Os 20 anos da Pedra Filosofal: um debate sobre as casas de Hogwarts – Sonserina

Ao observarmos a estrutura social na qual estamos inseridos, é perceptível a imersão em um modelo dicotômico no qual o papel de cada indivíduo é definido de acordo com o lugar que ocupa nessa estrutura, perpassado pelas questões de raça, classe e gênero. Tal dicotomia nos traz extremos como lados de uma mesma moeda, sem levar em consideração as diversas nuances entre um e outro e nem mesmo questionar a que modelo de pensamento e a quais interesses os conceitos de bem e mal, por exemplo, atendem. Na saga Harry Potter, a autora J.K. Rowling subverte o modelo de pensamento apresentado. As personagens, ao ingressarem no primeiro ano da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, são selecionadas para suas casas através de certas características em suas personalidades pelo Chapéu Seletor, um velho chapéu mágico que, quando colocado na cabeça dos novatos, é capaz de “enxergar” através das suas mentes e direcioná-los à casa que lhes servirá de morada durante os sete anos de formação. Há casos em que o Chapéu realiza a seleção com prontidão, como ocorre com o personagem Draco Malfoy, designado instantaneamente para a Sonserina. Porém, com certa constância, encontra dificuldade para definir a alguns alunos  uma casa específica. O personagem protagonista da saga, Harry Potter, acaba por baralhar o chapéu, o qual encontra dúvida quanto a selecionar o garoto para a Grifinória ou Sonserina – casas consideradas em relação de oposição na trama –, levando em conta, nesse caso, a escolha do próprio Harry.
Neste texto da série do Cartografias da Infância, em comemoração aos 20 anos do lançamento de Harry Potter e a Pedra Filosofal, refletiremos sobre a casa que detém a maior parte dos personagens antagonistas da saga: a Sonserina.
Ou quem sabe a Sonserina será a sua casa.
E ali fará seus verdadeiros amigos,
homens de astúcia que usam quaisquer meios
para atingir os fins que antes colimaram. (ROWLING, 2016, p.97)
Na trama, a Sonserina é, por muitos, mal vista. Alguns bruxos consideram-na como  a casa de integrantes malignos, uma espécie de antro de formação de bruxos das trevas. Por ela passaram algumas personagens notáveis, como, por exemplo, a família Malfoy, a família Black (exceto pelo padrinho de Harry Potter, o animago Sirius Black), Andromeda Tonks (nascida Black), Horácio Slugorn e Tom Riddle, o qual, posteriormente, viria a se tornar Lord Voldemort. Também pertenceu à Sonserina o maior bruxo de todos os tempos, Merlin, figura familiar em diversas histórias de magos e bruxos para além do universo criado por J. K. Rowling.
De fato, a maior parte de sonserinos que recebe destaque na trama são bruxos das trevas ou personagens minimamente desagradáveis, como Draco Malfoy. Uma vez que o trio protagonista da saga é pertencente à Grifinória, detendo estes o maior espaço de fala, naturalmente a história tende a mostrar-se sob a ótica dos mesmos, e, nada mais natural, que recaia certa difamação sobre a casa considerada “o outro lado da mesma moeda” da corajosa e amigável Grifinória.
— E o que são Sonserina e Lufa-Lufa?
— Casas na escola. São quatro. Todo mundo diz que Lufa-Lufa só tem panacas, mas…
— Aposto que estou na Lufa-Lufa — disse Harry — deprimido.
— É melhor a Lufa-Lufa do que a Sonserina — sentenciou Hagrid, misterioso. — Não tem um único bruxo nem uma única  bruxa desencaminhados que não tenham passado por Sonserina. Você-Sabe-Quem foi um deles (ROWLING, 2016, p.69).
Em sua conferência para o TED (Technology, Entertainment, Design), intitulada de “O Perigo de Uma Única História”, Chimamanda Adichie diz que “[…] o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos”. Realmente, a Sonserina angariou a sua cota de bruxos das trevas, incluindo aquele que estarrece  as personagens a ponto de sequer o seu nome ser pronunciado pela maioria: Lord Voldemort. Assim como grande parte dos seus Comensais da Morte. Porém, como todo estereótipo, os membros da casa não são, fatalmente, praticantes de magia das trevas em formação ou maquiavélicos.
Ao fundar a casa representada pela serpente, Salazar Slytherin teve como proposta acolher e ensinar bruxos da mais pura ancestralidade. A ideia de primazia de bruxos considerados “sangue puro” é problematizada ao longo da saga. Tal abordagem possibilita o diálogo e a reflexão sobre os diversos conceitos, estereótipos e papeis sociais que atuam em nosso coletivo de maneira limitante, e em como é possível rompê-los. Em especial, creio eu, questões étnico-raciais.
Em  ruptura com o ideal de superioridade dos puros-sangue, tem-se a presença de Hermione Granger, bruxa nascida trouxa e uma das mais brilhantes da sua idade. De fato, a intenção de Slytherin ao fundar a casa era excludente e preconceituosa, porém, ao longo dos anos, houve diversos estudantes designados à casa que subverteram o ideal de supremacia do fundador. No decorrer dos anos, diversos bruxos mestiços foram alunos da Sonserina, como Severo Snape e o próprio Tom Riddle.

