial, a história de Sam pode soar como uma tentativa de conscientizar o pequeno leitor acerca das responsabilidades que advém à adoção de animais. Uma olhadela mais atenta, no entanto, possibilita uma série de outras abordagens e alguns questionamentos pertinentes. O elefante, que mais parece gente, é autoritário e rabugento, sempre dando ordens ao seu dono, numa espécie de inversão de papeis na relação dono-animal. A ausência dos pais é também significativa, afinal, haveria toda a história se os pais de Sam estivessem em casa? Teriam eles recepcionado o animal? Aqui está uma das mais importantes reflexões que essa história nos convida a fazer: quantos elefantes temos tentado ocultar de nossas crianças? Quais as consequências dessa ocultação? Penso que se podemos aprender algo valioso aqui, é que uma hora ou outra um elefante baterá à porta da nossa casa, e é melhor que nossos pequenos estejam preparados para recebê-los tal como eles são: ginórmicos e, às vezes, caóticos.
Vejamos o que pensam algumas crianças acerca d’Um elefante um pouco irritante. Antes, porém, uma observação: ao ler o livro para as crianças, optei por intitulá-lo “Um elefante um pouco irritante”, não apenas por julgar ser um título mais próximo à proposta do autor, mas por levar em consideração o provável jogo que o autor pretendia ao propor esse título como parte da experiência de leitura de seus pequenos leitores, visto que uma das primeiras reações das crianças após ler o livro é discordar de tal caracterização, enxergando o elefante como uma personagem muito chata e muitíssimo irritante. Elas declaradamente consideram um título inapropriado e logo começam a defender o próprio posicionamento. Após a leitura do livro, dirigi perguntas às crianças em um tom bastante descompromissado e de vivo interesse. Aqui vão algumas das respostas que obtive).
Beatriz, 6 anos – Da história eu até gostei, só não gostei do elefante. O menino (Sam) é legal, mas eu não acho que ele tinha que deixar o elefante entrar em casa. Se eu fosse ele eu ia ler tudo antes de assinar o papel. Até porque minha mãe não ia deixar eu ter um elefante desse tamanho em casa e ele nem ia passar na porta, eu acho. Eu gosto quando o elefante faz malhação (gargalhadas).
Mateus, 9 anos – Eu não gostei desse livro porque o elefante é muito chato e mal-educado.
Ana, 7 anos – Eu não ia deixar ele [o elefante] montar na minha bicicleta, e nem segurar o controle da televisão. Eu gostei [do livro], mas eu acho o elefante muito irritante. E quando a mãe dele [de Sam] chegar e entrar no banheiro e ver tudo molhado eu acho que ele vai apanhar. Mas quem foi que deixou ele [o elefante] entrar no avião?
Júlia, 8 anos – Eu gostei e não gostei ao mesmo tempo, porque um elefante grande (leia-se adulto)  tem que viver na selva e a gente não pode adotar um já grande. Ele pode pisar na gente e amassar a gente. Eu gosto quando o elefante toma banho e molha tudo! A água sobe e ele toma banho com o nariz!
Hebert, 7 anos – Eu gostei da história. Mas se fosse eu, eu ia dar amendoim pra ele [o elefante] e se ele me desobedecesse eu não ia dar mais. Porque eu não ia poder cozinhar pra ele, eu só tenho sete anos. E não gosto quando o elefante quebra a bicicleta toda. Se fosse eu, eu ia montar em cima dele e ele ia ser minha bicicleta.
Júlio, 9 anos – Eu não ia assinar aquele papel, então eu nem teria esse problema [de receber a visita de um elefante]. Mas eu queria ter um elefante que não fosse muito irritante, pra ficar no meu quintal e ele ia gostar de mim. Toda vez que chovesse eu dava banho nele. Esse [o elefante do livro] gosta muito de mandar nas pessoas o tempo todo e destrói tudo. Mas ele é engraçado fazendo ginástica, porque ele quer perder uns quilos.
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