Os Molambolengos: um espetáculo medonho para todas as idades

Era uma vez uma esperta e amável garota

Que se perdeu em um parque de diversão.

Ela se arriscou a entrar

Na carroça sem pensar,

Quer saber qual foi a sensação?

(LILLY, 2015)

Os Molambolengos (The Squickerwonkers, no original) foi escrito pela atriz Evangeline Lilly e ilustrado por Johnny Fraser-Allen. O livro narra a história de Selma, uma criança bastante mimada, a qual decidiu se aventurar pelos mistérios de um circo itinerante, depois de estar perdida, apenas com a companhia de seu urso de pelúcia e um balão de ar vermelho, durante uma noite deserta. O referido circo, como ilustrado abaixo, possui uma aparência similar à de uma cabeça: onde as janelas são olhos e a porta de entrada é a boca, o que sugere que aquele que entrar no circo será devorado por ele. Além disso, a parte lateral do local lembra a proa de um navio, capaz de sinalizar que, embora quem se arrisque a entrar será engolido, também navegará por uma aventura misteriosa. Esses elementos em conjunto indicam que a decisão de entrar no circo será um caminho sem retorno. Ainda assim, a “esperta e amável garota” segue adiante.

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Alguns leitores, se não a grande parte, podem julgar negativamente a decisão de Selma e se perguntarem sobre os ensinamentos que os pais deram a ela, para que tomasse uma decisão tão absurda. No entanto, o que poucos levam em consideração é que “[…] a emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido” (LOVECRAFT, 2007, p.14) e, neste caso, a curiosidade da criança a fez encarar o desafio de frente. O que os pais a ensinaram, ou não, não deveria ser levado em pauta nesse instante, mas sim a audácia da criança em desbravar o desconhecido. O medo, embora alguns busquem repudiar, também se faz presente na infância.
As ilustrações que compõem o livro, tal como a história narrada, apresentam tons sombrios e pitorescos. Desta maneira, o pictórico e o verbal trabalham juntos para a construção da narrativa e poeticamente transmitem a história ao leitor.
Após entrar na carroça circense, uma voz reverbera pelo ambiente e recepciona a menina, convidando-a para assistir ao espetáculo. O dono da voz, até então, é desconhecido, mas há uma sombra no chão do palco capaz de induzir o leitor a pensar que se trata do maestro. O interior do ambiente é complexo, com uma ambientação detalhada e excêntrica: o palco é amarelado, em contraste com a sobriedade da plateia, na qual Selma e seu urso são os únicos presentes; parte das cadeiras estão caídas no chão e rostos de madeira enfeitam as paredes do tablado. Apenas um rato escondido na escuridão, porém, como sinalizado pelo livro, sem saída, é sinal de “alma viva” no local.
De repente, um barulho do alto!
A girar, nove vultos, assombrados!
Seus corpos dependurados
Como se fossem nós, entrelaçados,
Como se os nove, juntos, estivessem enforcados!
(LILLY, 2015).
Diante dessa cena, as faces de Selma e do urso são focalizadas. A menina, de boca aberta, encontra-se surpresa e, possivelmente, assustada com o que acabara de acontecer, assim como o animal de pelúcia, o qual não aparenta estar seguro sobre aquela situação. Graças ao foco, o leitor passa a ter conhecimento da aparência da criança: cabelos loiros trançados, olhos verdes, pele branca e trajes de babados. Contrastando com os dois, as descrições feitas sobre as novas personagens inseridas na narrativa são assombrosas: cadáveres em formato de marionetes. A voz anterior ressurge e pede a menina que se aproxime, dando início, assim, a apresentação dos outros nove.
