Chocolate branco e suicídio: a experiência em A Metafísica dos Tubos, de Amélie Nothomb

 

Tenho constantemente uma imagem de minha infância girando em minha mente. É uma mochila azul, com o desenho de cachorro branco – também usando uma mochila, nesse caso, vermelha –, e foi do exato dia em que ganhei essa mochila. Isso tudo está associado a um contexto de expansão do meu universo, que iria além daquilo que eu conhecia como um elemento de minha vida diária, que estava além do que eu podia reconhecer como pertencente àquele universo, de certa forma, em minha mente, calcificado: casa, os arredores, o caminho até o interior (que não era o caminho em si, mas o interior de um carro com poucas cenas reconhecíveis correndo do lado de fora da janela), o caminho até o shopping (mais uma vez, dentro de um carro ou de um ônibus, como no caso anteriormente citado), entre alguns outros. Eu estava indo para a escola, o que, para mim, a princípio, parecia uma ideia animadora – principalmente quando lembro da quantidade de “presentes” materiais e palpáveis que eu ganhei durantes as vésperas do início das aulas. Era a mochila, da qual lembro bem, e recordo uma presença efêmera (para o meu eu atual) de um lápis, papéis, giz de cera, etc., etc., etc.. Isso se mostrou algo, ao mesmo tempo, agradável e desagradável. Era agradável ser a criança que vai até a escola e passa o dia brincando, mas era terrível a ideia de sair de casa, em alguns dias, quando me parecia muito mais interessante ficar em casa e ver a programação infantil na televisão. É assim que eu lembro. Mas, de volta à mochila, eu tenho em mente uma cena específica que associo diretamente ao momento quando a ganho e coloco nos ombros pela primeira vez. Eu poderia contá-la diversas vezes e de maneiras diferentes, utilizando tons diferentes e associando ao momento alguns significados próprios, não apenas no momento da escrita, como também na associação que faço entre a lembrança – uma experiência marcante – e o contexto a respeito do qual escrevo, meu humor no momento etc; é apenas uma questão criativa o que me encaminha através da forma de contar, ou como eu escolho contar a história, ou mesmo a maneira que minha mente escolhe dar significado àquilo durante o processo criativo. Acredito que é tudo processo criativo nesse ponto em específico; é a cor que quero – ou preciso – dar naquele momento à experiência. No entanto, eu não negaria jamais que essa configuração da experiência é, a certo nível “essencial”, a mesma em todas as diferentes maneiras que eu escolher para contar essa história; foi esse um momento que se destacou dentro dos múltiplos eventos do meu dia e, entre tudo o que eu poderia lembrar daquele dia, ou da semana, ou daquele mês, essa cena em especial está destacada como um tipo de marco, um tipo de momento específico que não se dissolveu no fluxo dos anos e que tem agora, para si, um significado próprio e que ainda não foi derrubado, mesmo que cíclico.
eu-brunol-naoseiquantosanos
Eu, em algum momento entre 0 e 25 anos.
Há um outro momento, uma segunda cena, que eu lembro muito bem quando penso nessa época: eu tinha uma incumbência com a professora no andar de cima, uma pergunta – tão importante que já não lembro qual – seria feita por mim à outra professora, pois a minha precisava saber qualquer coisa que não era importante. Éramos terminantemente proibidos de deixar a sala, ainda que no segundo andar, sob o sol, repousasse um parquinho modesto – em minha mente, sempre o associei a um urso que dorme – e estávamos terminantemente proibidos de deixar a sala de aula para ir brincar naquele parquinho. É um contexto comum, entende-se o motivo de eu não esquecê-lo. Mas aqui vem o importante: junto comigo, uma colega escapuliu do olhar da professora e subiu correndo na minha frente, enquanto eu me arrastava escada acima questionando-me quanto à sua conduta – eu era comportado, naquela época –, e ganhou o terreno de areia do parquinho que dormia e virou a cabeça em sua direção. Eu permanecia parado após subir o último degrau e a vi correr em liberdade incompreensível em direção à besta deitada sobre a areia quente, pulando e com as tranças em maria-chiquinhas saltitando com ela. Eu não via seu rosto. Não por estar de costas para mim – também por estar de costas para mim –, mas mesmo se corresse de costas, olhando para mim, eu não a veria, pois o sol a havia ofuscado. Estávamos sob um teto e eu conseguia ver apenas uma sombra que corria em direção àquela liberdade calorosa, envolta por raios brilhantes, como flashes de máquinas fotográficas, todos ao mesmo tempo, e ganhando o parquinho como se aquilo que fizesse tivesse todo o sentido. Tenho certeza de que minha reação normal para aquilo seria contar tudo à professora, mas lembro-me, inclusive, de não ter feito; hoje, suspeito de que isso aconteceu assim, dessa maneira como conto – o que pode variar de acordo com o momento da história, mas a imagem permanece a mesma sempre que lembro do momento em que a vi correr em direção ao parque –, suspeito que aquilo me pareceu tão certo que não havia o que dizer para ninguém. De alguma maneira, ela estava em seu direito de fazer aquilo. Se alguém me perguntar, o prêmio por ter conseguido escapar do olhar de lince – ao menos sob minha perspectiva – de uma professora era ganhar o parquinho e permanecer lá tanto tempo quanto quisesse.
metaphysique-des-tubes2
Amélie.
