A criança não-gênero de Bonassi

Pais e filhos
FERNANDO BONASSI 
Mãe… Por que tem tanto mosquito?
– Tira a mão daí.
– Se eu tirar
vem mosquito, mãe.
– Tira a mão daí já!
– A senhora tá brava comigo?
– Não, não tem nada com você.
– A senhora ainda tá brava com ele?
– Acho que não.
– Então por que a gente não tira ele daqui?
– Não sei…
– A gente podia pôr ele no quarto.
– Não quero mais ele lá.
– Mãe… O papai não vai acordar?
– Não, acho que não.
(100 coisas, 2000)
 
Mais conhecido por seus trabalhos voltados ao público adulto, o cineasta, roteirista, contista e romancista brasileiro, Fernando Bonassi, estreia na literatura infantil e juvenil em 1995, ao publicar Tá louco!, pela Editora Moderna. É autor, também, da Declaração universal do moleque invocado e d’O pequeno fascista, ambas publicadas pela Cosac Naify, além de outras obras. Bonassi também publica colunas na Folha de S. Paulo e foi o responsável pela criação dos roteiros para o programa de televisão Castelo Rá-Tim-Bum, exibido pela TV Cultura. Aqui, no entanto, nos deteremos em uma de suas microcrônicas destinadas ao público adulto, a fim de flagrarmos a concepção de infância performatizada no texto.
Pais e filhos, enquanto objeto artístico-literário, chama a atenção por sua brevidade, por sua economia formal e pelo modo contundente com o qual parece atravessar os mais variados leitores ao condensar uma série de questões no que parece ser um espaço textual pequeno demais, já que lança mão de pouquíssimos recursos formais e textuais. Em um primeiro momento,sua forma pode levar o leitor desavisado à conclusão de estar diante de um poema, dada a semelhança que sua estrutura mantém com certo modelo convencional desse tipo de produção literária. Mas essa impressão só perdura até o leitor se dar conta de que cada linha corresponde tão somente às falas alternadas de duas das três personagens presentes na crônica, não guardando qualquer relação de musicalidade ou ritmo uma com a outra. Não é fornecido ao leitor nenhum dado acerca do ambiente psicológico ou externo das personagens para além dos que estão implicados em suas falas, não há qualquer descrição de cenários ou mesmo caracterização dos sujeitos feitas por um mediador/narrador. As construções frasais estão despojadas de qualquer pretensão explicitamente literária, destituídas do que convencionou-se chamar “poeticidade”. Não há nem mesmo a presença de verbos discendi a fim de orientar o leitor quanto às vozes que alternam as falas. Se sabemos que o cenário em que decorre o diálogo é o espaço doméstico, isso deve-se não à intervenção de um mediador, mas tão somente às inferências que fazemos a partir do diálogo entre as personagens. Sou mesmo tentado a afirmar que estamos diante de uma forma artística que Aristóteles talvez reconhecesse como uma miniatura exemplar do que se esperava do drama grego puro, já que a crônica aparenta ser aquilo que todo texto dramático que esteja preso a um ideal de “pureza” almeja ser: um mundo completamente “emancipado do narrador” (ROSENFELD, 1985, p. 27), em que há apenas as personagens agindo, sem o auxílio de qualquer didascália ou intervenção de um mediador que nos aponte o tempo e o espaço em que decorre a cena. Tudo o que nos é dado está contido nas falas breves dos atores.
O breve texto de Bonassi é povoado por não ditos, uma série deles, a ponto de ser possível afirmar que a crônica é composta mais pelo que não diz, do que por aquilo que diz. Ao mesmo passo em que pouquíssimas informações nos são fornecidas acerca da especificidade do ambiente, das personagens e da situação, muito nos é dito. Sabemos estar diante de três corpos, um deles, ao que tudo indica, morto. Sabemos que o ambiente em que se encontram as personagens é um espaço doméstico. Presumimos quem o matou e que o diálogo se desenrola por longos minutos – ou mesmo horas – depois de uma provável briga e, afinal, presumimos que houve uma briga entre marido e esposa.
Curiosamente, ao mesmo passo em que Pais e filhos é uma obra constituída por uma economia material, essa mesma concisão surpreende por não colocar-se como empecilho para a vasta abrangência temática da crônica que, em toda a sua brevidade, consegue ser vasta, estendendo-nos um cabedal de noções e questões nas quais poderíamos nos deter longamente, questões estas que ainda hoje – dezessete anos depois da publicação do texto–continuam sendo objeto de discussões e alvo das mais variadas e extensas teorizações, dentro e fora do espaço acadêmico. Bonassi, ao construir seu texto, se vale de elementos como infância e vida adulta, maternidade e paternidade, tensões do espaço privado, “ingenuidade” infantil, violência doméstica, machismo, morte, luto, assassinato, trauma, afeto, autoridade, poder, subalternidade, gênero…
