Um corpo (às vezes) inaudível

O livro Papai e eu, às vezes, da escritora María Wernicke, permite-nos fazer uma série de leituras a partir da interlocução entre o texto verbal e o texto imagético. Na obra, podemos identificar temáticas, tais como: morte, sexualidade, afeto, família, descoberta etc. Todavia, esse livro ilustrado traz consigo um enredo que nos possibilita a interpretação da história já pelo título. Isto é, há a possibilidade de decodificar a obra a partir da chave: o afeto presente na relação entre pai e filha.
No decorrer do processo de leitura entramos em contato com dois personagens: um adulto, biologicamente masculino, escritor, o pai; e outro, que é uma criança, biologicamente feminina, no processo de descoberta, a filha, como sugere imagem a seguir:

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Uma das possíveis leituras para a obra é a introdução da criança, pelo adulto, nas possibilidades que o mundo pode fornecer a ela. Mais do que isso, podemos ler, através das imagens, um pai tentando ensinar o mundo para sua filha e, no contexto narrativo, perceber uma voz que conta/lê/interage com as ilustrações, constituindo uma narrativa que contempla e pressupõe o potencial cognitivo da criança:
Às vezes estamos juntos e nenhum dos dois diz nada de nada. Muitas vezes. Até que eu lhe mostre algo e ele diz o nome. (WERNICKE, 2010, p. 15).
O corpus textual, por exemplo, evidencia uma linguagem que não superestima a criança ou o adulto que lê. Os malabarismos que as ilustrações apresentam nos permitem, em diálogo com o texto verbal, fazer uma série de leituras e, inclusive, extrapolar os limites da interpretação convencional. Pois, segundo Nikolajeva e Scott (2011), em Livro ilustrado: Palavras e imagens,
O caráter ímpar dos livros ilustrados como forma de arte baseia-se em combinar dois níveis de comunicação, o visual e o verbal. Empregando a terminologia semiótica, podemos dizer que os livros ilustrados comunicam por meio de dois conjuntos distintos de signos, o icônico e o convencional. (NIKOLAJEVA, SCOTT, 2011, p. 7).
Sendo assim, Papai e eu, às vezes, como uma obra ilustrada, atravessará a noção estética de literariedade, possibilitando a dilatação da escrita e da comunicação. Por esse prisma, tanto o texto imagético quanto o texto verbal podem se comunicar simultaneamente ou individualmente e, como já foi mencionado anteriormente, ampliar nosso espectro de leituras.
Dentro dessa perspectiva de ampliação, inclino minha leitura da obra em questão para pensar: a performance e o manuseio do corpo infantil nos diversos processos de afecção que existem no entorno familiar. Sucintamente, minha interpretação se coloca diante do corpo infantil e, por conseguinte, se dispõe a pensar nesse corpo como linguagem e extensão subjetiva. Nesse caso, é importante rememorar que a peculiaridade de Papai e eu, às vezes encontra-se na articulação do texto verbal com o texto imagético. Por isso, para se fazer esse tipo de leitura, é preciso evidenciar que estamos tratando de textos diferentes um do outro e que esses textos, quando lidos simultaneamente, nos direcionam para outro âmbito de interpretação.
Nessa lógica, é emblemático o processo de leitura desse livro, porque ele possibilita a articulação de algumas questões, como: por que, às vezes, pais não querem (ou não podem) estar com seus filhos? Por que, às vezes, os filhos não querem estar com seus pais? E, por que, às vezes, esses corpos se encontram e geram descobertas? São poucos questionamentos, confesso, mas que possuem um espaçamento subjetivo que motivará uma série de leituras de como o corpo da criança não será o corpo da imobilidade, mas do trânsito contínuo de contato com o mundo e com outros sujeitos que a cercam. Contudo, para os questionamentos levantados, a resposta simples e curta para cada pergunta é: somos corpos pluriversais, com interesses diferentes, pensamentos e leituras diferentes. Somos sujeitos sociais na mesma veemência em que somos individuais. Um corpo e mente conjuntos em pró de uma individualidade social.
Por esse prisma, o advérbio de tempo “às vezes”, expressado corriqueiramente dentro da obra, pode exprimir a possibilidade da pulsão e do querer que dois corpos (infantil e adulto) se encontrem ou, simplesmente, que esses corpos permaneçam no contato individual. Nesse caso, notaremos que o afeto não significa o contato frequente, muitas vezes o afeto se dá em detrimento da liberdade e espaço para movimentação desse corpo. Como acrescenta María Wernicke pela frase:
Às vezes quero estar com meu papai. Mas ele nem sempre quer estar comigo. Às vezes ele quer estar comigo. Mas nem sempre quero estar com ele. Às vezes nós dois queremos estar juntos. (WERNICKE, 2010, p. 1).

