Os 20 anos da Pedra Filosofal: um debate sobre as casas de Hogwarts – Híbridos e Hatstall

 

As crianças atravessam os grandes portões de Hogwarts e caminham até o banquinho onde está um chapéu velho. Ignorando possíveis adendos descritivos às cenas de seleção presentes em Harry Potter, todo o processo, em primeiro momento, pode parecer consideravelmente simples; isso não parece acontecer devido à falta de complexidade naquele processo simbólico inicial em si – o primeiro que os calouros encontram ao entrar em Hogwarts –, mas ao tratamento dado à essa celebração inicial em produções relacionadas ao universo mágico. Afora algumas reações aos eventos durante a sequência, que inicia com diálogos introdutórios sobre as casas e termina com a seleção dos calouros em casas onde estariam “seus iguais”, o significado da cerimônia parece analisar as crianças apenas de modo unidimensional, colocando-as com aqueles que seriam os integrantes de sua nova família dentro dos limites da escola; um grande vácuo parece se abrir neste momento.

The-Sorting-Ceremony.png                                                                                        Foto retirada do Pottermore

Em primeira perspectiva, existem dois tipos de crianças naquele contexto: os nascidos bruxos, conhecedores daquele universo e para quem a entrada na escola de magia tem um significado particular nos primeiros passos do desenvolvimento maduro, e os nascidos trouxas, para quem aquele universo completamente novo aparece como uma incógnita de conhecimento, construção e desconstrução processuais, durante todos os anos letivos até a formação, ao final dos sete anos. Quanto aos mestiços, eles podem ou não conhecer o universo mágico, estando, deste modo, também presentes em uma das unidades mais “duras”, de delimitação simples, citadas acima. Qualquer uma das crianças, não importam suas perspectivas, estão colocadas num mesmo contexto. Ambas serão selecionadas pelo chapéu e, de certa forma, a indicação de sua casa está diretamente associada às características que cada uma delas tem em si. Esses dois tipos inicias, de contextos diferentes, estão também percebendo estas mesmas informações de modos completamente diferentes, o que não quer dizer que o modo de ler aquele universo está diretamente ligado ao contexto do qual vieram, mas devido ao universo de singularidades que se formou dentro de cada uma delas durante sua construção enquanto indivíduos. É esse o ponto que nos tem inquietado desde o início das postagens até o momento: como o sujeito contemporâneo seria representado nessa dinâmica (que, inclusive, julgo complexa, apesar de divergências nessa leitura, que não cabem aqui, talvez em outra postagem) e como essa mesma dinâmica tenta(ou) responder questionamentos quanto às identidades fragmentadas do pós-moderno. Questiona-se qual seria a melhor maneira de perceber nesse contexto os elementos de caracterização da subjetividade do sujeito contemporâneo, em sua fragmentação e múltipla visão – muitas vezes incoerente e inconstante.
Há ainda nesse contexto uma possibilidade considerada rara: os hatstalls. Considera-se que o Chapéu Seletor é, de certo modo, infalível – isso está muito mais associado às suas características humanas, pois é ele “extremamente teimoso” –, então, ao se deparar com um bruxo de difícil leitura, o Chapéu pondera a respeito de suas escolhas possíveis, a escolha da casa mais adequada, durante mais de cinco minutos; é isto o hatstall. Situação na qual, devido as diferentes possibilidades de escolha para um bruxo, pois ele podeira fazer parte de mais de uma casa, o Chapéu não sabe exatamente qual seria a melhor das escolhas. Alguns hatstalls aparecem durante a série: a professora Minerva, Hermione, Neville e Pedro Pettigrew; a ideia dessa impossibilidade está associada a um hibridismo, pensando, desse modo, a multiplicidade do sujeito (ninguém é apenas corajoso, ou apenas inteligente, ou apenas impiedoso, ou apenas afável), as características se inter-relacionam de modo complexo e muito mais amplo, influenciadas diretamente pela complexidade da dinâmica social e da maneira como os sujeitos dialogam com o mundo em redor e sua posição em determinado momento; em determinado contexto social; é o que sugere Stuart Hall, teórico da identidade pós-moderna.
Isso implica, é claro, numa mutabilidade constante e nos diálogos correlacionais infindáveis entre o eu do agora e o eu do depois, mesmo o embate entre os dois diferentes momentos do ser, pensando como “à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar”, sugere Hall. O pertencimento àquela família – instância muito bem localizada na cultura, principalmente pensando a ocidental – precisa ser lido apenas como um primeiro plano, como já foi mostrado em postagens anteriores: o sujeito se caracteriza, configura e reconfigura constantemente, de modo plural, “assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente”, diz Hall.
O pensar as famílias, antes de ser feito como unidimensionalidade, antes de ser feito como uma leitura chapada daqueles personagens, deve ser pensado associado a uma necessidade de pertencimento presente naquele contexto, lida ao lado da relação com a distância do lar, do contato com o que não se conhece, o descobrimento da possibilidade de novos laços e o distanciamento – ao menos temporário, talvez – dos antigos e, acima de tudo, da primeira referência de suporte. Falo isso pensando o molde idealizado ocidental de família, é claro – que ainda é tensionado levemente com a configuração familiar de Harry e sua relação com os Dursley. Mas não devo entrar neste ponto em particular agora; o que proponho é colocar parcialmente de lado a leitura simples das características cantadas pelo Chapéu Seletor – e que carregam profundamente as marcas unidimensionalidade do sujeito –, pensando os textos anteriores desta série, e ler as Casas de Hogwarts como uma instância de mútuo suporte – se não a familiar, que seja qualquer outra leitura possível.
Não digo que apegar-se as características cantadas pelo chapéu sejam, de fato, um problema. É apenas uma maneira de ler as diferentes – e amplas – significações espalhadas por mais de 3000 páginas (variável). Uma mera sugestão. Se as casas existem, talvez, não sejam simplesmente pensando um viés classificatório; ou puramente “seletor”.
“O banquete de abertura do ano letivo vai começar daqui a pouco, mas antes de se sentarem às mesas, vocês serão selecionados por casas. A seleção é uma cerimônia muito importante porque, enquanto estiverem aqui, sua casa será uma espécie de família em Hogwarts. Vocês assistirão a aulas com o restante dos alunos de sua casa, dormirão no dormitório da casa e passarão o tempo livre na sala comunal.” (ROWLING, 2016)

 


REFERÊNCIAS

HALL, Stuart. A identidade em questão. In: A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva, Guacira Lopes Louro. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

ROWNLING, J.K. Harry Potter e a Pedra Filosofal. Ilustração por Jim Kay. Trad. Lya Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.

ROWLING, J.K. Hatstall. Disponível em: <https://www.pottermore.com/writing-by-jk-rowling/hatstall >. Acesso em 5 de julho de 2017

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