Um livro, quatorze leituras

A fim de tornar patente o potencial da leitura de livros infantis e juvenis, seguem abaixo 14 percursos de leitura que o livro Um elefante quase incomoda muita gente, do David Walliams, nos coloca.
LEITURA 1 – Um elefante um pouco irritante. Eis o título com o qual o autor decidiu batizar seu primeiro livro ilustrado voltado ao público infantil, título este que qualifica a personagem principal com o auxílio de uma locução adverbial de intensidade: trata-se de um elefante só “um pouco” irritante. Um fato curioso, no entanto, é que as crianças que leem o livro tendem a discordar desse elemento suavizador, considerando o elefante mais que só um pouco irritante. O livro as coloca diante de um animal exigente, resmungão, irritadiço, com traços de egoísmo, inconsequente, espaçoso. A carga eufemística condiz mais com a atitude própria de um adulto que não pretende ofender, enquanto as crianças mais novas tendem a expressar, sem meios termos, o que realmente pensam. Esse título desencadeia no leitor essa atitude própria da infância que os adultos infelizmente costumam condenar, que é a atitude de discordar, de rebater uma afirmação feita pela figura autoritária do adulto, já que, em algum nível, os pequenos leitores estão “desmentindo” uma afirmação que lhes foi imposta na forma de título impresso em um objeto cultural sacralizado e superestimado que é o livro. “Okay. É realmente uma história de elefante, mas ele definitivamente não é só um pouco irritante”, dizem elas a seu próprio modo.
LEITURA 2 – Na quarta capa do livro, nos deparamos com a seguinte charada: “O que é, o que é? É grande, azul, abusado e aparece sem ser convidado?”. Temos novamente algumas descrições acerca da personagem elefante, onde são enfatizados suas dimensões, sua cor, seu comportamento e algo a que está propenso (aparecer sem ser convidado). Sabemos a resposta da charada. No entanto, como nos afirma Terry Eagleton (1983), em Teoria da Literatura: uma introdução, nada nos impede de considerar a charada como sendo portadora de ambiguidades, desencadeadora de analogias, tenha ou não sido intenção do autor. Um elefante, em toda a sua enormidade, surgindo diante de nós sem que o tenhamos solicitado pode muito bem ser lido como uma alusão a um tipo de situação em que precisamos lidar com o inesperado, um inesperado de proporções gigantescas, brilhando azul perante nós, em nossa mente, preocupando-nos e levando-nos a tomar medidas específicas, a agir de maneiras específicas. É muito provável que tal situação nos cause inevitável espanto, semelhante ao modo como costumamos reagir a certas situações e experiências na vida. Se um elefante não faz parte da minha rotina, sem dúvida que tenderei a reagir com terror à aparição de um. Mas há quem não reagiria deste modo, tal como um caçador, acostumado que está a lidar com elefantes e toda sorte de animais selvagens. E nisto podemos ler uma alusão à necessidade que temos de, em situações extremas, de intenso abalo emocional, recorrer àqueles que podem nos dizer como agir, talvez por já terem lidado com situações semelhantes em algum momento da vida, como um caçador que sabe o momento exato para agir.
Na história em questão, temos um garoto que se depara com um elefante, vindo da África, à porta de sua casa para nesta se hospedar, causando um verdadeiro caos. Esse pode ser um modo de abordar algo bastante delicado, como as tragédias no período da infância, quando crianças vivenciam situações extremas, tais como o desabrigo, a morte de um ente querido, a perda um membro do corpo, uma doença… Tudo embutido na figura do elefante batendo inesperadamente à porta, entrando na casa e causando todo tipo de estrago. O transitar do elefante pelos cômodos da casa pode nos levar a refletir sobre o modo como essas experiências estão sempre presentes na mente dessas crianças, para sempre marcadas pela perda e sofrimento aos quais foram expostas. Há, é claro, outras significações possíveis.
LEITURA 3 – Ao ouvir uma batida alta na porta, Sam, que está no topo da escada, se apressa a correr para atender o desconhecido, cheio de hipóteses acerca de quem está do outro lado da porta. Considera que pode ser o carteiro, um amigo, os pais voltando das compras… Jamais, naturalmente, um elefante. Crianças são pessoas curiosas por natureza, gostam mesmo de saber das coisas. Os adultos, por sua vez, na tentativa de ajudar, acabam sabotando esse traço da infância, alimentando-o com ausências e mais ausências. Adultos preferem não falar com as crianças acerca de certos “elefantes” que, vindos de qualquer lugar, cedo ou tarde baterão à porta de casa. O resultado pode ser o descrito no livro: na ausência dos pais, inteiramente desprevenido, um desses imensos elefantes aparece na vida do garotinho Sam. Surpreso, confuso e receoso, Sam vai tentando assimilar o “enorme” animal azul a berrar seu nome à porta. Tudo o que ele jamais esperava.
