Drummond n’A cidade sem meninos

001

 

As professoras que fazem o censo escolar no Rio apuraram um vazio de que já desconfiávamos: não há mais crianças no centro da cidade. Bateram a muitas portas, indagaram de moradores:
– Onde estão os seus meninos?
Não tinham meninos. Algum raro espécime que se vê na rua vem do Norte ou do Sul da cidade, para fazer companhia à mãe, sofrer no dentista, comprar sapato em liquidação. Há ruas onde faz muitos anos não passa um garoto. E janelas onde eles nunca se debruçaram para espiar as árvores ou a lua, porque também essas antiguidades desapareceram do centro. (ANDRADE, 1966)
Carlos Drummond de Andrade foi figura importante na demarcação do cenário moderno no Brasil entre os anos 1920-1930. Na crônica “A cidade sem meninos”, de 1966, o autor nos fala da ausência de pessoas reais (as crianças) na cidade e, sobretudo, daquilo que faz uma cidade viva: as relações e conflitos inerentes à presença no espaço público. Vindo de alguém tão próximo aos arquitetos modernos, o texto aponta para uma necessidade de revisão da abordagem do urbanismo naquele contexto: a do racionalismo e da cidade zoneada. Em seu lugar, ficava o questionamento para uma arquitetura e um urbanismo de desdobramentos das relações espaciais, observadas nas crianças e nos seus gestos pela cidade.
Mas as ligações entre Carlos Drummond e a arquitetura e urbanismo modernos no Brasil não se restringem apenas às narrativas cotidianas do poeta. Foi no Rio de Janeiro, no ano de 1935, em circunstância deliberada pelo escritor, então chefe de gabinete do Ministério de Educação, Cultura e Saúde, que o ministro Gustavo Capanema convidou Lucio Costa para criar o projeto da nova sede do Ministério, apostando numa nova estética arquitetônica. O prédio se tornou marco importante e foi assim que nasceu grande parte da influência da arquitetura e do urbanismo moderno − e monumental − no Brasil ou, segundo o próprio Drummond, uma “casa que se tornou famosa no mundo inteiro como expressão de uma estética renovadora”.

002 Drummond

[Drummond entre os pilotis do Palácio Capanema, 1973]

É neste período que a arquitetura moderna brasileira se firma, chegando à sua consagração e apogeu num cenário internacional, com a construção de Brasília. Lucio Costa venceu o concurso da nova capital do país em 1956, com o seu desenho para o plano piloto e um relatório de 24 folhas de textos e desenhos, revisado pelo próprio Drummond, parceiro do arquiteto no antigo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) − atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) −, corrigindo, sem introduzir mudanças de estilo, conforme demonstram as anotações do manuscrito. O poeta, um dos primeiros a ver os traços da nova capital, comentou “era rabisco e pulsava”.

003 Relatorio Plano Piloto

[Lúcio Costa (1963): Plano Piloto de Brasília]

