Os 20 anos da Pedra Filosofal: um debate sobre as casas de Hogwarts – Lufa-Lufa

“Quem sabe é na Lufa-Lufa que você vai morar;

Onde seus moradores são justos e leais,

Pacientes, sinceros, sem medo da dor;”

(ROWLING, 2000, p. 89)

 

Falar de preconceito, essencialismo e anti-essencialismo enquanto elementos presentes no universo ficcional criado por J. K. Rowling assume uma nova dimensão quando nos damos conta de que a própria obra da autora já foi — e continua sendo — alvo de discriminações fundamentadas em essencialismos por parte de instituições diversas, como a Academia, entidades religiosas e, por tabela, certo modelo de família. No entanto, assim como ocorre no universo bruxo que vemos através dos olhos de Harry Potter, preconceito e noção de essência continuam atendendo aos discursos elitistas que, felizmente, têm sido cada vez mais dissecados por uma série de correntes teóricas, como a crítica feminista, os estudos subalternos e pós-coloniais, as teorias queer, dentre tantas outras. E, a despeito da permanência de tais discursos, ocupados em operar uma triagem entre o que é ou não literário, entre o que é ou não bom, a obra de Rowling continua sendo fonte para as mais prementes discussões, bem como parâmetro para escritores de literatura infantil e juvenil mundo afora.

Das quatro casas de Hogwarts, a Lufa-Lufa assume um importante papel no projeto de elaboração discursiva da autora, sendo a casa que sofre maior grau de apagamento e desvalorização oriundos de ideias pré-concebidas. Assim, Rowling, por meio da Lufa-Lufa, articula uma série de questões implicadas na nocividade da discriminação de grupos nas relações humanas, como o apagamento e a exclusão. É inevitável não associar esta Casa a estereótipos, os quais se manifestam em vários níveis, como nos discursos das personagens acerca da casa e no modo como eles conseguem ser reproduzidos por um número expressivo de fãs que costumam ridicularizar a casa.

“— Bom, ninguém sabe mesmo até chegar lá, não é, mas sei que vou ficar na Sonserina, toda a nossa família ficou lá, imagine ficar na Lufa-Lufa, acho que eu saia da escola, você não?” (ROWLING, 2000, p. 61).

Em contrapartida, a Lufa-Lufa é a casa mais representativa da inclusão e de ideais igualitários, tendo sido fundada por Helga Hufflepuff, a quem, conforme o Chapéu Seletor, é atribuída a fala “Ensinarei todos, e os tratarei com igualdade”. Esse ideal de igualdade e respeito mútuo se estende inclusive para outras formas de vida, como a fauna e a flora do mundo bruxo, daí podermos acompanhar essa influência regendo o estilo de vida de certas personagens desta Casa, como a professora de herbologia, Pomona Sproutt, diretora da Lufa-Lufa, a qual contribuiu para proteger a Pedra Filosofal e curar os que foram acometidos por paralisia no segundo livro, e Newt Scamander, autor de Animais fantásticos e onde habitam.

“Três vezes por semana iam para as estufas de plantas atrás do castelo para estudar herbologia, com uma bruxa baixa e gorda chamada Professora Sproutt com quem aprendiam como cuidar de todas as plantas e fungos estranhos e descobriam para que eram usados” (ROWLING, 2000, p. 100).

Pertencer à Lufa-lufa traz consigo o estigma de fracasso total e completo. Propaga-se que pertencer a esta casa é ser essencialmente fraco(a), a ponto de se considerar a possibilidade de desistir da carreira escolar ao ser alocado em tal casa. Ser lufano(a) é, então, pertencer a esse grupo marginalizado, acerca do qual se diz pouco e o pouco que se diz só agrega mais e mais marginalidade. No entanto, como é de se esperar, esses preconceitos dizem mais acerca dos que o praticam e muito menos (ou nada) sobre aqueles que são seu alvo, e não há discurso mais forte para esfacelá-los do que sua contradição materializada, isto é, os corpos, como é o caso de Cedrico Diggory, Ninfadora Tonks e Newt Scamander.

NEWT
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Para horror de parte expressiva do corpo estudantil de Hogwarts, o lufano Cedrico Diggory foi eleito pelo Cálice de Fogo¹ como sendo Campeão de Hogwarts para competir no grande Torneio Tribruxo. Não apenas foi eleito, como chegou ao final da competição, tornando-se vencedor, apesar do trágico incidente que culminou em sua morte. Ninfadora Tonks, pela tradição, deveria pertencer à Sonserina, conforme seu histórico familiar. No entanto, contrariando essencialismos, é eleita como membro da Lufa-Lufa, uma das razões pelas quais não é reconhecida como membro da família dos Black, em cuja árvore genealógica encontram-se Draco Malfoy e Belatriz Lestrange. Tonks torna-se aurora (membro de uma elite especializada no combate às Artes das Trevas), integrante mais jovem da Ordem da Fênix e participa na luta contra Lorde Voldemort. Por sua vez, Newt Scamander foi o precursor dos estudos sobre as criaturas mágicas e, portanto, considerado o especialista mais renomado da área. Recentemente foi confirmada uma franquia com cinco filmes protagonizando Newt Scamander, protagonismo esse que não encontramos nos livros, em que as outras casas recebem maior destaque. E, por fim, para evidenciar ainda mais a importância dessa Casa, que pretenda desqualificá-la e diminuí-la, é interessante saber que a própria J. K. Rowling afirmou pertencer à Lufa-lufa, em outras palavras, devemos todo o universo de Harry Potter à uma lufana declarada.


Nota
¹ Artefato mágico que surge no quarto livro da saga e que é responsável por selecionar os participantes do Torneio Tribruxo, que é conhecido por propiciar fama e reconhecimento aos selecionados, os quais ocupam a posição de representantes de suas respectivas Escolas de Magia.


 REFERÊNCIAS

ROWLING, J. K. Harry Potter e a pedra filosofal. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

 

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