Quero aqui, a partir do texto de partida, propor algumas reflexões acerca da infância, bem como, ao fim do artigo, explicitar um experimento que a crônica de Bonassi, por sua especificidade,possibilitou realizar. Tal experimento teve como objetivo denunciar a abrangência e influência do sistema patriarcal em nossos movimentos interpretativos inconscientes. Diluídas no texto, as reflexões que aqui se farão devem ser encaradas como um convite para que passemos a assumir uma postura reflexiva e questionadora perante obras artísticas que, de uma forma ou de outra, performatizem a infância, que tragam a infância em seu bojo. Importante salientar que não é gratuita a escolha que faço pelo termo performance – mais vinculado à ideia de produção – como alternativa para o uso de representação –que engloba alguma ligação com noções essencialistas, platônicas e aristotélicas, remetendo-nos a ideia de que há um real ao qual a literatura copia, representa. A prática literária, então, é tomada aqui como produção de universos e de subjetividades, não como representação ou imitação. Em suma, a proposta aqui é refletir acerca da infância produzida, performatizada por Bonassi em Pais e filhos e, partindo dela, pensar a infância como categoria de análise para alimentar as reflexões que fazemos a partir da leitura de obras literárias.
Em Pais e filhos, nos deparamos com um corpo infantil exposto à violência e à morte. É o registro de fala da personagem que denuncia o corpo infante presente na cena. Seu diálogo com a mãe é o que nos permite precisar sua faixa etária, bem como certa ingenuidade que acompanha alguns de seus questionamentos (Por que tem tanto mosquito?/O papai não vai acordar?). Bonassi nos coloca frente a uma infância que se distanciada concepção mais corrente do que esta vem a ser, concepção ligada ao projeto erguido na Modernidade,no qual o ser infantil está diretamente vinculado à ideia de pureza e inocência, onde ser criança é ser feliz, sonhar, brincar, existir livre de quaisquer preocupações. Ao guiar a atenção do leitor para as falas dessa criança,a crônica denuncia a face a-histórica e o caráter de construção da concepção moderna de infância, que ainda vigora na contemporaneidade (FROTA, 2007, p. 146).
Ao colocar o leitor perante um corpo infantil que trava contato corpo a corpo com um cadáver, que toca esse corpo tombado e inerte, Bonassi aponta o dedo em riste para essa infância que não guarda qualquer semelhança com o paraíso propagado por certas concepções, evidenciando, dessa forma, a multiplicidade de infâncias existentes na contemporaneidade e, na mesma esteira, a falibilidade da concepção moderna, que está diretamente ligada ao ideal da possibilidade de se alcançar um conhecimento absoluto acerca de fatos caracterizados pela fluidez e instabilidade, dado o caráter histórico, social e cultural dos mesmos. Expor-nos a essa infância que preocupa-se com um corpo que pode não mais acordar, que veda com a pele nua da mão a boca e as narinas do pai morto, é uma maneira de tencionar o projeto moderno de infância e de sujeito, que prega a possibilidade de ler nos fatos socioculturais uma realidade cristalizada e dotada de uma verdade única, assim como também vem evidenciar o caráter múltiplo do mundo, tão caro às perspectivas pós-modernistas. E tudo isso nos diz muito acerca da literatura e, mais ainda, acerca de nós mesmos.