Mesmo estando inserido neste momento de construção de uma identidade moderna nacional, numa relação direta com os arquitetos modernos −como Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Jorge Moreira Machado e o próprio Le Corbusier[1]−, as palavras do escritor em “A cidade sem meninos” parecem apontar para uma cidade com ares de moderno já em crise, revelando-se como uma crítica aos princípios do urbanismo em voga naquele momento. Haviam-se passado apenas seis anos após a inauguração de Brasília e já se apura um vazio nessas cidades, “um vazio de que já desconfiávamos: não há mais crianças no centro da cidade.” A crítica se dá, necessariamente, sobre o centro urbano, local que, a partir da setorização de usos, passou a abrigar, prioritariamente, espaços de trabalho na cidade: “escritórios, repartições, lojas, depósitos de atacado, [onde] não residem obviamente crianças nem adultos.”
Nessa parte da cidade a vida acaba às 19 horas. Homens e mulheres fogem literalmente para bairros distantes, como se houvesse estourado a revolução ou a peste nos locais de trabalho. Não estourou nada; é a noite. É a noite sem conversa de casal, sem risada retardatária, sem choro de menino com dor de barriga, barulhinhos domésticos de copo d’água, móvel arrastado, pigarro, descarga no banheiro. Noite de casas mortas, elas que se agitam tanto de dia. Nos bairros que bem ou mal vivem pessoas, o sono das casas tem respiração suave, ritmo confortador, a vida repousa lá dentro. No centro é lúgubre. (ANDRADE, 1966)
As crianças, assim como os ornamentos que desaparecem da arquitetura moderna, são como “desfunções” que sumiram da cidade e, junto delas, também atos corriqueiros, como se debruçar na janela para espiar a rua, ou mesmo brincar naquele espaço. Já não havia lugar para os meninos na rua, eles se tornaram um bem excessivo e incômodo, por estarem sempre desvirtuando as imposições da cidade funcional.
“Aqui outrora brincaram meninos…” A cidade multiplica-se, a casa cede lugar ao edifício, o edifício vira constelação de escritórios, o menino fica sendo excedente incômodo… Onde está o menino, para onde foi o menino? É assim que morrem as cidades. (ANDRADE, 1966)
Quando grande parte do questionamento que se faz hoje é o da não experimentação das cidades pelas pessoas por conta da violência urbana, da imagem da cidade que se tornou inacessível às bicicletas e às crianças, Francesco Tonucci, psicopedagogo italiano, vai em defesa destas, ao afirmar que a cidade é perigosa porque não existem crianças nas ruas.
Estamos vivendo uma fábula às avessas: se até há pouco tempo havia um papel desempenhado no imaginário infantil pelo bosque – por excelência o lugar obscuro, indecifrável e impenetrável, em que se escondiam coisas e seres terríveis -, esse papel passa a ser desempenhado pela própria cidade, que costumava ser território aberto, dominável e mapeável. (TONUCCI, 2012. In: REGALDO, 2015)
Definitivamente, a cidade não é feita para a criança, que tem pouco mais de um metro de altura. Por mais que tenha havido uma preocupação funcional em fazer uma cidade sob medida para o homem moderno, em nenhuma das imagens do Modulor[2] “corbusiano”, ele chega a ser representado nas dimensões de uma criança. A rua moderna, afinal, não é lugar de criança, a cidade é uma construção adulta e para adultos. Há algumas décadas, contudo, elas andavam à pé por aí, brincavam nas calçadas, corriam para pegar a bola do outro lado da rua.
O que pode ser afirmado por simples observação é que as crianças andam cada vez menos, e muitas vezes isso acontece por falta de escolha. Entre aulas de natação e ballet, a rua, a praça ou o campinho transformam-se em espaços absolutamente abstratos entre um edifício e outro. As crianças da classe média brasileira dificilmente têm a chance de voltar sozinhas para a casa, de se perder num território que não o seu. Há um elemento de liberdade nessa possibilidade de se perder, diretamente ligado à possibilidade de se orientar e, mais do que isso, de se encontrar. O que se perde aqui é a própria construção de territorialidade no adulto que ela irá se constituir.
O isolamento espacial e segregador criado pelos urbanistas modernos contribui para promover essa desconexão que tenta romper com a experiência das ruas. Uma cidade feita para crianças não tem repercussões unicamente urbanísticas, mas também educativas. Se as crianças não vivem as próprias experiências na cidade, não podem viver a experiência da aventura, do descobrimento e da criação. Uma infância ativa será protagonista na participação da cidade, seja em questões políticas ou simples ato criativo. A rua é um lugar de vivências, um lugar onde se escreve; não é apenas parte do caminho percorrido de casa até a escola. É preciso analisá-la como formadora de práticas, experiências, relações e materialidades que vão articulando uma forma de entender a cultura e de se entender como parte dela.
A tensão entre o projetado e o vivido, que nos é apresentada por Carlos Drummond de Andrade, de maneira sincrônica à própria construção do movimento moderno em arquitetura e urbanismo, revela que a cidade e o próprio campo disciplinar do urbanismo estão em constante disputas e conflitos, inclusive para se questionar os modelos hegemônicos e homogeinizadores propostos. É a partir da vivência e experimentação da cidade, inclusive numa aproximação com outras disciplinas fora do campo do urbanismo, que o profissional urbano pode construir para si um pensamento, a partir deste embate com a cidade real. E só então pôr em crise certezas alcançadas, permitindo que se abra a mente às possibilidades antes desconhecidas e inexploradas e perceber que o espaço é uma fantástica invenção com a qual se pode brincar, como as crianças.

 


[1] Le Corbusier foi um arquiteto franco-suíço que direcionou parte do pensamento urbanístico, ao longo de décadas, a um modelo de cidade e a um modo de fazer cidade. Incomodado com a falta de campo e interesse dos europeus, principalmente os franceses, sobre seus trabalhos, articulou-se, através de cartas, com intelectuais, artistas e políticos sul-americanos (no Brasil, principalmente com Cendrars e Paulo Prado) para levar suas ideias e projetos para Buenos Aires, São Paulo e Rio de Janeiro, a partir de 1929. A sua “cidade funcional”, exaustivamente defendida em seus escritos e discutida durante Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, trata-se de um modelo abstrato e simplificador, baseado na separação de funções. Modelo este que foi amplamente difundido no Brasil, principalmente a partir do concurso para o Plano Piloto de Brasília (1956).

[2] O “Modulor” foi um sistema de proporções elaborado e largamente utilizado pelo arquiteto Le Corbusier. As medidas modulares foram referenciadas nas proporções de um indivíduo imaginário (inicialmente com 1,75 m e, mais tarde, com 1,83 m de altura), criadas a partir de pesquisas de alturas médias e indivíduos de diferentes lugares da Terra. Somente a partir da década de 1960 é que surgem questionamentos sobre os direitos sociais e estudos sobre as diferentes populações, e é nesse contexto que o arquiteto inglês Selwyn Goldsmith se torna um dos primeiros autores a introduzir nas medidas antropométricas as variantes de sexo, idade e capacidades das pessoas.


REFERÊNCIAS

ANDRADE, Carlos Drummond de (1966); Cadeira de balanço. 13 ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1981.

COSTA, Lúcio. Relatório do plano-pilôto de Brasília. Leituras de planejamento e urbanismo. Rio de Janeiro, IBAM, 1965.

CRONOLOGIA do Pensamento Urbanístico. PPG-AU FAU/UFBA. Disponível em: <http://www.cronologiadourbanismo.ufba.br/ >.

REGALDO, Fernanda. Devagar: crianças. Piseagrama, Belo Horizonte, n. 07, p.8-13, jan. 2015. Semestral.

 

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