Os 20 anos da Pedra Filosofal: um debate sobre as casas de Hogwarts – Corvinal

Ou será a velha e sábia Corvinal,

A casa dos que têm a mente sempre alerta,

Onde os homens de grande espírito e saber

Sempre encontrarão companheiros

seus iguais;

(ROWLING, 2016, p. 97)

 

Contrapondo às expectativas de alguns, Rowling optou por selecionar Grifinória como Casa da “bruxa mais brilhante de sua idade”, Hermione Granger, em detrimento da Corvinal. Em verdade, embora a garota sempre tenha se dedicado intensamente aos estudos, ao ponto de acreditar que morrer é menos pior do que ser expulsa da Escola, certas experiências vivenciadas pela personagem, as quais foram desencadeadoras para o amadurecimento desta, a ensinaram conhecimentos não presentes em livros escolares e que não teriam sido adquiridos, caso ela não pertencesse à Grifinória. Além disso, ao se pensar nos perfis dos alunos de Corvinal, é notável que todos são bastante autênticos em sua excentricidade, muitos dos quais são preconizados pela jovem bruxa, que desde o início apresenta um olhar cético para o mundo e busca explicar tudo pela lógica científica. Desta maneira, faz-se o questionamento: apesar de deveras estudiosa, Hermione Granger teria encontrado “companheiros seus iguais” como cantado pelo Chapéu Seletor?
Duas personagens femininas representam o extremo oposto de Hermione: Sybill Trelawney e Luna Lovegood. A primeira é professora de Adivinhação em Hogwarts e, como o próprio nome da disciplina sugere, trabalha com uma ciência focada no futuro, portanto, envolta de hipóteses e interpretações – a racionalidade valorizada por Hermione não é critério para seu aprendizado. A segunda é artista e acredita em coisas aparentemente absurdas, além de ser movida pela fé. Desta forma, ambas são personalidades passíveis do preconceito social e poucos realmente as tratam com seriedade, embora tenham sido alunas de Corvinal.
LunaLovegood_WB_F6_LunaWearingGryffindorLionHat_Illust_080615_Port
Foto retirada do site Pottermore
– Você se importa de não ofender as únicas pessoas que acreditam em mim? – pediu Harry a Hermione a caminho da aula.
– Ah, pelo amor de Deus, Harry, você pode arranjar gente melhor que ela. Gina me contou tudo sobre a Luna; pelo jeito, ela só acredita nas coisas quando não há provas de sua existência. (ROWLING, 2003, p. 219)
Luna Lovegood, em especial, quase não possuía amigos e era constantemente vítima de bullying. Ao longo dos livros, Rowling teve o cuidado de provar que a garota merecia credibilidade em suas crenças tanto quanto Hermione recebia. Em Harry Potter e as Relíquias da Morte, por exemplo, há um trecho no qual é perceptível a sabedoria de Luna: o momento no qual é preciso entrar na sala comunal da Corvinal, sempre protegida por enigmas a serem desvendados por quem desejasse adentrá-la.
Luna esticou a mão pálida, que parecia a de um fantasma flutuando no ar, desligada de braço ou corpo. Ela bateu uma vez, e, no silêncio, a batida pareceu a Harry um tiro de canhão. Imediatamente, o bico da águia se abriu, mas, em vez do grito do pássaro, uma voz suave e musical perguntou:
– O que veio primeiro, a fênix ou a chama?
– Humm… que acha, Harry? – perguntou Luna, pensativa.
– Quê? Não tem uma senha?
– Ah, não, você tem que responder a uma pergunta.
– E se você errar?
– Bem, aí você terá que esperar até alguém acertar – disse Luna. – Assim, você aprende, entende?
– É… o problema é que não podemos nos dar ao luxo de esperar por mais ninguém, Luna.
– Não, entendo o que você quer dizer – respondeu Luna, séria. – Bem, então, acho que a resposta é um círculo que não tem princípio.
– Bem pensado – disse a voz, e a porta se abriu. (ROWNLING, 2007, p. 456-457)
