Os Contos de Beedle, o Bardo: o Bruxo e o Caldeirão Saltitante

Após o sucesso de sua principal saga, J.K Rowling escreveu e publicou um pequeno livro dentro do universo de Harry Potter. Os contos de Beedle, o bardo¹, como dito pela própria autora, trata-se de uma “coletânea de histórias populares para jovens bruxos e bruxas, contadas há séculos à hora de dormir” (p. XI). Em certa medida, ela seria o equivalente aos nossos conhecidos contos de fadas transcritos da tradição oral pelos irmãos Grimm.
O livro, ao total, reúne cinco contos e, curiosamente, alguns fazem referências às histórias do nosso universo trouxa², como, por exemplo, o considerado conto de fadas modernizado, O Mágico de Oz. Nesta postagem, será analisado o primeiro conto da obra, O bruxo e o caldeirão saltitante, a fim de discutir alguns levantamentos problemáticos que ele é capaz de propiciar (alerta de spoilers).

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Era uma vez um bruxo muito bondoso que usava a magia com generosidade e sabedoria para beneficiar seus vizinhos. Em vez de revelar a verdadeira fonte do seu poder, ele fingia que suas poções, amuletos e antídotos saíam prontos de um pequeno caldeirão a que chamava de sua panelinha da sorte. De muitos quilômetros ao redor, as pessoas vinham lhe trazer seus problemas, e o bruxo, prazerosamente, dava uma mexida na panelinha e resolvia tudo. (ROWNLING, p. 3-4)
Estaria tudo ótimo se o referido bruxo não tivesse falecido e deixado sua panelinha da sorte para o seu único filho, o qual possuía uma personalidade bastante distinta da do pai. Para ele, “quem não sabia fazer mágicas não valia nada” (ibid., p. 4), logo, ele não apoiava a atitude do pai de cooperar com os trouxas que apareciam pedindo por ajuda. Para sorte ou azar do filho, quando o mesmo tem o seu primeiro encontro com a velha panela, após o falecimento do pai, se depara com um embrulhinho endereçado a ele, que abriu na expectativa de encontrar ouro, decepcionando-se logo em seguida, ao se deparar com uma pantufa e um bilhete – “Afetuosamente, meu filho, na esperança de que você jamais precise usá-la” (ibid., p. 5).
O filho, em seu desapontamento e revolta, amaldiçoou a “caduquice do pai e atirou a pantufa no caldeirão, decidindo que passaria a usá-lo como lixeira” (ibid., p. 5). Assim, apesar de ter herdado o instrumento da generosidade do mais velho, o jovem recusava-se a ajudar os trouxas que ainda vinham procurar por ajuda. Essa decisão acabou gerando uma série de desconfortos para o filho do bruxo, uma vez que todos os problemas dos camponeses que ele se recusava a prestar socorro eram replicados animadamente pelo caldeirão. Para sua infelicidade, não houvera mágica alguma que pudesse dar um fim ao objeto ou, ao menos, que fosse capaz de silenciá-lo.
O bruxo não conseguiu dormir a noite toda por causa das batidas da velha panela verrugosa ao lado de sua cama e, na manhã seguinte, a panela insistiu em acompanha-lo, aos saltos, à mesa do café-da-manhã. Plem, plem, plem fazia o pé de latão, e o bruxo ainda nem começara o seu mingau de aveia quando ouviu outra partida na porta.
[…]
Plem, plem, plem fez o caldeirão no chão com aquele seu único pé de latão, mas agora o estrépito se misturava aos zurros de um jumento e aos gemidos humanos de fome que vinham de suas profundezas. (ibid., p. 6-7).
A relação que o jovem bruxo desenvolverá com o caldeirão irá se tornar ainda pior ao longo do conto, até que, num certo dia, não aguentando mais (já que não conseguia mais dormir ou comer), ele saiu gritando para os trouxas que trouxessem “todos os seus problemas, todas as suas preocupações e todas as suas tristezas” (ibid., p.10). Assim, “com a detestável panela ainda a persegui-lo saltitante, ele correu pela rua principal lançando feitiços para todos os lados” (ibid., p.10). À medida que os problemas eram sanados, o caldeirão se aquietava, até que não restasse nada além de sua forma original.
– E então Panela? –  perguntou o bruxo trêmulo, quando o sol começou a despontar.
A panela arrotou o pé de pantufa que ele havia jogado em seu fundo, e permitiu que o bruxo o calçasse em seu pé de latão. Juntos, eles regressaram à casa, os passos da panela finalmente abafados. Mas, daquele dia em diante, o bruxo passou a ajudar os aldeões exatamente como fazia seu pai, antes dele, para que a panela não descalçasse a pantufa e recomeçasse a saltitar. (ibid., p.11).
Apesar de ser uma história que beira à comicidade, ela trata de uma questão que não se resume ao universo bruxo e, tampouco, busca amenizá-la: o egoísmo do ser humano. Através da voz de Beedle, Rowling deixa claro, ao final, que o filho do bruxo muito bondoso não decidiu ajudar os demais por livre e espontânea vontade, muito menos prosseguiu com esse comportamento por ter “aprendido alguma lição valiosa”. Não é o jovem que é ensinado a ser altruísta e generoso, embora o caldeirão possa, de certa forma, ter se comportado para que isso fosse possível de acontecer. O que se observa é que o filho é obrigado a ceder por não aguentar mais ser incomodado pela panela, o que não o desvincula de sua personalidade egoísta e considerada, por ele, superior à existência dos seres não mágicos. Assim, se for possível apontar uma provável moral para este conto, a autora deste texto considera que seria muito mais uma questão de que as pessoas precisam se adaptar ao contexto, ao longo de suas vidas, sem que isso necessariamente se transfigure como o famoso “quem não aprende por bem, aprende por mal”. Ademais, levando em consideração que o ser humano é um ser social, ele deve se conscientizar que suas ações (ou a falta delas) não repercutem apenas na vida dele, mas também na dos seus semelhantes, logo, nem sempre ele terá de fazer algo que seja de seu agrado.