 

severus_snape___hogwarts_by_woshibbdouFoto retirada do Deviantart

Primeiramente, vamos dissipar alguns mitos. Você deve ter ouvido rumores sobre a Sonserina – que todos fazemos Artes das Trevas, e que só vamos falar com você se seu bisavô foi um bruxo famoso, e besteiras do tipo. Bom, você não deve acreditar em tudo o que ouve de casas concorrentes. Eu não estou negando que nós produzimos nossa porção de Bruxos das Trevas, mas as outras três casas também – eles apenas não gostam de admitir. E sim, nós tradicionalmente tendemos a aceitar estudantes que venham de uma longa linhagem de bruxos e bruxas, mas nos dias de hoje você encontrará várias pessoas na Sonserina que tenham ao menos um parente trouxa. (ROWLING, 2011).
Também permeia o imaginário de parte expressiva dos leitores o fato de que sonserinos repudiam trouxas e nascidos trouxas, considerando-os inferiores e não-bruxos. Tal pensamento discriminatório, notadamente, está presente na concepção de mundo de parte  das famílias puro-sangue, como as famílias Malfoy, Black e Lestrange, nas quais há grande conservadorismo. Entretanto, não há correlação alguma com pertencimento desses indivíduos à Sonserina. Até mesmo nessas famílias, há casos de bruxos mais empáticos que repudiam o posicionamento de seus consanguíneos, como o caso de Sirius Black (único da família selecionado para a Grifinória) e Andromeda Tonks. Nascida na família Black, Andrômeda fora designada à sonserina pelo Chapéu Seletor  e deserdada pela família Black devido ao seu matrimônio com Ted Tonks, nascido trouxa.
Sonserinos são também conhecidos por serem ambiciosos e astutos a fim de atingirem a grandeza que almejam. Horacio Slughorn, professor de poções e ex-diretor da casa, viabiliza sua grandeza cercando-se de alunos nos quais enxerga potencial para a realização de grandes feitos. É uma espécie de colecionador de alunos e ex-alunos brilhantes. Porém está longe de ser um bruxo das trevas ou algum tipo de odiador dos nascidos trouxas. Para Slughorn, a notoriedade do estudante está acima de uma ancestralidade pura. É sabido que muito prezava por Lilian Evans e Hermione Granger, ambas nascidas trouxas. Ademais, possui grande arrependimento por uma atitude da qual muito se envergonha : foi ele quem revelou a Tom Riddle o segredo das horcruxes¹. Certamente, Slughorn não imaginara a intenção por trás da curiosidade daquele que viria a se tornar Lord Voldemort, ainda assim, reconhece que as consequências da informação que lhe revelou foram catastróficas.
Quando algo é criado com intenções egoístas ou excludentes, é possível subverter e ressignificar a proposta de origem. Embora Salazar Slytherin visasse educar apenas os de sangue puro (e, consequentemente, quem também concordasse com a ideia), passaram pela Sonserina diversos alunos que, em sua ancestralidade e em suas atitudes, vieram de encontro à proposta do fundador da casa. Ser um membro da Sonserina nada tem a ver com ser um puro-sangue, praticar magia das trevas ou ser maligno, mas sim com o desejo de realizar grandes feitos e possuir a astúcia necessária para atingí-los.

Nota:

¹ Horcrux: Objetos enfeitiçados através de magia proibida. O Bruxo que realiza tal feitiço deve cometer assassinatos para corromper a própria alma e depositá-las em objetos, impedindo assim a sua morte. Caso o objeto seja destruído, o fragmento de alma contido no mesmo também será destruído. Em Harry Potter, Lord Voldemort utiliza deste artifício visando tornar-se imortal.


REFERÊNCIAS

ADICHIE, Chimamanda. O Perigo de Uma Única História. Disponível em <https://drive.google.com/file/d/0B95g_fJXEVuZOHRtYTZldnhQUjg/view > . Acesso em 03 de Julho de 2017.

ROWNLING, J.K.. Sonserina. Disponível em < http://pottermore.potterish.com/harry-potter-e-a-pedra-filosofal/capitulo-07/momento-3/sonserina >. Acesso em 03 de Julho de 2017.

ROWNLING, J.K. Harry Potter e a Pedra Filosofal. Ilustração por Jim Kay. Trad. Lya Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.

ROWNLING, J.K. Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Trad. Lya Wyler. Rio de Janeiro: Rocco 2005.

ROWLING, J.K. Hogwarts houses: Slytherin. Disponível em: <https://www.pottermore.com/collection/all-about-slytherin >. Acesso em 4 de julho de 2017

 

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