LEITURA 4 – Em um passeio ao zoo, Sam assina inadvertidamente um formulário de adoção, jamais considerando que se trata de algo sério e esquecendo-se de ler as letras miúdas. O resultado é um elefante africano de verdade batendo um dia à sua porta, decidido a morar em sua casa. Vejo aqui uma ótima maneira de conversar com as crianças acerca do quão imprevisível podem ser as consequências de uma ação impensada. Sobre, como Sam, temos de lidar com as consequências de algumas atitudes, conviver com elas, tentar encaixá-las em nossa rotina, em nosso quarto. Às vezes, é uma gravidez não programada, uma briga com um amigo, o prejuízo com certos gastos no fim do mês etc. Podemos conversar acerca de variados assuntos com nossas crianças, desde que, seguindo o conselho de C.S. Lewis em “Três maneiras de escrever para crianças” (2009), sejamos honestos.
LEITURA 5 – Graças ao flashback resultante da memória do elefante em relação à viagem que fez de avião da África à casa de Sam, há alguns elementos ilustrativos que nos permitem contrastar as reações dos adultos e das crianças perante o elefante. O semblante dos adultos, ao verem o animal acomodando-se nas poltronas do avião, é de inteiro espanto, ou mesmo de terror. As crianças, por sua vez, portam-se com um ar de interesse, assombro e curiosidade risonha. Sam, por exemplo, chega mesmo a aproximar-se do elefante, tocando-o, observando-o, assimilando-o. De fato, adultos costumam não recepcionar muito bem alguns “convidados inesperados”, tratando-os com grosseria, expulsando-os. Quando “elefantes” ocupam espaços que não lhes são destinados, os adultos escandalizam-se. Esses elefantes são, por vezes, inevitáveis, e faz-se necessário abandonarmos essa noção que estigmatiza as crianças como mentalmente incapazes de lidarem com eles. É melhor traduzirmos os elefantes da vida com honestidade para nossas crianças do que expulsá-los ou falseá-los. Eles sempre vão aparecer, não dá para esconder um elefante no meio da sala. Crianças sabem lidar com questões de “gente-dita-grande”, muitas vezes de modo mais sensato que os adultos.
LEITURA 6 – Sam é uma criança branca, escolarizada e de classe média. Este último dado nos é indicado por uma série de elementos, como: Sam já esteve a passeio pela África; há uma enorme banheira em seu banheiro, papéis de parede espalhados pela casa, que tem pelo menos um andar e localiza-se em ambiente urbano devidamente pavimentado e arborizado; a sala, o quarto e a cozinha são mobiliados; há quadros de família espalhados por toda a casa, brinquedos pelo chão, estantes repletas de livros, estes presentes em mais de um cômodo; há pelo menos um veículo automotivo na casa, visto que esta possui uma garagem, onde se encontra a bicicleta nova em folha do Sam. Tudo isso me levou a considerar uma situação em que não Sam, mas outra criança, como uma menina negra, pobre e periférica fosse a protagonista da mesma história. A princípio, podemos concluir que essa não seria uma história a ser vivida por tal criança, visto que a mesma dificilmente viajaria à África. É mesmo provável que ela sequer saísse de seu próprio bairro com frequência. Ainda assim, tomando a presença do elefante com figura de determinadas experiências, podemos dizer que crianças de classes diferentes lidam de formas distintas com os elefantes que aparecem em suas vidas. E para crianças mais pobres, é provável que estas já nasçam com um ou mais elefantes no quintal de casa. O elefante de Sam sentiu fome. A fome, por sua vez, poderia ser o elefante da criança pobre e, ainda por essa ótica de classe, podemos fazer uma analogia entre o relatório assinado por Sam e as situações em que acabamos por tomar atitudes que nos custarão algo mais à frente. Para uma criança pobre e periférica, esse relatório seria de um tipo diferente e não seria encontrado em um zoológico, que ela assinaria tão inadvertidamente quanto Sam. Talvez esse “relatório” da vida lhe fosse entregue por um homem mal-intencionado. E que tipo de elefantes bateriam à porta de seu barraco na favela?
LEITURA 7 – Na história de Sam, um elefante convida uma manada inteira para morar com ele. E se um elefante já incomoda muita gente… Mais uma vez, penso nas dimensões das consequências de assumir uma postura paternalista perante a criança, privando-a de acessar certos temas, certos ambientes, certas realidades. O choque da manada, que cedo ou tarde se evidenciará, deixará marcas profundas.