A diversidade do alunado de Corvinal, entretanto, não se esgota nestas duas personagens. O professor de Feitiços, Filius Flitwick, bastante respeitado por Hermione e diretor desta Casa, é destoante da personalidade de seu ex-colega Gilderoy Lockhart, o qual já foi professor de Defesa Contra às Artes das Trevas em Hogwarts. Enquanto o primeiro é solícito, coordenador do Coral da Escola, amante da música e um Mestre na sua profissão, o segundo escreveu uma coletânea fantástica sobre feitos que, em verdade, jamais os realizou, embora tenha se tornado famoso por eles. Além disso, por ser excelente em feitiços de memória, conseguira forçar aqueles que realmente tinham vivenciado estes eventos estrambólicos a esquecê-los. Ironicamente, enquanto o primeiro é digno de sua notabilidade, ele descende de duendes e, portanto, é bastante pequenino; o segundo é alto e apresenta uma aparência do típico galã da literatura, embora seja um grande farsante.  Ademais, Corvinal também foi responsável por Cho Chang, possivelmente, a aluna mais popular de sua turma, apanhadora¹ do time de Quadribol, além de ter sido a primeira paixão do protagonista da saga; e Garrick Olivander, considerado por muitos o maior inventor de varinhas. Este último é obsessivo quanto à sua profissão e aparentemente não possui uma vida para além desta. Por fim, tem-se Quirinus Quirrel, apresentando inicialmente como um gago amedrontado, mas que, ao final de Harry Potter e a Pedra Filosofal, foi revelado como um ambicioso comensal da morte.
O levantamento superficial das identidades dessas personagens é útil para compreendermos que, embora Corvinal possua valores e princípios particulares, eles não se configuram homogeneamente entre o corpo de seus alunos. Esta Casa de Hogwarts é uma incrível metáfora para compreendermos que a sabedoria não caminha por uma via única e pode ser esculpida de formas múltiplas, sem que uma anule a outra, embora nem sempre se complementem. Na pós-modernidade, a “identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (HALL, 2014, p.12). Assim, Corvinal é uma Casa na qual valoriza-se os saberes diversos, igualmente a multiplicidade de seus portadores. Não é por acaso que o emblema desta é a águia, a qual é capaz de escalar onde outros não conseguem². Desta maneira, através da literatura fantástica, Rowling explora questões teóricas da nossa realidade e as discute com os públicos infantil e juvenil. Ainda que segmente o corpo estudantil de Hogwarts em quatro Casas, ela não torna este evento como determinante para o surgimento de estereótipos em suas narrativas. Em verdade, ela os deforma e defende que toda sabedoria é legítima e, tal como proposto por Rowena Ravenclaw³, “o espírito sem limites é o maior tesouro do homem” (ROWLING, 2007, p. 457).
Para ser membro de Corvinal, assim, é preciso encarar que a sabedoria está para além da ciência clássica e é capaz de transpor as fronteiras da racionalidade convencional; o que seria um imenso desafio para Hermione, caso ela não tivesse sido selecionada para Grifinória. Seria interessante se o leitor deste texto realizasse um levantamento de alguns nomes das consideradas “grandes mentes” da nossa sociedade e se perguntasse quantos deles eram (ou são) considerados tão normais quanto eu ou você. “Se, apesar de tudo, ainda houver ranzinzas e descontentes, que ao menos observem como é bonito e vantajoso ser acusado de loucura” (ROTTERDAM, 2002).  

NOTAS

[1] Posição na qual o jogador deve buscar agarrar o pomo de ouro, uma das muitas bolas presentes em uma partida de Quadribol, esporte da cultura bruxa.

[2] Tradução livre do original em inglês: Our emblem is the eagle, which soars where others cannot climb.

[3] Fundadora de Corvinal.


REFERÊNCIAS

HALL, Stuart. A identidade em questão. In: A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva, Guacira Lopes Louro. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

ROTTERDAM, Erasmo de. Elogio da Loucura. Paraná: Atena Editora, 2002. Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000026.pdf>. Acesso em 02 de julho e 2017.

ROWNLING, J.K. Harry Potter e a Pedra Filosofal. Ilustração por Jim Kay. Trad. Lya Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.

ROWLING, J.K. Harry Potter e a Ordem da Fênix. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

ROWLING, J.K. Harry Potter e as Relíquias da Morte. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

ROWLING, J.K. Hogwarts houses: Ravenclaw. Disponível em: <https://www.pottermore.com/collection/all-about-ravenclaw >. Acesso em 2 de julho de 2017

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s