O elenco do espetáculo apresenta nomes bastante sugestivos, os quais estão gravados em placas carregadas por ratos cinzentos. A começar pelo chefe dos Molambolengos, Papai Pedante, “cheio de não me toques, não se mistura nem se comove com a população pagante” (LILLY, 2015). Ele está acompanhado da sua esposa, Mamãe Malandra, “basta seguir o rastro, de tudo que deu errado, a encrenca Mamãe comanda” (ibid). O casal encontra-se ricamente trajado e as suas faces são pouco atraentes: moedas no lugar dos olhos, enquanto o homem está com uma expressão malandra no rosto, a mulher emburrada está com ar de pura arrogância. A ilustração de ambos sugere que eles gozam de privilégios que outros não são capazes de desfrutar, o que explicaria o sentimento de superioridade que ambos carregam. Em sequência, “há também o Carlos Culpado: passa os dias inquieto e preocupado, andando atrás de sua querida, o amor de sua vida, que só quer o que não foi dado” (ibid), Gilda Gananciosa, apresentada como uma ladra. Os dois também possuem olhos de moedas, assim, o destaque da ilustração encontra-se na enorme cabeleira alfinetada da esposa, capaz de comportar os objetos furtados por ela. Curiosamente, os olhos dela miram a bolsa de Mamãe Malandra, enquanto os do marido a encaram. Após eles, tem-se André Arrogante, descrito como “o bonitão da parada. Ele é grande e forte, muitos invejam o seu porte… Mas na cabeça ele não tem nada” (ibid), que está segurando, ou melhor, exibindo uma mulher como se ela fosse seu troféu. O nome da figura feminina é Lúcia Lesada, “que reclama de tudo e não gosta de nada. Não sabe se divertir sem compromisso, seus joelhos até parecem ouriços. Ela é desleixada, tristonha e mal-humorada” (ibid). A ilustração dos dois é bastante sugestiva e, ao dialogar com o texto verbal, é capaz de representar um caso explícito de relacionamento abusivo, em que a mulher insegura está completamente submissa ao homem, que pouco se importa com o sofrimento vivenciado por ela e que está satisfeito com as aparências que juntos transmitem. Quase por último, são apresentados Golias Glutão e Elias Espetáculo. Enquanto o primeiro é bem volumoso, “feito de rosca e bolo” (ibid), além de medroso; o segundo “gosta de contar piada, ama mulheres e fumaça, e, que desgosto, é muito bruto”. Por estarem um ao lado do outro, muitas explanações são possíveis, entre elas, a possibilidade de representarem a situação de bullying, já que a descrição feita sobre Elias Espetáculo, tal como a sua face, não demonstra que ele tenha pudor nas suas piadas ou respeite alguém, muito menos a situação pela qual a outra pessoa pode se encontrar. Por fim, tem-se Marta Muda, que “já é uma líder, tem fome de poder. Ela é sábia e segura, suas intenções até são puras, mas os inimigos ela vai comer!” (ibid). Apesar de nova – uma bebê, mais exatamente –, ela é ambiciosa e não aparenta ter escrúpulos para alcançar o que almeja. O chocalho que ela segura lembra um microfone, o que confronta o seu sobrenome e pode insinuar o seu forte poder de persuasão, ainda que sem palavras.
Feitas as apresentações necessárias, a voz misteriosa continua o show e questiona Selma se ela resolverá ir embora ou participar do espetáculo. A menina, a qual “embora fosse desconfiada, o medo não a impedia de nada” (ibid), pôs-se a subir no palco. Uma vez lá, os Molambolengos se aproximaram, enquanto cantavam uma canção e estouraram o balão da criança. Inicialmente, ela começa a chorar, mas, depois, põe-se aos berros e, enfurecida, os repreende, utilizando do título afortunado de sua família, Ricos da Realeza, e os ameaça: “Quando meu Vovô souber que me fizeram chorar, vocês vão ver o que é castigo e eu não tenho dúvida de que ele não aceita permuta pelo que fizeram comigo” (ibid). A ilustração que acompanha o texto verbal retrata uma menina emburrada e de punhos cerrados na cintura. E, assim, a inicialmente “esperta e amável garota” revela-se extremamente mimada e arrogante. Prossegue-se:
ScanEla berrou e ela gritou, os punhos travados no ar,
E deu chilique, que nem perereca.
Ela gemeu e chiou,
Ela bramiu e chutou,
E quando pensaram que estava acabada a baderna…
 