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Portanto, podemos entender corpo como inscrita, expansão, vontade, querer, texto etc. O corpo da criança, tanto quanto o do adulto, é constantemente atravessado pelas informações que o rodeiam. Em Adeus ao Corpo: antropologia e sociedade, Le Breton escreve que,
O corpo é uma espécie de escrita viva no qual as forças imprimem “vibrações”, ressonâncias e cavam “caminhos”. O sentido nele se desdobra e nele se perde como num labirinto onde o próprio corpo traça os caminhos. (LE BRETON, 2009, p. 11).
Por esse ângulo, os talhes infantil e adulto que são performatizados na obra de Wernicke são processos em constante construção, são escrituras contínuas, são, pela perspectiva de Denise Carrascosa (2014), textos que trabalham com a bioficção, ou seja, uma história/performance da vida. Nessa continuidade, depreenderemos nosso talhe como linguagem, isto é, diariamente proferimos através de nossos corpos mensagens, pensamentos e desejos. E a criança de Papai e eu, às vezes, será esse corpus desdobrando os sentidos, possibilidades e latências que o mundo pode lhe conceder. Segundo Peter Hunt, em Crítica, teoria e literatura infantil,
Há dificuldade de generalização, já que cada criança irá diferir da norma. Entretanto, pode ser útil aqui abordar as implicações gerais dessas características. Na maioria das vezes, podemos dizer que, em estágios diferentes, as crianças terão atitudes variadas em relação à morte, ao medo, ao sexo, a perspectivas, ao egocentrismo, à casualidade etc. Serão mais abertas ao pensamento radical e aos modos de entender os textos; serão mais flexíveis em suas percepções de texto. E, como a brincadeira é um elemento natural de seu perfil, verão a linguagem como outra área para exploração lúdica. (HUNT, 2011, p. 91).
Ou seja, a criança é embasada, assim como o adulto, pela sua singularidade e pluralidade, possibilidades de leituras e vivências de mundo. É um corporal autônomo e que pode gerenciar suas descobertas em torno de diversos assuntos. Mais do que isso, a criança, como sujeito no contexto social, é incitada às possibilidades latentes que a linguagem pode conceder ao indivíduo, sem o peso do juízo de valor da sociedade.

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Por esse âmbito, Papai e eu, às vezes nos conduz a mais uma possibilidade de questionamento: o que pode o corpo infantil fazer no entorno das relações familiares? Assim como nos questionamentos anteriores, a resposta desse questionamento é breve, mas motivadora. A resposta é: tudo o que um corpo adulto pode, isto é, a criança é, assim como o adulto nas relações familiares, o conjunto de vivências, de leituras e, principalmente, de descobertas. E é na obra de María Wernicke que notaremos que é esse o corpo que não é colonizado/subalternizado pelo pensamento e conjuntura contemporânea do termo “criança”. Sendo assim, um corpo indócil e transgressor do que lhe é naturalizado:
Às vezes quero brincar e ele não. Às vezes ele quer falar e eu não. Às vezes. (WERNICKE, 2010, p. 25).
A relação, o estado de ser criança ou adulto, pai ou filha, muitas vezes não é uma articulação de linguagem que se dá no nível verbal, como notaremos lendo a obra. O silêncio se mostra revelador. E esses espaços, que foram construídos socialmente como distantes, se esvaem no livro, de modo a se performatizar uma linguagem que se estabelece por um diálogo de ação e reação. Desse modo, é interessante notar que as relações familiares foram construídas e se mantêm numa ordem discursiva de poder, no entanto, mais do que impor um pensamento e uma forma de agir, é necessário escutar, esperar ou, simplesmente, entender. Dessa forma, Guacira Lopes Louro comenta em, O corpo educado: pedagogias da sexualidade que,
É fácil concluir que nesses processos de reconhecimento de identidades inscreve-se, ao mesmo tempo, a atribuição de diferenças. Tudo isso implica a instituição de desigualdades, de ordenamentos, de hierarquias, e está, sem dúvida, estreitamente imbricado com as redes de poder que circulam numa sociedade. O reconhecimento do “outro”, daquele ou daquela que não partilha dos atributos que possuímos, é feito a partir do lugar social que ocupamos. (LOURO, 2007, p. 9).
Contudo, as relações afetivas na família, sobretudo, as relações entre pais e filhas são muitas vezes relações de poder, machistas, colonizadoras e desmotivadoras do processo de descoberta do corpo feminino. Papai e eu, às vezes não traz essa questão do poder nas relações familiares de forma explícita, porém, sub-repticiamente. Se pensarmos no que escreve Michael Foucault (1994), em A ordem do discurso, notaremos no livro em análise, por exemplo, a imposição de uma tentativa de ensinar, mesmo que não se tenha questionado nada:
Quando estamos juntos lhe pergunto coisas que quero entender. Ou ele me explica outras mesmo que eu não pergunte. (WERNICKE, 2010, p. 10).
Ainda que existam vários discursos de que crianças não possuem querer, como forma de imposição de autoridade, o querer se faz muito presente e essencial na infância. Na realidade, o querer é instigador – engrenagem para qualquer descoberta de subjetivação de um indivíduo. O querer é uma pulsão que gera ação, vontade, necessidade de movimentação, assim como notaremos que, no processo de aquisição da linguagem de algumas crianças, o verbo imperativo se faz presente na tentativa de materializar esse querer. Porém, o corpo da criança, assim como sua voz, são ferramentas que foram limitadas, só sendo permitido falar sobre aspectos, identidades, formas, modelos pré-estabelecidos de comportamento. A gerência corporal desse indivíduo é uma gerência guiada por aspectos sociais de universalidade, todavia, segundo Mignolo (2008), uni-versalidade nada mais é do que uma convenção sistêmica que não consegue enxergar as expectações que a pluralidade pode nos conceder.