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Após a finalização do conto, tem-se algumas páginas dedicadas aos comentários de Alvo Dumbledore³, espaço no qual será revelado que a história não só foi capaz de despertar o descontentamento de uma parcela da população bruxa – que compartilhava do sentimento de superioridade do protagonista da referida história –, como também ocorreu a tentativa de adaptação do conto. Essa adaptação foi realizada por uma outra personagem do universo de Harry Potter, a Beatrix Bloxam, a qual, segundo Dumbledore, é a “autora do abominável Os contos do chapéu-de-sapo” (ibid., p.16). Ele comenta:
A sra. Bloxam acreditava que Os contos de Beedle, o Bardo prejudicavam as crianças por sua “mórbida preocupação com assuntos horrendos como morte, doença, derramamento de sangue, magia perversa, personagens perniciosos, e efusões e erupções corporais dos tipos mais repugnantes”. A sra. Bloxam reuniu uma coleção de histórias antigas, inclusive várias de Beedle, e reescreveu-as de acordo com os seus ideais, que, em suas palavras, “incutiam nas mentes puras dos nossos anjinhos saudáveis pensamentos de felicidade, mantinham e protegiam a preciosa flor de sua inocência”. (ibid., p. 16).
Sobre a adaptação de O bruxo e o caldeirão saltitante escrita pela bruxa, Dumbledore comenta que “o conto da Sra. Bloxam provocou a mesma reação em gerações de crianças bruxas: incontroláveis ânsias de vômito, seguidas por imediatos pedidos para que alguém levasse o livro e o transformasse em pasta” (ibid., p.18). Dessa forma, Rowling insere na sua obra uma questão bastante problemática e não menos atual: como escrever para crianças? A resposta não é tão simples como pode parecer, já que, ao se pensar em escrever para o outro, em verdade, se escreve para o que se pensa ser esse outro. Além disso, “todos nós lembramos de que nossa infância, tal como a vivemos, era infinitamente diferente de como os adultos a viam” (LEWIS, p. 742). Assim, é possível observar que o comportamento da Sra. Bloxam defende um posicionamento que ainda está bastante arraigado na realidade para além da narrativa bruxa, em especial por tratar da literatura infantil e o modo com o qual ela tem sido vista por alguns autores, editores e, até mesmo, familiares dos jovens leitores. A referida adaptação não apenas menospreza o público da literatura infantil, como, também, é capaz de desprepará-lo para a realidade não fictícia, considerando que negligencia (ou melhor, censura) determinados assuntos de sua narrativa, acreditando que “as crianças vão sendo [e devem ser] particularizadas e isoladas […]  do mundo adulto capaz de “corrompê-las” (PERES, p.5), e, dessa maneira, constrói um universo não condizente com a realidade destes leitores em formação – preparando-os para uma jornada de desilusões com potenciais traumáticos.
A versão integral da adaptação de O bruxo e o caldeirão saltitante, (in)felizmente, não é oferecida por Rowling, mas Dumbledore menciona o “paragrafo final da pura e valiosa reescritura” (ROWNLING., p.1 7)  do conto, para que seus leitores tenham uma breve – mas não superficial – noção do seu conteúdo arraigado com o “preconceito segundo o qual as crianças são seres tão diferentes de nós, com uma existência tão incomensurável com a nossa, que precisamos ser particularmente inventivos se quisermos distraí-las” (BENJAMIN apud. PERES, p. 4). Assim, tem-se:
Então a panelinha dourada dançou de prazer – tim tirim tim! – batendo seus pezinhos rosados! Willyzinho tinha curado as barriguinhas dodóis de todas as bonequinhas, e a panelinha ficou tão feliz que se encheu de docinhos para Willyzinho e suas bonequinhas!
“Mas não se esqueça de escovar os seus dentinhos!”, gritou a panela.
E Willyzinho abraçou e beijou o caldeirão saltitante e prometeu sempre ajudar as bonequinhas e jamais voltar a ser ranzinza. (ROWNLING, p. 17-18).
Observa-se, em especial, que a Sra. Bloxam busca a construção de um léxico dito infantil, através do uso abusivo do diminutivo nos vocábulos – inclusive, na nomeação de personagem. Além disso, utiliza objetos que alguns acreditam ser exclusivos do universo infantil (como bonequinhas e docinhos), além da repetição exaustiva de “bonequinhas”, como se o leitor não fosse capaz de acompanhar o raciocínio das sentenças, caso o vocábulo fosse substituído por pronomes. Esse comportamento, lamentavelmente, é reproduzido por muitos autores não fictícios na contemporaneidade. Há muitos que não levam em consideração que as crianças “são pessoas como nós, com os mesmos dilemas existenciais que nós, e de certa forma com dilemas ainda piores, pois enquanto nós adultos já recebemos algumas resposta da vida, a deles ainda está totalmente em aberto, o que é muito mais angustiante” (LACERDA apud. BELLÉ, p. 45).  Por fim, em um de seus ensaios, refletindo sobre como se deve escrever para crianças, um famoso escritor e estudioso britânico conclui que
Devemos encarar as crianças como nossos iguais naquela região da nossa natureza em que efetivamente somos iguais. Nossa superioridade consiste, por um lado, em termos acesso a outras regiões, e por outro (e mais pertinente), em termos mais habilidade que elas para contar histórias. A criança, como leitora, não deve nem ser tratada com condescendência nem idealizada: falamos com ela de homem para homem. (LEWIS, p. 751)