LEITURA 8 – Onde quer que vá, o elefante causa algum estrago, avariando a poltrona do pai de Sam, consumindo todo sabonete, espalhando toalhas de banho pelo banheiro, despregando e destruindo quadros, quebrando jarro, despedaçando bicicleta… “Elefantes” estão entre aquela infinidade de fatos da vida para os quais a estrutura humana não está totalmente preparada para suportar, mas com os quais temos de aprender a conviver.
LEITURA 9 – Há uma analogia interessante que pode ser feita entre o episódio da bicicleta destruída – quando o elefante monta no veículo novinho de Sam, que, não suportando seu peso, desmonta – e a infância. Temos aí um corpo de dimensões imensas tentando adequar-se a uma ferramenta que não o abarca, que não foi projetada para ele, que não o suporta. É exatamente o que se tem feito ao logo da história com a infância, desde que esta foi inventada. Tentamos podar o corpo e a mentalidade infantil, adequá-los aos sistemas que impomos à infância. Criamos ferramentas incapazes de conter a criança e, no fim, o resultado é catastrófico. A escola é um grande exemplo desse processo, pois é onde as crianças são literalmente jogadas a fim de deixarem de ser crianças. O papel da escola tem sido passar esse “elefante” complexo e de proporções gigantescas pelo buraco da agulha.
LEITURA 10 – Parece uma reflexão interessante, do ponto de vista da aventura, considerar como seria a história se os pais de Sam estivessem em casa, se o adulto repressor recebesse o animal à porta. Haveria história? O que mudaria? O que essas mudanças poderiam nos revelar acerca da relação adulto-criança?
LEITURA 11 – A história de Sam e da adoção de um elefante pode também ser um modo bem-humorado de falar acerca da necessidade de transmitir certo senso de responsabilidade às crianças, numa espécie de inversão que as faz assumir papéis exercidos por adultos ao lidarem com as exigências do elefante: alimentá-lo, limpar a sujeira do banho, dar de comer, arrumar a bagunça, sacrificar certas vontades − como o de assistir desenhos animados na TV −, pôr para dormir… Seria a criança na pele dos pais. As crianças aqui, na figura do elefante, é que seriam um pouco irritantes, espaçosas ou abusadas. Cuidar de uma criança seria um pouco como cuidar de um elefante. Parece algo problemático a se considerar? Talvez apenas um modo divertido de prevenir futuros pais acerca da grande responsabilidade que lhes aguarda.
LEITURA 12 – A ausência dos pais de Sam pode ser encarada como elemento que possibilita ao garoto a vivência de uma experiência inovadora, grandiosa, sem a repressão da figura adulta, levando-nos a refletir acerca das relações de poder adulto-criança.
LEITURA 13 – Num primeiro momento, o corpo do elefante surpreende Sam. É um corpo diferente do seu, um outro. Há diferenças gritantes, mas Sam vai assimilando, dialogando (diálogo que nada mais é que troca) e esses corpos passam a conviver. Há conflitos. Talvez se os pais de Sam estivessem em casa, eles o aconselhassem a rejeitar o elefante por não desejaram que o garoto andasse com um corpo desse tipo. O elefante é esse corpo outro que vem para causar o “caos” em nosso mundo ordenado, segregante e confortável, o corpo de proporções que tomamos como absurdas. Não é bem o corpo que destrói, mas que revela as falhas, as fissuras, os pontos em falso. O diferente está sempre batendo à porta e, na troca, no diálogo, no corpo, nos fazendo perceber que tendemos a rejeitar/resistir ao não padrão.
LEITURA 14 – Como em todos os livros infantojuvenis publicados pelo autor, as personagens principais são sempre crianças brancas (masculinas ou femininas). O corpo negro aparece muito raramente, sempre na condição de componente do ambiente, figurante e, ainda neste livro, quando somos guiados pela memória de Sam ao dia e ao momento em que assina o formulário de adoção do elefante, apoiando-se nas costas de um funcionário do zoológico africano, esse mesmo funcionário é um homem branco em um continente majoritariamente negro. Não se pode evitar pensar numa resistência à representação desses indivíduos.

 


REFERÊNCIAS

EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. Trad. Waltensir Dutra. São paulo: Martins Fontes, 2003.

LEWIS, C. S. Três maneiras de escrever para crianças. In: As Crônicas de Nárnia. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p. 742 e 745.

WALLIAMS, David. Um elefante quase incomoda muita gente. Ilustrações de Tony Ross. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

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