“Minha lagarta está crescendo!” Aspectos da infância/juventude em “Jeito de matar lagartas”, de Antônio Carlos Viana

O livro de contos Jeito de matar lagartas (2015), do autor Antônio Carlos Viana, apresenta, em síntese, narrativas acerca do cotidiano, mas cujas temáticas discorrem predominantemente sobre sexo, morte, solidão, corpo e melancolia, que, assim, tocam em diferentes questões que dizem respeito ao pessoal e ao coletivo na mesma medida. Conforme o autor declara em entrevista ao periódico Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná, o livro fora escrito em um período de debilitação da sua saúde, o que gerou vagas reflexões sobre relações interpessoais e sobre conflitos em torno do desgaste físico e afins e, desse modo, influiu diretamente na construção das histórias.
O conto que dá título ao livro integra esse território de introspecção e demais fatores que circunda(ra)m a vida do autor − o que remete, também, ao viés de autobiografia, autoficção e memória tão acentuados na literatura brasileira contemporânea. Por exemplo, como é dito no início do conto, o espaço da narrativa é um sítio, mesma localidade em que Viana revela ter nascido e passado a maior parte de sua infãncia – “num lugar cheio de mato” −, onde havia muitas lagartas. A imagem que emerge sobre esse local durante a leitura é facultada pela foto de capa do livro, que é o próprio sítio que foi morada do autor.
Desse modo, destaca-se aqui o lugar dado à infância em uma narrativa cujo o gênero, e também o leitor-alvo, não é o infantojuvenil, visto que, como chama atenção Mata (2015), “[…] para a produção que não está segmentada no universo de leitores infantis, a infância se transforma em tema periférico”.
Em “Jeito de matar lagartas” (conto), o foco principal recai sobre a associação feita entre as formas prazerosas de matar lagartas com a descoberta da sexualidade na pré-adolescência. No fragmento inicial do conto, “As lagartas nunca foram tantas como naquele ano. Elas chegavam anunciando o verão.” (VIANA, 2015, p. 25), denota-se que “lagartas” fazem uma alusão ao alto estado de excitação sexual que atingiu os três personagens pré-adolescentes “naquele ano”, isto é, no ano em que encontram-se na fase da puberdade; e, ao afirmar que as lagartas “anunciam o verão”, faz-se uma analogia entre essa fase da puberdade com a fase (estação) do verão, devido à exalação do calor, do fervor que ambas as fases propiciam.
Sob o ponto de vista do narrador-personagem, então, revela-se o espaço da narrativa e acompanha-se a breve jornada de prazeres e descobertas dos pré-adolescentes. O espaço da narrativa é um sítio que, conforme o narrador, é repleto de matos, cajueiros lagartas e outros bichos. Portanto, por sua relação com uma natureza viva e imprevisível, sua abundância em flora e fauna, cuja impressão produzida é de possibilidades infinitas, descortina-se como um ambiente propício para o caráter exploratório e de descobertas tão caro à juventude: “[…] logo ali, naquele sítio, com tanto bicho para ensinar lição de tudo, de tudo que era jeito” (VIANA, 2015, p. 25-26).
Vale ressaltar que a escolha por lagartas, em vez de outro animal, não é trivial, visto que elas são comumente conhecidas como seres metamórficos, isto é, inclinadas à transformação, principal característica do período de transição da infância para a adolescência. E assim, no decorrer da narrativa, prosseguem-se com as tensões e descobertas relativas a esse período:
Naquele andar lento, elas [as lagartas] iam invadindo tudo. Meu medo era que chegassem até os quartos e nos queimassem com seus pelos de um castanho fogoso que dava arrepios em qualquer um. […] O jeito foi cada um de nós aprender seu jeito de matar lagarta (VIANA, 2015, p. 27).
Essas três personagens, ao fim e ao cabo, dão movimento à significação do conto, que está relacionada, sobretudo, ao seu tema principal, conforme pode ser observado nos fragmentos abaixo – que contêm os aspectos já comentados aqui, como as descobertas e prazeres da pré-adolescência, a euforia entre a maneira de matar lagartas e a excitação sexual, o desenvolvimento individual de cada qual etc.:
Laércio […] dizia umas coisas coisas que deixava Lídia meio sem graça, mas a gente tinha certeza de que ela não ia contar nada a ninguém. […] No desespero de matar as lagartas, Laércio de vez em quando gritava: ‘Minha lagarta está crescendo!’. Eu caía na risada e Lídia perguntava: ‘Que lagarta?’. Ele falava que não podia mostrar porque ela queimava mais do que lagarta de fogo. Aí caíamos na risada e Lídia fingindo que não estava entendendo nada, mas nós dois sabíamos que toda menina entende […] Ela mesma nos perguntou um dia por que cachorro demorava tanto. ‘Tanto como?’, perguntamos […] Aí ela desconversou, fez de conta que não tinha perguntado nada (VIANA, 2015, p. 25-26).
Num outro momento, observa-se também a questão das relações entre adultos e crianças. Tia Marluce, que, ao começo, é descrita como alguém com “alma de santa, [que] não gostava de matar nada”, se preocupava com Lídia andando com dois meninos e, no fundo, sabia o que os três andavam fazendo, mas que, ao mesmo tempo, nada fazia para impedir. Dessa forma, remete-se a três questões: i) ela não impedia porque, ao certo, sabia que, mais do que uma descoberta, a exasperação sexual é uma condição do ser; ii) porque faz alusão à dificuldade que se tem de falar sobre esse assunto com “crianças”; iii) ou porque, como deixa claro o final do conto, de uma certa forma, ela própria usufruía dessa ausência dos três pré-adolescentes. Da mesma maneira, essa ausência revela-se como um elemento provocador no espírito juvenil e na sua independência diante de parte dos aprendizados da vida: “Laércio estourava as lagartas escondido de tia Marluce, e eu via como ele as estourava com gosto. […] E começamos a fazer tudo longe do olhar dela” (VIANA, 2015, p. 25).
Por fim, o autor utiliza-se de recursos na linguagem que contribuem para uma maior aproximação da dialética juvenil. Mesmo simples e diretos, os diálogos denotam a forte presença da dualidade (“Lídia dizia que não tinha medo, tinha nojo. Aí Laércio dizia: “Mas tem lagarta que não dá nojo em ninguém. Quer ver?” – p. 27); da sonoridade (“[Laércio] as estourava com o pé, fazendo um ploc que me incomodava” − p. 25; “Eu gostava de juntar um bocado delas […] formavam uma pequena coroa cor de cobre […]” − p. 26); e também da metáfora (“Sua preocupação era Lídia, a menina que ela criava […] os peitinhos já apontando e que Laércio chamava de pitanguinhas” – p. 25).

 


Nota:

Link para o conto completo: http://bit.ly/2c36JZe

 


REFERÊNCIAS

ANDERSON LUIS NUNES DA MATA. Infância na literatura brasileira contemporânea. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2316-40182015000200013>. Acesso em: 29 de agosto de 2016.

LUIZ REBINSKI. O João Cabral do conto. Disponível em: <http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=868>. Acesso em: 26 de maio de 2016.

SÉRGIO TAVARES. Dissabores da velha idade. Disponível em: <http://www.revistaamalgama.com.br/05/2015/jeito-de-matar-lagartas-antonio-carlos-viana/>. Acesso em: 26 de maio de 2016.

VIANA, Antônio Carlos. Jeito de matar lagartas. In: ______. Jeito de matar lagartas. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 25-29.

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