Uma proposta de leitura para “Felizmente, o leite!”, de Neil Gaiman

Neil Gaiman dedica “Felizmente, o leite!” ao pai, David, e ao filho, Michael. Segundo o Gaiman, a história relatada no livro é do tipo que seu pai adoraria ter lhe contado, bem como o tipo de narrativa a qual Michael, seu filho, não atribuiria crédito algum, tomando-a por totalmente inverídica. Essas informações nos permitem enxergar o pai do Gaiman no protagonista da história, e seu filho Michael refletido no filho do protagonista, e talvez haja algo entre esse fato e a ausência de nome das personagens que compõem a família apresentada no livro, o que sublinha a importância da relação entre pais e filhos.
Trata-se de uma história que toma como pano de fundo temas da família contemporânea, das responsabilidades paternas, dos papéis de gênero e das trivialidades da rotina, mas é ainda uma história que encontra motivação nas memórias de seu autor em relação à própria infância, memórias que buscam resgatar a importância que a arte de narrar histórias possui tanto para crianças quanto para adultos. É bastante significativo que Gaiman tenha inserido em sua história uma máquina do tempo que insere o contexto para debater de maneira humorada questões como o espaço-tempo, bem como uma estegossauro cientista dirigindo um balão, pois o que ele faz é exatamente voltar ao tempo de criança e transformar suas memórias de infância em um parque de diversões nonsense, mas não tão nonsense assim. Igualmente significativo foi escolher como protagonista uma figura paterna, pondo em questão o protagonismo da figura paterna nas famílias modernas.
MÃE ESTEGOSSAURO x PAI HUMANO
Um estegossauro (do latim “lagarto telhado”) também não é uma existência aleatória na história do Gaiman. A figura materna aparece muito brevemente no início da trama, em um flashback do narrador-personagem. Nesse momento, menciona-se brevemente a razão da ausência da personagem durante todo o enredo: encontra-se em uma conferência apresentando um estudo sobre lagartos. Se nos detivermos nos elementos caracterizadores dos estegossauros, seremos tentados a confirmar que tal personagem seja representativa da mãe das crianças:
Os estegossauros foram imensos animais que viveram na Terra. Medindo em torno de 9 metros de comprimento e 4 metros de largura, possuíam enormes placas ósseas nas costas (daí o termo “telhado”). Essas placas serviam tanto para a defesa quanto para estabilizar a temperatura do corpo do dinossauro. De posse desse conhecimento, temos no estegossauro – que, em Felizmente, o leite!, é ilustrado com uma anatomia humanizada, própria dos livros infantis — a imagem do aconchego e da segurança do lar, a temperatura que metaforiza por meio da personagem a imagem cristalizada em nossa sociedade acerca da figura materna.
Outra característica curiosa acerca do estegossauro é que há fortes indícios de que ele possuía dois centros nervosos em seu corpo, ou seja, dois cérebros, um na cabeça e outro na lombar, região que suporta a maior carga do corpo humano e que tem a função de manter a postura na posição sentada. Ainda na contemporaneidade, à mulher tem sido relegada uma série de imposições, de “posturas” que, espera-se, que elas assumam; inúmeras dessas posturas visam mantê-las um nível abaixo, “sentada”. É a mulher que vem sendo submetida, ainda hoje, ao menos a duas jornadas de trabalho, sendo uma delas não remunerada. Ao homem da casa, uma poltrona, um jornal e a serviçal não remunerada. É a mulher estegossauro do século XXI que precisa se virar com o “espaço-tempo”, como os personagens do livro. Gaiman, no entanto, coloca diante do leitor uma realidade inversa, onde o pai é quem fica em casa a fim de cuidar dos filhos, porém incapaz de preparar refeições, estas feitas pela mãe para durar durante o período em que estaria fora.
A ação crescente da história começa quando o narrador, que é filho do protagonista, descobre que o leite acabou, impossibilitando que ele e sua irmã tomem o cereal matinal. O pai, então, sai a comprar leite e, após demorar mais que o esperado, retorna para casa contando sobre a razão do atraso. A história envolve haver sido capturado por uma nave alienígena, cujos tripulantes têm planos maquiavélicos hilariantes, e uma série imprevisível de situações. De posse do leite e em apuros, quem surge para salvar o pai das crianças, sem qualquer razão aparente, é uma estegossauro, um imenso lagarto humanóide que vem voando num balão acoplado a uma máquina do tempo. De todos os seres com os quais se deparam, todos parecem, de alguma forma, representar um perigo, exceto a estegossauro, que segue toda aventura ao lado do pai, sempre sóbria, arquitetando formas de lidar com os percalços. Além de cuidar de seus próprios compromissos, realizando seu trabalho de cientista aventureira e observadora e registrar sua aventura, a estegossauro precisa, ainda, cuidar do homem, do pai, leia-se, do marido. Ela o considera seu assistente, mas, durante a maior parte do tempo, ela é quem lhe presta assistência.
O pai, durante a maior parte do tempo, confunde-a com um macho e, a indagar, surpreso, se ela é realmente um estegossauro, ela rebate dizendo “Sou cientista”, sem o artigo feminino, que não permite atribuir o gênero à palavra. Esse é o trecho em que, em retrospecto de leitura, há uma discussão aberta sobre gênero e papéis de gênero. Automaticamente, o pai atribui à figura o rótulo de macho (faz um juízo de valor com base no que julga mais apropriado e o sustenta por toda a história). No momento em que se dá conta que se trata de uma fêmea, uma mulher, por assim dizer, a reação do pai é de constrangimento. Durante todos os momentos, ele esteve em companhia de uma mulher realizando proezas, livrando-o de perigos iminentes, com quem precisou dividir as tarefas a fim de retornarem para casa. Precisam trabalhar juntos a fim de conseguirem retornar ao tempo certo. Há um quê de superproteção partindo da mãe representada no início da história, característica que já não se encontra no pai. Aqui reside uma camada de leitura pertinente aos leitores mais velhos acerca das relações familiares na contemporaneidade, o peso desigual das responsabilidades de mulheres e homens calcadas no gênero e a necessidade de instaurar uma realidade outra em que mães e pais desfrutem de uma parceria lúdica e equilibrada na criação dos filhos.
Há, é claro, como em todo livro destinado ao público infantil que se preze, uma infinidade de camadas a serem exploradas em “Felizmente, o leite!”, que é, também, uma história sobre o poder da imaginação, que consegue transformar uma corriqueira ida ao mercado em uma viagem fascinante, imprevisível, repleta de paisagens fantásticas, situações hilárias, reflexões profundas e outras não tão profundas assim. Uma história sobre o contar histórias como experiência que nutre a infância, tal como o leite no cereal matinal que, sem leite, não tem graça nenhuma.
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2 comentários sobre “Uma proposta de leitura para “Felizmente, o leite!”, de Neil Gaiman

    1. Olá, Diego!
      Fico mesmo feliz que tenha gostado da leitura. Também amamos muito os trabalhos do Neil. Sinta-se a vontade para voltar e nos contar suas impressões de leitura quando houver devorado o livro 😉

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