Amélie Nothomb (2000), em A Metafísica dos Tubos, reconta, então, uma parte da própria infância, que compreende desde seu nascimento, quando era Deus e era um tubo, até uma tentativa de suicídio aos três anos de idade, afogada no mesmo lugar onde nadavam asquerosas carpas que detestava acima de tudo. A inclinação na obra para a ideia de uma autorreferência é constante e não está apenas no nome de sua personagem principal – também, Amélie – e no constante uso da primeira pessoa, mas nos elementos de sua vida que parecem ser emulados durante a narrativa, com uma inegável força de olhar para si enquanto reconta alguns episódios significativos que compunham o primeiro momento de sua vida: a identidade nacional (é japonesa ou é belga?), o emprego de seu pai, a inserção de sua família nos episódios da narrativa e mesmo algumas pessoas que foram importantes para ela naquela época, como a Nishio-san, a quem reencontrou há pouco tempo, ao retornar para o Japão. Enfim, a presença dessa força de transpor-se como personagem da própria obra ficcional já parece sólida em Amélie e está presente em grande parte de sua extensa publicação – cerca de 25 livros publicados, até 2017.
A autorreferência não é novidade. É algo que acontece desde sempre; o autor se insere na obra mesmo que perceba ou não o próprio movimento. No entanto, precisa-se ter em mente que o que ocorre aqui é a ficcionalização diferentes momentos de sua vida, é o entrelaçar a possibilidade suspensa da ficção e borrar o que, talvez, delimite o espaço entre possível e impossível, utilizando alguns absurdos e incongruências que, ao mesmo tempo que soam irreais, estão atrelados a uma possibilidade que se transforma numa interrogação. É não apenas se utilizar de alguns eventos possíveis em sua vida, mas pintá-los com algumas incongruências e utilizar-se delas para moldar alguns efeitos à obra. Ela, a princípio, é um bebê inerte e “oco”, sem qualquer demonstração de vida além da mais simples forma, o fato de que há alguma coisa ali dentro; é despertada apenas por sua avó, algum tempo depois, ao experimentar chocolate branco pela primeira vez. A partir daí, adquire plena consciência e vasto vocabulário, que prefere não demonstrar para todos, comunicando-se apenas com sua babá, Nishio-san. Existem outros absurdos: uma noite inteira pendurada de ponta cabeça do lado de fora da janela, a aventura de seu pai dentro dos bueiros japoneses – pois o cônsul é um homem que trabalha, certamente, limpando bueiros –, flores que desabrocham sob seu comando. É necessário pensar, no entanto, que essa escolha direciona a duas coisas: à consciência infantil, que se modificaria sob o espelho da descoberta e de um desabrochar para uma compreensão do universo, uma fantasia miraculosa própria de conto de fadas (em certa concepção de infância); em segundo, que creio interessante para a associação entre a autorreferência ficcional, à concepção agambiana de experiência.
Agamben (2005) propõe que a infância é o momento quando a experiência se apresenta em sua forma principal: é na infância quando a maioria das descobertas se apresentam com um tom de descoberta. A vida adulta se configura num frequente movimento cíclico de experiências. São coisas que já foram vistas e são conhecidas, tornando-se banais; não há nelas nada de especial ou que tenha tal valor que, em meio a tudo o que se vê na vida diária, dê àquele momento uma caracterização única, uma marca própria em meio à vastidão de acontecimentos. A experiência é aquilo que, em meio à confusão conturbada da vida, se manifesta como algo diferente, algo de características próprias, e é isso que se sobressairia como elemento eleito a escorregar para dentro do ficcional. É aquilo que o autor consegue recordar-se.
Se eu me lembro do momento em que ganhei minha primeira mochila e posso recontá-lo de diversas maneiras diferentes, é essa experiência que se configura como algo que permanece em meio a todos os acontecimentos; é o especial. Como a lembrança do primeiro chocolate, ou a lembrança de uma colega escapando para o parquinho, a lembrança de seu pai caindo no bueiro em um dia de chuva, a lembrança de um quase afogamento; são as coisas mais notáveis em meio ao todo e que têm uma presença, talvez, quase sólida. É aquilo que mantém, apesar dos anos e apesar de todas as horas, naquela fração de segundo, um significado que possibilita a recuperação de um momento.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s