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Então, vislumbrar essa performance autônoma de vontades, quereres e respostas a ações do talhe adulto é, para muitos, notar uma movimentação performática transgressora do estado de criança. Segundo Regina Dalcastagnè, em Literatura brasileira contemporânea: Um território contestado (2012), uma das grandes problemáticas na representação se dá na exotização da figura do outro. Em termos de literatura infantil, esse caráter é ainda mais perceptível. Por esse prisma, faz-se necessário um discurso que almeje uma representatividade e que não imponha noções comportamentais de subalternização dos corpos e das subjetividades. O exótico é outro corpo que, assim como os corpos normatizados, estende a comunicação ao contato.
O livro ilustrado Papai e eu, às vezes, da autora María Wernicke, apresenta uma representatividade do corpo infantil não exotizada pela cultura contemporânea. O corpo infantil é um talhe, como é um talhe o corpo adulto, que aflora nas suas movimentações e significados. Sobretudo, na obra, a relação entre pai e filha, não é uma caricatura colonizadora. Esse livro, segundo a própria autora, é uma leitura de suas vivências ou leitura da sua relação com o pai e, ao seu ver, um agradecimento a seu patriarca. E, como já foi proferido anteriormente, ele é uma bioficção, uma escrita-leitura e, conseguintemente, reescrita e releitura da entidade denominada como autor.
Enfim, Papai e eu, às vezes é sobre a relação entre pai e filha, mas não silencia o corpo às vezes inaudível de tanto ser sufocado pelo universo adulto.
 

REFERÊNCIAS

DALCASTAGNÈ, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2012.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. 5ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

HUNT, Peter. Crítica, teoria e literatura infantil. 1ª ed. Trad. Cid Knipel.São Paulo: Cosac Naify, 2010.

LE BRETON, David. Adeus ao corpo: Antropologia e sociedade/David Le Brenton. Trad. Mariana Appenzeller. 4ª ed. Campinas, SP: Papirus, 2009.

LEWIS, C. S. As crônicas de Nárnia. Trad. Silêda Steruernagel, Paulo Mendes Campos. 2ª ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009, p. 741- 751.

LOURO, Guacira L. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2007, p. 5 – 10.
MIGNOLO, Walter D. Desobediência epistêmica: A opção descolonial e o significado de identidade em política. Cadernos de Letras da UFF – Dôssie: Literatura, língua e identidade, nº 34, p. 287-324, 2008.
NIKOLAJEVA, Maria; SCOTT, Carole. Livro Ilustrado: Palavras e Imagens. Trad. Cid Knipel. 1ª ed. São Paulo: Cosac Naify, 2011.
WERNICKE, María. Papai e eu, às vezes. Ilustrado por MaríaWernicke. Trad. Carla Caruso. 1ª ed. São Paulo: Callis Ed., 2010.
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