Fada ou Bruxa? Uxa!

Em um dos livros mais conhecidos de Sylvia Orthof, Uxa, ora fada, ora bruxa, são narradas as aventuras de Uxa, uma bruxa que tem dias do sim, onde resolve responder afirmativamente para todas as coisas, e dias do não, em que responde negativamente a qualquer situação. Nos dias do sim, Uxa resolve ser fada, nos dias do não, ela é bruxa. E aí, vocês topam conhecer um pouco dessa figura? Ora, então continuem a leitura![1]
capa-uxa
Fonte: Orthof (1989)
Na capa do livro, que pode ser lida acima, Tato, ilustrador do livro, utilizou a tinta acrílica, sendo predominantes os tons de rosa e lilás em degradê.A mistura de cores e elementos é usada para refletir a dualidade da personagem. O nome Uxa tem destaque na capa, o restante do titulo−ora fada, ora bruxa− pode ser lido em duas direções.
Ainda pensando nas ilustrações da obra analisada, sobre as ilustrações nos livros de literatura infantil, Rui de Oliveira pontua:
As imagens funcionam como movediças partituras de música, algo para ser tocado e interpretado pela nossa sensibilidade- muito longe das intenções do autor. Em qualquer ilustração, o que está oculto é o que mais queremos ver e vivenciar. As imagens são invocações que procuram mais as nossas imaginações noturnas que as diurnas (OLIVEIRA, 2008, p.27).
Pensando nessa imagem, das ilustrações como partituras, em Uxa, ora fada, ora bruxa, a mistura de tons de rosa e roxo, combinada aos traços expressionistas e à função expressiva, conforme Camargo (1999), responsável pela revelação de sentimentos e emoções dos personagens, nos convida não só a refletir sobre a dualidade de Uxa, mas é também uma mistura polissêmica, que convida cada leitor a uma leitura distinta, não só de Uxa, mas de si, dos outros, do mundo.
A leitura que eu faço, lembrando que outras podem ser suscitadas, é que as ilustrações para os momentos de Uxa como fada aparecerem em tons de rosa remetem e problematizam a expressão “ver a vida em cor-de-rosa”. Problematiza, pois, conforme é narrado na obra
Nesses dias, no dia do “SIM”, ela, Uxa, faz um bombom puxa-puxa… tão puxa que puxa… como puxa! Aí, ela coloca a peruca, põe um chapéu de fada e faz uma porção de bondades. Só que Uxa, sendo bruxa, não acerta de verdade. Para uma bruxa, é difícil fazer tanta caridade, mas Uxa tenta… e o mundo… agüenta (ORTHOF, 1989, p.10).
dia-do-sim
Fonte: Orthof (1989)
A partir do excerto citado, é possível inferir que Uxa, como fada, não é assim tão boa. Prosseguindo a leitura, veremos que Uxa, como bruxa, não é assim tão má.
Pensando no texto verbal, é possível dizer que a obra é dividida em dois momentos. No primeiro momento, a narrativa começa com Uxa em um dia dos seus dias do sim. Nesse dia, a fada-bruxa deseja ir a um palácio, pois um príncipe a esperava e ela precisava perder o seu sapatinho de Cristal. Neste momento da narrativa, podemos notar a relação intertextual com o conto Cinderela. No caminho acontece uma série de confusões, a citar a transformação de um táxi em abóbora.
sapatinho
Fonte: Orthof (1989)
A chegada de Uxa ao castelo marca o clímax da obra e muda o curso da narrativa. “Uxa vai subindo a escada, muito dengosamente fada. Aí, chegando ao terceiro degrau, senta e pensa: será que eu quero mesmo deixar cair meu sapatinho de cristal?” (ORTHOF, 1989, p.21).
uxa escada.jpg
Fonte: Orthof (1989)
Deixar cair o sapatinho de cristal significaria deixar de ser bruxa, mas também deixar de ser fada. Em seguida, Uxa, ao ver o príncipe, se assusta e, com medo de ser princesa e ter que ser feliz para sempre, decide ser ela mesma. Uxa, fada, bruxa, ora boa, ora má. Assim, Uxa vira bruxa, o roxo toma conta das ilustrações e a bruxinha sai fazendo mil bondades maldades.
bala-puxa
Fonte: Orthof (1989)
É importante, ainda, ressaltar que Uxa, ora fada, ora bruxa, como todas as obras de Sylvia Orthof, possui uma linguagem singular, carregada de neologismos, a citar: “princesal”. “[…] e Uxa, puxa, sorria, muito loura, muito fada, muito meio princesal, dizendo:- ó… ui, ui…será que fiz mal?” (ORTHOF, 1989, p.11).
Uxa se constitui como uma obra emancipadora, pois fomenta reflexões acerca dos valores presentes na sociedade. Em relação às ilustrações, também existe esse cuidado. As figuras nesta obra diferem dos padrões eurocêntricos que ainda predominam nas ilustrações de livros infantis. Em Uxa, ora fada, ora bruxa, ainda podemos ler uma crítica sutil a todas as fadas terem que ser loiras. No início da narrativa, para virar fada, Uxa necessita usar uma peruca escandinava que, como é explicado pelo narrador, é uma peruca muito loura; ao voltar a ser bruxa, a protagonista cansa de ser tão boa e loura.
dia-do-sim-sim
Fonte:  Orthof (1989)
dia-do-nao
Fonte: Orthof (1989)
Enfim, Uxa ora fada, ora bruxa é uma obra que nos faz refletir sobre o bem e o mal, o certo e o errado, e o pouquinho de cada um desses extremos, ou a mistura deles, que existe em cada um de nós.

Nota:

[1] Uxa entrou no meu computador e está fazendo fadices com esse texto, ou seriam bruxices? Me perdoem, leitores, por esse excesso de rima. O texto que era muito sério, agora não mais combina, artes da escritora, da bruxa ou da fada-menina?


REFERÊNCIAS

ORTHOF, Sylvia; Tato. Uxa, ora fada, ora bruxa. 10. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. 26 p.

OLIVEIRA, Rui de. Breve histórico da ilustração no livro infantil e juvenil. In: OLIVEIRA, Ieda de (Org.).O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra o ilustrador. São Paulo: DCL, 2008. p. 13-48.

CAMARGO, Luís. A relação entre imagem e texto na ilustração de poesia infantil. 1999. Disponível em: <http://www.unicamp.br/iel/memoria/Ensaios/poesiainfantilport.htm&gt;. Acesso em: 18 out. 2016.

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2 comentários sobre “Fada ou Bruxa? Uxa!

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