Hora da história: O gato malhado e a andorinha Sinhá.

Hoje vamos apresentar para vocês, crianças de todas as idades, a linda história de um gato malhado e uma andorinha que se apaixonaram perdidamente um pelo outro. Prestem muita atenção, pois vocês com certeza irão adorar conhecê-los!
Era uma vez antigamente, mas muito antigamente, nas profundas do passado, quando os bichos falavam, os cachorros eram amarrados com linguiça, alfaiares casavam com princesas e as crianças chegavam no bico das cegonhas. Hoje meninos e meninas já nascem sabendo tudo, aprendem no ventre materno, onde se fazem psicanalisar para escolher cada qual o complexo preferido, a angústia, a solidão, a violência. Aconteceu naquele então uma história de amor.
Assim se inicia essa obra escrita por Jorge Amado, escritor baiano que se intitulava contador de histórias, tendo escrito mais de 30 livros e publicado em mais de 50 países. Essa história em particular traz em si uma criação muito bonita, já que foi escrita por Jorge como presente de primeiro aniversário para o filho João Jorge e nunca havia sido idealizada para publicação, só o sendo quando, depois de adulto, João Jorge a encontrou e pediu que Caribé a ilustrasse, mudando, a partir de então, a decisão de seu autor de publicá-la.
Trata-se de uma fábula onde os bichos representados na trama disfarçam-se de gente ao esboçar qualidades, defeitos, sentimentos e ações normalmente “humanas”, desde as melhores às piores. Com uma escrita particular e característica, Jorge Amado traz ao público infantil e juvenil uma inconfundível descrição da beleza, da flora, das estações do ano, das emoções e das diferenças e distâncias impostas pela sociedade que, por vezes, impossibilitam as relações.
A história se inicia com a apresentação da Manhã, personagem sonolenta e funcionária relapsa, que demora a acordar e que vai devagarinho apagando estrela por estrela, esquecendo, às vezes, algumas acesas, e que, aos pouquinhos, vai esquentando o Sol. Para tanto, conta com a ajuda do Vento, soprador de fama, alegre, ágil, amigueiro, sempre disposto a ajudar, e que também lhe faz esquecer o passar das horas contando boas histórias, o que enlouquece os relógios e os galos que se precipitam em tentar anunciar a chegada do novo dia. Mas nesse dia… Ah! Manhã ultrapassou todos os limites! Havia mesmo perdido a noção do tempo, e por falar em Tempo, depois de receber tantas queixas, teve que chamar a atenção da Manhã, que, ao se explicar sobre a história, que de tão boa a fez se esquecer de suas obrigações, terminou tendo de contar cada detalhe da tal história ao Tempo, que prometeu lhe presentear com uma rosa azul se a história fosse mesmo tão boa.
A história que a Manhã contou ao Tempo para ganhar a rosa azul foi a do gato malhado e da andorinha Sinhá. O narrador passa a transcrevê-la por tê-la ouvido do sapo-cururu, que vive em cima de uma pedra, em meio ao musgo, velho companheiro do vento. E avisa: “Se a narração não vos parecer bela, a culpa não é do Vento nem da Manhã, muito menos do sapiente sapo-cururu, doctor honoris causa. Posta em fala de gente não há história que resista e conserve o puro encanto.”.

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A história é dividida em estações que, no lugar dos capítulos, demarcam o desenrolar temporal dos acontecimentos. A estação da primavera, vestida de luz, de cores e de alegria, traz-nos a feiura e a maldade expressa nos olhos pardos de um certo gato malhado, egoísta e muito temido por todos nas redondezas, um parque com uma grande variedade de animais. O gato, pouco dado a amizades, intriga a andorinha, uma alma livre, de bem com a vida e muito conversadeira com todos, o que desperta cada vez maior interesse naquele gato que não trocava nem uma palavra sequer com os vizinhos. Os dois acabam por começar a conversar e sentem cada vez maior afinidade, até que se apercebem que estão apaixonados.
– Tu não fugiste com os outros?
– Eu? Fugir? Não tenho medo de ti, os outros são todos uns covardes… Tu não me podes alcançar, não tens asas para voar, és um gatarrão ainda mais todo do que feio. E olha lá que és feio…
– Feio, eu? (O gato malhado riu, riso espantoso de quem se havia desacostumado a rir…)
– Tu me achas feio? De verdade?
– Feiíssimo… – rearfimou lá de longe a andorinha.
– Não acredito. Só uma criatura cega poderia me achar feio.
– Feio e convencido!
Foram interrompidos pelos pais da andorinha, que, superando o medo, chegaram voando e a levaram consigo. Muitos foram os avisos, os conselhos, as reclamações, tudo para manter a andorinha bem alerta dos perigos que o gato malhado que, por ser gato, já era por si só inimigo das andorinhas e poderia representar para uma jovem tão inocente. O gato, porém, era a sombra na vida clara e tranquila da andorinha e, apesar de ter jurado, voltou a falar com o tal feioso.
– Ele é feio mas é simpático… – murmurou a andorinha ao adormecer.
As estações que tomam o lugar dos capítulos demarcam os acontecimentos da história. Na primavera nasceu o amor, que passa correndo de tão feliz no verão; no outono, a distância faz as horas se arrastarem; e no inverno, a triste separação.

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Não me permito lhes contar o final, nem como as coisas aconteceram para esse estranho e apaixonado casal. Mas me permito lhes dizer que é uma obra que despertará muito interesse no trabalho em sala de aula, numa leitura conjunta do professor com os alunos por ter uma sucessão de acontecimentos que despertam o interesse dos leitores e por tratar de temas que tocam a realidade dos alunos no que diz respeito à aceitação das diferenças e da convivência em sociedade. Apesar de não ter um desfecho “feliz pra sempre”, a história de amor do gato malhado e da andorinha Sinhá nos faz pensar nas convenções e paradigmas impostos pela sociedade e nos mostra que, muitas vezes, todas as nossas diferenças nos aproximam.
O mundo só vai prestar
para nele se viver
no dia em que a gente ver
um gato maltês casar
com uma alegre andorinha
saindo os dois a voar
o noivo e sua noivinha
dom gato e dona andorinha.

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Trova e filosofia de Estêvão da Escuna, poeta popular estabelecido no Marcado das Sete Portas, na Bahia. Trazido nas páginas iniciais do livro de Jorge Amado.

 

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