Fazendo uma breve digressão, a literatura – numa acepção bastante abrangente do termo, “fora de si” (GARRAMUÑO, 2014, p. 20-28) – detém inúmeras facetas, e é comumente identificada como possuidora de uma miríade de funções e características. Uma dessas características vem a ser o curioso fenômeno espelhado que se dá quando o leitor está diante do objeto literário: o olhar que o leitor lança à obra literária lhe é devolvido por ela, como se, ao olharmos para o objeto artístico diante de nós, ele também nos encarasse, revelando-nos mais acerca de nós mesmos do que da própria obra em si; em outras palavras, a literatura nos expõe a nós mesmos e aos outros, evidenciando nossos preconceitos e os valores que carregamos conosco, mesmo aqueles dos quais sequer temos consciência, daí a razão pela qual é comum que um rapaz engajado na luta contra o machismo se descubra machista ao ver-se condenando a esposa do Barba Azul por sua “curiosidade” que “a instigava tanto”a desobedecer a ordem do marido e adentrar o cômodo proibido (PERRAULT, 2015, p. 20). A literatura, então, vem (também) para nos incomodar, revelando-nos aquilo que há de abjeto e violento em nós, o caráter dos valores que regem nossas apreciações acerca da atitude desta ou daquela personagem às quais somos expostos em uma obra literária. Para Mario Vargas Llosa, por exemplo, “nada defende melhor os seres vivos contra a estupidez dos preconceitos, do racismo, da xenofobia, das obtusidades localistas do sectarismo religioso ou político, ou dos nacionalismos discriminatórios, do que a comprovação constante que sempre aparece na […] literatura: a igualdade […] de homens e mulheres em todas as latitudes e a injustiça representada pelo estabelecimento entre eles de formas de discriminação, sujeição ou exploração” (LLOSA, 2009, p. 21).
De volta à crônica… A violência contra a mulher – fenômeno social que pode facilmente ser inferido como tematicamente materializado na crônica – é uma prática criminosa constante no espaço privado e, em inúmeros casos, essa violência tem como expectadora bem próxima a criança ou o adolescente, e se dá tanto por meio de discursos agressivos, quanto pela via dos ataques físicos direcionados ao corpo da mulher. O machismo que legitima essas agressões revela sua face brutal e opressora às crianças que convivem com discussões e agressões rotineiras entre os pais.
Na microcrônica, estamos diante de uma criança consciente dos sentimentos de raiva que sua mãe dirige ao seu pai ou que este inspira naquela, conhecimento que leva essa criança a questionar se sua mãe “ainda está brava” com o pai. Trata-se de um corpo infantil sendo atravessado pela dinâmica de um contexto de violência sistemática praticada contra o corpo da mãe; uma criança exposta à palavras retalhadoras, ataques físicos, à dor, ao sofrimento… Na obra, toda essa tensão atinge o clímax quando o corpo oprimido da mãe reage às agressões. O leitor é levado a refletir sobre um possível longo histórico de opressão imposto a essa mulher, que, cansada, revoltada, em um rompante de fúria, comete um crime não necessariamente premeditado a fim de preservar a própria integridade. Esses elementos permite-nos encarar Pais e filhos como um texto provocador, que remove o véu moderno que oculta as múltiplas infâncias e nos coloca no cerne do furacão: a infância que presencia o assassinato do pai pelas mãos da própria mãe, bem como o histórico de dor e violência ao qual essa mulher esteve exposta. Só podemos imaginar a dimensão traumática dessas vivências para uma criança. Sobre esta questão, a psicóloga Suzana Braun escreve:
“No livro A síndrome do pequeno poder, Azevedo e Guerra (1989), referem a dimensão social do fenômeno [da violência doméstica] como modelo de dominação-exploração onde o capitalismo produz uma divisão de classes, o patriarcado produz uma cultura falocêntrica, o racismo uma cultura etnocêntrica e a educação familiar uma cultura adultocêntrica” (BRAUN, 2002, p. 73).
Embora a escritora empregue essa referência para refletir especificamente a questão da violência sexual no âmbito doméstico, julgo apropriado citá-la no presente artigo a fim de refletir algumas dimensões de violência inscritas na crônica de Bonassi, já que a infância performatizada em Pais e filhos traz um elemento presente quase universalmente na vida das crianças:a autoridade da figura adulta sobre o corpo infantil numa sociedade adultocêntrica que legitima formas sutis e explícitas de violência, o que traz como uma de suas consequências a desvalorização e anulação da subjetividade do infante. Acerca da violência inerente às relações interpessoais adulto-criança, a autora afirma que o que se dá é “[…]uma ação que trata um ser humano não como sujeito, mas como uma coisa se caracterizando pela inércia, pela passividade e pelo silêncio onde a fala ou a atividade do sujeito são impedidas ou anuladas originando a violência” (BRAUN, 2002, p.71). Vejamos como esses elementos estão inscritos em Pais e filhos.
