Os 20 anos da Pedra Filosofal: um debate sobre as casas de Hogwarts – Grifinória

Se há algo que nos foi ensinado desde a publicação de Harry Potter e a pedra filosofal, vinte anos atrás, é que a rejeição de um manuscrito por uma editora pode representar um arrependimento profundo e amargo. Isso pelo fato inconteste de que jamais gostaríamos de estar na pele dos vários editores que rejeitaram publicar a obra que se tornou um fenômeno mundial da literatura infantil e juvenil, tanto entre adultos quanto entre crianças, e que alterou a cena cultural ao redor do mundo; um verdadeiro marco histórico constituído por uma cadeia interminável de elementos, dentre os quais: leitores apaixonados espalhados por todo o globo, debates, teses e artigos acadêmicos, análises e discussões literárias, universos expandidos, adaptações teatrais e cinematográficas recordes de bilheteria, parques temáticos e uma série infindável de produtos de toda sorte. Para além de tudo isso, não posso me furtar a mencionar o que talvez seja um dos maiores feitos de uma escritora contemporânea: levar crianças e adolescentes a consumirem romances com mais de quinhentas páginas por livre e espontânea vontade.
Quanto ao histórico de rejeições pelo qual passou o manuscrito do primeiro livro, ele apenas contribui para enriquecer ainda mais as narrativas acerca do que a obra representa, tanto em um nível micro, abrangendo realização pessoal e superação das dificuldades por parte da autora, especialmente quando consideramos os inúmeros problemas pelos quais a Rowling passou enquanto mãe solteira e com sérias dificuldades econômicas, bem como sua saída da pobreza e ascensão ao título de mulher mais influente da Grã-Bretanha; quanto no nível macro, conforme citei mais acima.
Passados 20 anos desde as primeiras 500 cópias impressas do livro por uma pequena editora, o sucesso e a importância da saga literária destinada ao público infantil e juvenil que encontrou espaço no coração de leitores de todas as idades dispensam apresentações acerca da obra. E hoje venho aqui somar mais um dos milhares de textos já escritos acerca da obra de J. K. Rowling. Esclareço que esta é a primeira de uma série de quatro postagens do Cartografias da Infância que pretendem refletir brevemente acerca das quatro casas da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, reflexão feita por um viés que enfatiza os estereótipos que acabam por direcionar o olhar das personagens e dos leitores – via discurso das personagens – para os indivíduos que compõem cada uma dessas casas, alimentando preconceitos, recheando discursos e culminando em uma das questões mais caras às discussões propostas por várias áreas das ciências humanas: os equívocos e as calamidades oriundas das várias faces do preconceito. Portanto, comecemos com a casa que mais se destaca em toda a trama, a Grifinória, a qual pertencem os três protagonistas e uma série de personagens de destaque, como Dumbledore, Minerva McGonagall e Rúbeo Hagrid, personagens com os quais os protagonistas estão sempre interagindo e que, portanto, detêm um turno de fala maior na trama.
“Quem sabe sua morada é a Grifinória,
casa onde habitam os corações indômitos.
Ousadia e sangue frio e nobreza
destacam os alunos da Grifinória dos demais;” (ROWLING, 2000, p. 89).
Das quatro casas de Hogwarts, a Grifinória é aquela que detém o protagonismo na trama e que se beneficia de discursos positivos que contribuem para criar uma áurea de exemplaridade. Em contrapartida, esses mesmos discursos estão em oposição a outros, que versam sobre a Sonserina, e que a desenham como sendo o oposto da Grifinória, criando uma cenário dicotômico, sendo esse, inclusive, um dos movimentos mais bem construídos pela autora, aludindo a questões que têm sido alvo de inúmeros debates acadêmicos, como estereótipo, preconceito e binarismo, os quais, para o senso comum, seriam temas impossíveis de figurar numa obra infantil.
— Nossa, você não sabia, eu teria procurado saber tudo que pudesse se fosse comigo — disse Hermione. — Já sabem em que casa vão ficar? Andei perguntando e espero ficar na Grifinória, me parece a melhor, ouvi dizer que o próprio Dumbledore foi de lá, mas imagino que a Corvinal não seja muito ruim… Em todo o caso, acho melhor irmos procurar o sapo de Neville. E é melhor vocês se trocarem, sabe, vamos chegar daqui a pouco”. (ROWLING, 2000, p. 80).
Na comunidade bruxa, a preocupação com a casa em que serão alocados revela-se motivo de verdadeira aflição, a ponto de gerar uma crise de identidade, tamanha a expectativa depositada pelos familiares na capacidade dos filhos de “honrar” o nome da família e manter certa tradição de seleção como uma espécie de herança simbólica, de modo que ser alocado em determinada casa surge como elemento definidor e legitimador. Pode-se notar um exemplo disso em uma das falas de Rony Weasley no primeiro livro da saga:
— Em que casa estão os seus irmãos? — perguntou Harry.
— Grifinória. — A tristeza parecia estar se apoderando dele outra vez. — Mamãe e papai estiveram lá também. Não sei o que vão dizer se eu não estiver. Acho que a Corvinal não seria muito ruim, mas imagine se me puserem na Sonserina. (ROWLING, 2000, p. 81).
Apesar dos discursos que tentam encaixotar os membros de cada casa dentro de um horizonte de futuros possíveis e determinar as expectativas a se ter acerca de cada indivíduo a partir desse dado, durante toda saga, a autora insere elementos na trama que revelam as contradições e os equívocos por trás da ideia de se deixar guiar por julgamentos pré-concebidos.
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Imagem retirada do blog Harry Potter – o menino que sobreviveu
O estereótipo, que é uma opinião“[…] extremamente simplificada, fixa e enviesada sobre as atitudes, comportamentos e características de um grupo cultural ou social que não aquele ao qual se pertence. O etnocentrismo, o racismo, o sexismo, a homofobia, baseiam-se, todos, em grande parte, na produção e reprodução de estereótipos sobre os respectivos grupos sociais atingidos por essas atitudes tendenciosas” (SILVA, 2000, p.54). Desse modo, as quatro casas de Hogwarts criam o contexto propício para que temas como esses sejam abordados e trabalhados ao longo da trama em diversas dimensões, evidenciando a complexidade envolta em tais questões. Ao apresentar ao leitor a Grifinória e contar a história da perspectiva de um membro dessa casa, a autora possibilita que o leitor se dê conta de que, muitas vezes, uma narrativa acaba por apagar e deformar outras, bem como expõe o modo como o estereótipo existe para oprimir um em detrimento de um outro que almeja manter seus privilégios, sejam esses privilégios simbólicos ou materiais.
 

REFERÊNCIAS
SILVA, Tomaz Tadeu. Teoria cultural e educação: um vocabulário crítico. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
ROWLING, J. K. Harry Potter e a Pedra Filosofal. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
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