 


NOTAS

¹A obra foi ilustrada pela própria autora. Curiosamente, parte dos lucros arrecadados com a venda dos livros foi doada para o Children’s High Level Group, que “faz campanhas para promover os direitos das crianças e melhorar a vida de jovens em condições precárias” (descrição fornecida na capa do volume).

² Termo utilizado por J. K. Rowling nos livros de Harry Potter para se referir às pessoas não mágicas.

³Alvo Percival Wulfrico Brian Dumbledore foi professor e diretor dentro do universo de Harry Potter.  Possui diversos títulos valorosos na sua formação, capazes de conferir destaque e importância às suas opiniões no cenário bruxo. “Ordem de Merlim, Primeira Classe, Diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Chefe Supremo da Confederação Internacional de Bruxos e Bruxo-Presidente da Suprema Corte dos Bruxos (ROWNLING, 2008, p. XIV).

 


REFERÊNCIAS

BELLÉ, Junior. Era uma vez… A densidade da literatura infantil. In: Revista da Cultura, no 78, São Paulo/Janeiro de 2014.

LEWIS, C.S. Três maneiras de escrever para crianças. In: As crônicas de Nárnia. Trad. Silêda Steuernagel Paulo Mendes Campos. 2 ª. ed. São Paulo, 2009. p. 741-751.

PERES, Ana Maria Clark. Literatura infanto-juvenil: para que fazer? In: Suplemento literário de Minas Gerais. Nº 1306. Belo Horizonte, outubro de 2007, Secretaria do Estado de Minas Gerais.

ROWLING, J.K. Os contos de Beedle, o Bardo. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

TATAR, Maria. Introdução. In: Contos de Fadas. Trad. Mª Luíza Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. p. 07-17.

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