Já no título da microcrônica, a relação de poder adulto-criança se faz notar, levando em conta que o termo pais e filhos corresponde a um dos inúmeros binarismos hierarquizantes que regem o pensamento ocidental e que, em muitos casos, atribuem valor positivo ao primeiro elemento (pais) e valor negativo ao segundo (filhos), estando o segundo alinhado com a noção de subalternidade e inferioridade, como ocorre nas oposições homem e mulher, adulto e criança, céu e terra, entre tantas outras (PRECIADO, 2014, p. 168). Em Pais e filhos, é no diálogo com a mãe que essa relação adulto-criança revela a primazia do primeiro elemento sobre o segundo, ao mesmo passo em que revela uma atitude de rebeldia por parte do corpo subalternizado, bem como o abuso de poder por parte da figura adulta perante tal insurreição.
O leitor atento se dará conta de que Bonassi dá vida a uma infância irreverente, ao menos em certa medida,uma criança que questiona e discorda da figura autoritária da mãe (Tira a mão daí/Se eu tirar vem mosquito, mãe). A criança tem opinião própria, avalia o contexto, tira conclusões e as expõe, contrapondo-se. Muitas crianças convivem com a autoridade paterna, que a vê de cima para baixo e coloca-se sobre ela, anulando-a. O abuso fica explícito quando a figura adulta, pela segunda vez, ordena que a criança acate a ordem que lhe foi dada (Tira a mão daí já!) –, onde podemos inferir a ameaça velada materializada no advérbio que surge no final do enunciado, o que talvez tenha levado a criança a afastar-se do corpo morto de seu pai.
Naturalmente, não se pode esperar que esgotemos todas as potenciais leituras desse pequeno texto. Me propus aqui a pensar a infância produzida por Bonassi e, a partir dela, refletir acerca da multiplicidade de concepções possíveis acerca da infância, enfatizando a performance do corpo infantil no texto do autor, sempre ciente das inúmeras possibilidades reflexivas e interpretativas que tal texto proporciona. Por fim, quero expor os resultados de um experimento simples que a especificidade do texto de Bonassi me permitiu realizar e que pode ser facilmente reproduzido.
Como exposto mais acima, o texto do Bonassi é altamente inferencial, dado o parco uso de recursos textuais. E é essa inferencialidade do texto que me permitiutestarum “padrão”inferencial em relação ao gênero que é atribuído à criança presentificada em Pais e filhos.
Entre os meses de Janeiro e Marco de 2017 apresentei o texto Pais e filhos a um total de 28 pessoas com faixa etária entre 15 e 55 anos. Em todos os casos, após a leitura do texto, solicitei que o leitor me falasse de suas impressões acerca das personagens presentes da crônica e, em todos os casos, pude flagrar a atribuição do gênero masculino à criança de Bonassi. Apesar de não haver qualquer marcador de gênero masculino ou feminino presente no texto em relação à criança, todas as 28 pessoas veem na cena que se desenrola no texto um garoto. A pergunta que naturalmente fazemos é: o que nos leva a pensar que a personagem infantil presente na crônica é uma criança do sexo masculino? E o que isso diz acerca de nós, da sociedade em que vivemos e da relação que mantemos com a língua que usamos para traduzir o mundo e as relações humanas?

 


REFERÊNCIAS

BONASSI, Fernando. 100 coisas. São Paulo: Angra, 2000.

BRAUN, Suzana. A violência sexual infantil na família: do silêncio à revelação do segredo. Porto Alegre: Age, 2002.

FROTA, Ana Maria M. C. Diferentes concepções da infância e adolescência: a importância da historicidade para sua construção. Estudos e Pesquisas em Psicologia [online]. 2007, vol.7, n.1.

GARRAMUÑO, Florencia. Frutos estranhos: sobre a inespecificidade na estética contemporânea. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

LLOSA, Mario Vargas. É possível pensar o mundo moderno sem o romance?. In:___. A cultura do romance. MORETTI, Franco (Org.). Trad. Denise Bottman. São Paulo: Cosac Naify.

PERRAULT, Charles. Contos da mamãe gansa ou histórias do tempo antigo. Trad. Leonardo Froés. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

fPRECIADO, Beatriz. Manifesto contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual. Trad. Maria Clara Gurgel Ribeiro. São Paulo: n-1 edições, 2014.

ROSENFELD, Anatol. O teatro épico. São Paulo: Perspectiva, 1985.

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