Precisamos falar sobre a punição infantil

Em uma mulher não se bate nem com uma flor, mas “aquele que não fustiga sua criança com o açoite, odeia seu filho” (Provérbios). Paradoxal e incoerente? Essa é a sociedade em que vivemos, e esta é apenas mais uma de suas bizarras contradições.
Dizeres como estes, se observados com a devida atenção, manifestam aspectos sutis acerca do modo como a sociedade contemporânea funciona, do modo com determinados segmentos da sociedade seguem sendo oprimidos; além de confirmarem ainda a pertinência de um outro dizer com múltiplas aplicabilidades: o diabo mora nos detalhes.
O dito português citado no início, veiculado no Brasil e no mundo, pode com muita facilidade ser visto como uma das primeiras campanhas publicitárias que visam prevenir a violência contra um segmento da sociedade: a mulher. Contraditoriamente, no entanto, a mesma sociedade que criminaliza a violência praticada contra mulheres, racionaliza com extrema facilidade a agressão contra a criança, sancionada pela máxima bíblica que apregoa que existem contextos que legitimam tal agressão. Máxima que não apenas dá carta de alforria para a violência infantil, como também orienta na maneira de praticá-la, fazendo uso de um objeto de punição a fim de causa dor física e psicológica.
Uma sociedade que veta o uso de rosas para agredir uma mulher, mas sanciona o uso de cintas, chinelos e varas para disciplinar crianças, pretende apenas disfarçar a barbárie de que ainda é constituída. A sociedade já não admite que açoites sejam movidos contra os negros, mas continua vendo com bons olhos os açoites dirigidos às crianças. O raciocínio que objetifica grupos étnicos inteiros, retirando-os da condição de sujeitos e os colocando na condição de objetos, é o mesmo raciocínio que legitima a agressão contra crianças e jovens.
Parece – ou deveria parecer – um contrassenso termos que ensinar pessoas adultas o fato de que nada justifica a violência contra mulheres, negros, LGBT’s ou crianças que, para além de qualquer questão, são seres humanos e cidadãos. Mas não se pode deixar de notar que há uma propensão generalizada a justificar os ataques desferidos ao último segmento da sociedade elencado, as crianças. Ainda hoje, campanhas publicitárias veiculam palavras de ordem contra a violência doméstica praticada contra a mulher, ou mesmo contra a homofobia e o racismo; a violência doméstica infantil, porém, parece ter caído no esquecimento e custa em ser levada a sério.
A faixa etária, no entanto, parece continuar sendo critério que legitima o uso da violência contra os infantes. Temos convivido muito bem com a violência praticada rotineiramente contra os pequenos, sancionada pelo discurso religioso e por preconceitos que estereotipam a criança como sendo menos gente que “gente grande”, inferior. Não há qualquer provérbio na boca dos cidadãos que lhes advirtam contra a violência infantil, tendo, pelo contrário, um verso sacrossanto que legitima, sanciona e aconselha que se fustigue, açoite, ataque a criança com o auxílio de uma vara que, em versões contemporâneas, materializa-se na cinta, em pedaços de madeira e em chinelos, bem como em ataques físicos como beliscões, tapas, socos e chutes, além dos xingamentos. A prática é tão naturalizada que não há qualquer constrangimento em ser realizada em público.
Por essas e outras razões, precisamos falar sobre o “açoite”, sobre o modo como a criança ainda é vista pelos adultos numa sociedade que está pronta a justificar suas agressões. Precisamos de um provérbio que nos ensine que em pessoas – alguns ainda não sabem, mas crianças também são pessoas – não se bate nem com uma flor.
Por fim, deixo abaixo o link de uma matéria que expõe como é possível, com amor e criatividade, contornarmos a violência e substituir a cultura da punição por métodos não traumáticos, eficazes e produtivos, sem desumanizar ou objetificar as crianças.
Meditação e Yoga em vez de punição em escola dos EUA dão ótimo resultado
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