Caiu do teto um novo fantoche
Igualzinho ao Vovô Ricos da Realeza!
Veio uma onda sombria, de agitação,
Coisas estranhas em profusão
Sob a luz das lâmpadas e acima das cabeças!
(LILLY, 2015).
A aparência do Vovô Fantoche é similar a dos outros nove: moedas no lugar dos olhos, membros amarrados e cabelos feitos de palha. No entanto, “em sua fúria irracional Selma enxergava mal” (ibid) e não percebeu a constituição física do novo membro. Acreditando que se tratava do seu avô, ordenou-o que castigasse a trupe por ter estourado o seu balão. Satisfeita, “ela olhou para todos os Molambos, da pontinha do pé à pontinha dos ombros” (ibid), enquanto pensava que o avô a obedeceria. O senhor, a contraponto, reconhece que a criação recebida pela menina não lhe fez bem. Constantemente mimada e superprotegida, a menina agia como se pudesse passar por cima de todos os demais e fosse superior a eles. Assim, após um acordo, a menina é castigada e se torna o novo membro dos Molambolengos.
Com essas palavras certeiras, uma mudança
Pegou Selma Sem Limite de surpresa.
Suas cordas agora amarradas,
Suas roupas, remendadas
E nos olhos, moedas, que tristeza!
(LILLY, 2015).
Após a conclusão da narrativa, na qual é revelado que, de fato, Selma foi devorada pelo circo, passando a fazer parte dele, o livro traz um breve comentário de um escritor e ilustrador britânico de livros infantis a respeito da atual produção de livros do gênero:
Nos últimos tempos, as publicações dedicadas ao público infantil têm se tornado extremamente cautelosas, com receio de ferirem os sentimentos daqueles que acreditam que as crianças devem ser mantidas a salvo, protegidas em suas embalagens de fábrica. Mas as crianças em si não são assim: aventurosas por natureza, amam colocar seus próprios medos à prova.(BAYNTON, 2015).
O autor, assim, assegura que a concepção higienizada de infância, adotada por muitos, distancia, desnecessariamente, as crianças de certas situações e saberes. Parte considerável da sociedade está se acostumando a superproteger as crianças e não estão cientes das mazelas que esta atitude pode provocar. A superproteção e o ato excessivo de mimar, na obra de Evangeline Lilly, desencadearam na situação que castigou Selma Sem Limites, e não o ato de aventurar-se em um excêntrico circo, em uma noite sombria. Ela não foi engolida pela excêntrica carroça pela sua audácia em encarar o misterioso, mas devido à sua arrogância.
Deve-se, ainda, ter em mente que “o medo é uma emoção dolorosa quando estamos expostos às suas causas. Porém, quando o experimentamos sem colocar em risco a nossa integridade física, entramos no campo dos prazeres estéticos” (FRANÇA, 2012) e, assim, não nos caberia censurar o horror como integrante da literatura infantil, tratando-o como tabu. As crianças são capazes de lidar com o medo estético, à sua própria maneira. Em verdade, “a maioria das proibições diz respeito à capacidade de fruição, à liberdade de movimento e comunicação” (FREUD, 2013, p.16) e, se a infância higienizada é tida como contexto, a situação não é diferente, e sim mais intensa.
Ademais, Os Molambolengos é uma obra que abarca temáticas problemáticas que podem passar despercebidas, a depender do olhar do leitor: a ganância, a corrupção, a desigualdade social, o relacionamento abusivo, além do clássico “as aparências enganam”. Numa única obra infantil, a autora do livro demonstrou respeito o suficiente para com o seu leitor e não o privou de determinados assuntos polêmicos, conversando com ele em pé de igualdade. Assim, ela tem consciência de que as crianças “são pessoas como nós, com os mesmos dilemas existenciais que nós, e de certa forma com dilemas ainda piores, pois enquanto nós adultos já recebemos algumas respostas da vida, a deles ainda está totalmente em aberto, o que é muito mais angustiante” (LACERDA apud BELLÉ, p. 45). É esse nível de seriedade que deve ser incentivado na infância, e não a popular política de segredos, que pouco diz às crianças e que, por vezes, negligencia situações pelas quais elas já estão passando, assim encaminhando-as a um futuro com potenciais traumáticos.
Por fim, segue-se um vídeo com a performance da autora ao ler o seu livro para uma plateia em uma livraria de Los Angeles (clique aqui). Infelizmente, ele não está legendado, mas a experiência de vê-la interpretando o seu livro é cativante; ainda mais por ser possível observar o respeito que ela tem pelo elemento pictórico, pausando a leitura o suficiente para que as ilustrações também sejam apreciadas e levadas em consideração durante o processo de leitura.

REFERÊNCIAS

BELLÉ, Junior. Era uma vez… A densidade da literatura infantil. In: Revista da Cultura, no 78, São Paulo/Janeiro de 2014.

C SOSA. Evangeline Lilly: The Squickerwonkers Reading 11/22/2014. Disponível em:

< https://youtu.be/0NeMHuOT0s8?t=1m20s >. Acesso em 25 de abril de 2017.

FRANÇA, Júlio. Monstros reais, monstros insólitos: aspectos da literatura do medo no Brasil. 2012. Disponível em: <https://sobreomedo.files.wordpress.com/2012/09/15092012.pdf&gt;.  Acesso em 25 de abril de 2017.

FREUD, Sigmund. Totem e tabu: algumas concordâncias entre a vida psíquica dos homens primitivos e a dos neuróticos. Trad. Paulo César de Souza. 1 ed., 2ª reimpressão. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013.

LILLY, Evangeline. Os Molambolengos. Ilustrado por Johnny Fraser-Allen. São Paulo: Aleph, 2015.

LOVECRAFT, Howard Phillips. Introdução. O Horror Sobrenatural em Literatura. Tradução de Celso M. Paciornik. Apresentação de Oscar Cesarotto. São Paulo: Iluminuras, 2007.

 

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